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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças

Sintomas de depressão vão de tristeza a vontade de tirar a vida; veja mais

Camila Rosa/VivaBem
Depressão causa alterações no humor, autoimagem, funções cerebrais, comportamento, entre outras Imagem: Camila Rosa/VivaBem

Tatiana Pronin

Colaboração para o VivaBem

10/07/2018 04h00

Na depressão, a tristeza é um sentimento constante, que se manifesta pela maior parte do dia, quase diariamente, e por um período mínimo de duas semanas

Faz cerca de 300 anos que transtornos mentais como a depressão passaram a ser considerados doenças, e não manifestações com caráter sobrenatural. Apesar disso, ainda há quem resista à ideia de que sintomas como tristeza profunda ou apatia persistente possam ser comparados a condições como diabetes ou hipertensão. Assim como elas, a depressão pode gerar incapacidade e até matar nos casos mais graves, por isso é importante buscar ajuda.

Um relatório divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2017, aponta que a depressão afeta 4,4% da população mundial (5,1% das mulheres e 3,6% dos homens). No Brasil, a prevalência é um pouco maior que a média: de 5,5%, número que, nas Américas, só é superado pelos Estados Unidos.

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Ainda segundo o documento, o risco de desenvolver depressão é maior em situações como pobreza, desemprego, morte de uma pessoa querida, separação, doenças graves, dor crônica e abuso de álcool e drogas. Apesar disso, qualquer um pode ter o transtorno, inclusive aquele seu colega que parece ter uma vida perfeita nas redes sociais.

Diferente da tristeza comum

O sintoma clássico da depressão é a tristeza prolongada, por isso é comum as pessoas dizerem que estão deprimidas quando, na verdade, estão tristes porque algo de ruim aconteceu. “Mas na depressão, a tristeza é um sentimento constante, que se manifesta pela maior parte do dia, quase diariamente, e por um período mínimo de duas semanas”, especifica Antônio Geraldo da Silva, presidente eleito da Apal (Associação Psiquiátrica da América Latina) e diretor da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

A relação com o luto é frequente, mas também existem diferenças entre ambos. Quando a depressão coexiste com o sofrimento pela perda de um familiar ou parceiro, a dor não diminui após algumas semanas, como é esperado, e a pessoa não consegue retomar suas atividades ou funcionar como antes.

Como bem descreve o jornalista norte-americano Andrew Solomon, que enfrentou a doença, investigou o tema e o descreve no livro “O Demônio do Meio-Dia”, o oposto da depressão não é felicidade, mas vitalidade.

Como saber se tenho depressão?

Não existe um exame capaz de confirmar que alguém está deprimido. Por isso, o diagnóstico é clínico --ou seja, feito a partir da análise das queixas do paciente e do histórico individual e familiar do paciente. Os sintomas da depressão podem variar de acordo com fatores como a gravidade do transtorno e a presença de condições associadas, como ansiedade, sintomas obsessivos ou psicóticos. Veja algumas manifestações possíveis:

  • No humor: tristeza prolongada; perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram apreciadas; choro fácil ou apatia; irritação; mau humor;
  • Na autoimagem: sentimentos de culpa, vazio ou inutilidade; solidão; baixa autoestima; sensibilidade à rejeição; desamparo; desesperança;
  • Nas funções cerebrais: dificuldade para executar as tarefas do dia a dia, tomar decisões; problemas de memória e concentração;
  • Nos pensamentos: pessimismo; visão distorcida da realidade; ideias frequentes de morte e/ou de suicídio; pessimismo; pensamentos negativos persistentes (ruminações como “eu não vou conseguir”, “eu sou um fracasso”, “as pessoas estariam melhor sem mim” etc);
  • No comportamento: falta de energia; fadiga; inquietação; agitação psicomotora; lentidão nos movimentos e/ou na fala; mobilidade reduzida; isolamento; perda de libido; dificuldade de receber ou transmitir afeto; aumento ou perda de apetite; uso de álcool e drogas (para tentar obter alívio);
  • No sono: dificuldade para dormir, acordar muito antes do despertador ou dormir demais;
  • No resto do corpo: aumento ou perda de peso; sensação de peso nos braços ou nas pernas; dores ou problemas digestivos sem causa aparente e/ou que não melhoram com tratamento; baixa imunidade.

Como ajudar um parente ou amigo?

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Está suspeitando que um colega tem depressão? Incentive a busca de auxílio psiquiátrico, ou até marque uma consulta para pessoa Imagem: iStock
Se você identifica os sintomas da depressão em alguém, procure incentivar a pessoa a buscar auxílio psiquiátrico, ou até a marcar uma consulta para ela. Psicólogos, médicos de família e clínicos gerais também podem fazer avaliações e encaminhar pacientes para o tratamento psicológico ou psiquiátrico.

Embora nem todos os pacientes que se suicidam deem sinais de que vão fazer isso, alguns sinais devem servir de alerta, como frases pessimistas, mudanças de comportamento, isolamento, agressividade, passividade ou agitação.

É importante lembrar que o preconceito contra a psiquiatria muitas vezes impede a busca por orientação médica e tratamento correto. Lembre-se que depressão não é frescura, fraqueza ou falta de fé, e que frases como “seja positivo” às vezes podem aumentar a sensação de impotência de quem está deprimido. Procure ouvir, sem julgamentos, mostrar que está por perto, oferecer ajuda prática e buscar conselhos ou indicações de profissionais de saúde de quem já enfrentou a depressão.

Onde buscar ajuda?

Não tenha vergonha de pedir auxílio. O diagnóstico da depressão deve ser feito pelo psiquiatra, sempre que possível. Busque indicação de conhecidos, vá aos postos de saúde ou serviços de psiquiatria/psicologia das universidades de sua cidade. Você pode verificar o registro do médico nos sites do Conselho Federal de Medicina (CFM) ou da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que possuem listas com profissionais por cidade e estado.

O CVV (Centro de Valorização da Vida) dá apoio emocional gratuitamente e com total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas, em todos os dias da semana para quem está em desespero ou pensa em suicídio.

Como tratar?

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Os sintomas da depressão variam e os tipos de tratamento também. Um médico pode determinar se a melhor resposta é uso de remédio, terapia ou ambos Imagem: iStock
Após avaliação do paciente pelo psiquiatra, o tratamento é indicado de acordo com a gravidade dos sintomas, e da presença, ou não, de outros transtornos mentais.

Medicamentos: os mais indicados são os antidepressivos, que agem sobre alguns tipos de neurotransmissores (substâncias químicas que levam informação de um neurônio a outro). Existem diversas classes, com diferentes mecanismos de ação: os tricíclicos (ou ADTs, como amