Viver com propósito

Entenda por que ter objetivos definidos é a chave para chegar bem à velhice e viver mais

Raquel Drehmer Colaboração para UOL VivaBem
Brunna Mancuso

Motivos

Existem diversas formas de se medir o valor de uma pessoa. Mas algo muito comum, principalmente entre aqueles que nasceram entre as décadas de 1960 e 1980, é ter seu valor social ligado a produtividade e trabalho. Essas pessoas passam a vida toda construindo carreira na mesma empresa, se relacionando com as pessoas dentro do seu papel nesses locais, e quando a aposentadoria chega, perder esse status deixa um vazio.

A sensação de não ter mais uma serventia arrasa com a autoestima desses idosos, até porque dificilmente alguém faz planos para esta idade. Sem um propósito, se veem como desnecessárias na velhice, o que pode levar a problemas como isolamento social, depressão e ansiedade.

Neste contexto, o contínuo aumento da expectativa de vida no Brasil tem um sabor agridoce. Ao mesmo tempo em que é uma boa notícia saber que se espera que as mulheres brasileiras vivam 79,6 anos e os homens, 72,5 anos (de acordo com o IBGE --Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), surge a preocupação em como evitar que todo esse tempo "extra" pós-aposentadoria --19,6 anos para elas e 7,5 anos para eles -- seja motivo de transtorno.

Falta de opções x Falta de interesse

Existem duas questões relevantes na inatividade de homens e mulheres quando aposentados. Por um lado, a própria sociedade não é preparada para lidar com o envelhecimento de sua população. Em espaços públicos, principalmente praças e parques, o máximo que se vê para os idosos são alguns equipamentos básicos de exercícios físicos e mesas de jogos de tabuleiros, como damas e xadrez. Em algumas datas especiais, a exemplo do Dia do Idoso (1º de outubro), aulas coletivas de tai chi chuan ou de alongamento são propostas em alguns locais, muitas vezes de forma tímida.

Por outro lado, a sensação de não ter serventia gera uma notória falta de interesse por parte de grande parcela dos idosos em procurar atividades que vão além do que está ao alcance dos olhos em qualquer passeio. Universidades, instituições do Sistema S (em especial Sesc e Sesi), hospitais e operadoras de planos de saúde possuem vasta programação direcionada ao público aposentado, e não é raro muitas das aulas e oficinas serem ministradas com vagas não preenchidas. Isso porque muitos idosos acham que já passaram da idade para estudar coisas novas e terem outros interesses.

Outra opção seria estes idosos se encontrarem com amigos para jogar cartas, bingo ou apenas conversa fora. No entanto, o isolamento social que muitos se impõem dificulta até mesmo algo tão simples. Nestes casos, o recomendado é que a família busque a ajuda de psicólogos ou psiquiatras especializados em gerontologia para auxiliar no desabrochar da sociabilização na terceira idade.

Mas como um propósito pode impactar tanto a saúde mental?

Como dito anteriormente, a aposentadoria costuma estar ligada à sensação de não ser mais útil. Em um primeiro momento, as pessoas sentem um certo alívio por não precisarem mais cumprir horários, prestar contas para chefes ou cobrar os funcionários. No entanto, logo que essa euforia passa, os dias começam a parecer mais vazios e sem sentido. E se não houve um preparo para a transição do "eu adulto" para o "eu idoso", os males vem em cascata.

Começam pela saúde mental: à medida que os desafios cotidianos diminuem, ganham espaço uma melancolia e tristeza que tendem a resultar em depressão. Aos poucos, podem começar a desencadeiar-se as perdas de capacidade de autonomia e de estímulos intelectuais.

Independentemente da idade, é importante ter expectativas, objetivos e um motivo para sair da cama todas as manhãs. O ânimo gerado pelos simples planos de ir a uma aula de natação ou de uma nova aptidão, de encontrar amigos e familiares ou de ler um belo livro aumenta a produção dos hormônios da felicidade --endorfina, ocitocina, dopamina e serotonina -- e afasta o risco de desenvolvimento de doenças mentais.

O corpo também agradece

  • Facilidade de mobilidade

    Manter-se em atividade impacta no controle do peso e na capacidade de caminhar com agilidade. O cérebro entende que aquele organismo precisa de energia para continuar no ritmo e comunica isso ao corpo com a manutenção da produção de hormônios que auxiliam na mobilidade, como a adrenalina, a noradrenalina e a endorfina.

  • Força muscular

    Manter-se em atividade impacta no controle do peso e na capacidade de caminhar com agilidade. O cérebro entende que aquele organismo precisa de energia para continuar no ritmo e comunica isso ao corpo com a manutenção da produção de hormônios que auxiliam na mobilidade, como a adrenalina, a noradrenalina e a endorfina.

  • Articulações mais saudáveis

    O corpo de quem tem objetivos diários cria mecanismos de compensação que impedem o desenvolvimento de artrose, doença causada pelos movimentos articulares repetitivos aliados ao envelhecimento do organismo.

  • Maior equilíbrio

    A falta de equilíbrio na velhice é causada pela diminuição da percepção do sistema nervoso central quando a atividade cerebral é reduzida. Se o cérebro continua em atividade, o risco dessa alteração é muito menor e o equilíbrio é mantido.

  • Menos risco de diabetes

    Os exercícios físicos, mesmo que suaves como uma caminhada toda manhã, ajudam na prevenção do diabetes, pois controlam os níveis de açúcar no sangue. Idosos que se mantêm em movimento têm menos risco de desenvolver a doença.

  • Pressão arterial controlada

    A pressão arterial tende a subir na velhice por causa de alterações do organismo como as microlesões nas paredes dos vasos sanguíneos e as alterações na produção de hormônios. Corpo e cérebro ativos retardam esse processo e protegem a saúde cardíaca.

Por que não planejamos além?

Além de utilitarista, a cultura brasileira é imediatista: os objetivos são para agora, no máximo para as próximas férias. Dificilmente se vê alguém planejando uma caça a auroras boreais depois da aposentadoria ou estabelecendo como meta ler todos os livros de Agatha Christie. Poucas pessoas lembram que ficarão velhas e se preocupam com isso.

A menção distante de uma terceira idade normalmente vem associada à ideia de descanso, e o próprio termo "se aposentar" remete ao recolhimento em seus aposentos para repousar. Além disso, poucas pessoas jovens se vem como velhos: idoso é o outro. Pensar no envelhecimento significa perder seu status produtivo. Assim, não se planeja esse futuro.

Mas passar dos anos é inevitável e, se a vida não for interrompida por um acidente, todos chegam à velhice. E assim como planejamos nossas férias para não só ficarmos em casa, é preciso encarar a aposentadoria com a mesma alegria desse período de descanso, com planos de realizações, viagens, estudos e o que mais lhe agradar.

Sem ideia do que fazer, a pessoa realmente só verá como alternativa o recolhimento. As consequências são, como já mencionado, doenças mentais como a depressão e a ansiedade. Também preocupa o crescente número de suicídios na terceira idade. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a cada 100 mil habitantes brasileiros, 5 cometem suicídio; acima dos 70 anos a taxa sobe para 9 indivíduos a cada 100 mil.

E a mulher? Encara tudo isso de forma mais saudável!

Falou-se muito até aqui sobre o status produtivo, que é algo muito ligado ao universo masculino. Mas como as mulheres reagem ao envelhecimento e aposentadoria? No geral, elas são mais cuidadosas com sua saúde e seus relacionamentos do que eles. Se sente uma dor, vai ao médico para investigar. Tem círculos de amizades que independem do trabalho. Não à toa, aproximadamente 75% das pessoas na terceira idade são do sexo feminino.

A chegada da velhice para a mulher costuma ser mais suave do que para o homem. Nessa fase elas se libertam de algumas amarras sociais importantes, como a busca por se encaixar em um padrão estético. De acordo com a antropóloga Miriam Goldenberg, depois dos 60 anos elas assumem a própria identidade. Ela realizou a pesquisa chamada "Corpo, Envelhecimento e Felicidade" com 5.000 homens e mulheres brasileiros de 18 a 96 anos.

Como a vida da mulher é majoritariamente focada nos cuidados com a família e no trabalho, elas também valorizam muito mais o tempo ganho com a aposentadoria, cuidando delas mesmas. Por isso aulas de ginástica e de artesanato para a terceira idade são compostas majoritariamente por mulheres e elas também se animam mais com novidades, são mais participativas em projetos novos.

Como descobrir meu propósito depois de mais velho?

  • Proteger seu grupo social e manter as amizades

    Não se afaste dos amigos de longa data, mesmo que vocês não se vejam mais diariamente no trabalho. É interessante estipular um dia --segundo sábado de todo mês, por exemplo -- para um almoço, um jantar, uma sessão de filmes ou qualquer atividade que os una.

  • Ampliar seu grupo social

    Novos interesses levam a novos cursos e, consequentemente, novos amigos. Permitir-se conhecer gente nova e estender o relacionamento para o dia a dia --que tal um café ou um suco uma vez por semana? -- ajuda a criar aquele motivo para levantar da cama com vontade.

  • Aceitar o novo e continuar aprendendo

    Quem sempre quis falar outros idiomas, deve se matricular em um curso de uma língua que não fale, aqueles cujas aptidões artísticas sejam fracas podem fazer um curso de desenho e outro de artesanato. Por que não fazer uma faculdade? O novo desperta a vontade de viver com mais alegria e mais disposição.

  • Ouvir os mais jovens com interesse

    Cada geração tem suas peculiaridades, limitações e sabedorias. Ao conversar com os mais novos, a pessoa de terceira idade pode aprender sobre alimentação saudável e reciclagem, entre outros assuntos que não faziam parte dos interesses de décadas atrás e hoje são naturais para os jovens adultos. Mais uma vez: novos conhecimentos que dão sentido à vida.

  • Ter consciência das limitações físicas

    Por mais vontade de ser ativo que exista dentro dele, o indivíduo idoso tem algumas limitações físicas. O fôlego diminui, a elasticidade pode decair um pouco. Para não se frustrar e desistir, é importante ter claro para si que o importante não é manter o rendimento de quando tinha 30 anos, mas sim ter o melhor rendimento possível para a idade e o corpo que possui agora.

  • Caminhar 30 minutos para observar as belezas do mundo

    Uma visão positiva do mundo beneficia o cérebro, pois auxilia na produção dos hormônios da felicidade. Por isso, uma dica dos especialistas é caminhar e aproveitar para perceber flores diferentes em um jardim, uma família passeando com seu bebê, uma vitrine com novidades. Além disso, o exercício físico da caminhada é muito bom para a saúde física.

De contador a Papai Noel - sem perder o gosto pelos jogos de cartas

"Quando as pessoas se aposentam, normalmente ficam amuadas. Eu decidi não ficar e procurei coisas novas para fazer. Fui jogar truco com os amigos e fundamos a Federação Paranaense de Truco", lembra Orlando Sálvaro, 77 anos e dono de mais de 600 troféus de carteado ganhos depois da aposentadoria.

Mesmo aposentado, o contador faz até hoje os impostos de renda de pessoa física dos amigos, "para ter março e abril bem ocupados", e é um Papai Noel requisitado no Paraná entre novembro e dezembro desde 2001. "Também sou auxiliar de produções de moda do meu filho caçula, que trabalha nessa área. Gosto de fazer coisas novas o tempo todo", diz.

Os jogos de truco estão mais raros por falta de um parceiro fixo: antes, ele tinha a companhia do outro filho, "mas ele casou, logo se tornou pai e não tem mais tanta disponibilidade para jogar comigo, é claro". Como o gosto pelas cartas não diminuiu, hoje ele opta por disputar suas partidas online - nunca por dinheiro, só por diversão.

A tecnologia também tem ajudado Orlando a se refazer afetivamente. Ao ficar viúvo, em 2010, ele passou por um período natural de luto, tristeza e reclusão que durou mais de um ano. Aos poucos, foi superando a dor, se reencontrando e há dois anos usa apps de paquera para "flertar à distância com as moças".

Para ele, o mais importante da vida é estar em contato com outras pessoas. "É bom conversar, trocar ideias, isso afasta os pensamentos depressivos. Duas vezes por semana, encontro os amigos em um bar perto de casa. Posso até não beber, mas encontrar o pessoal é importante. A vida fica muito melhor", conclui.

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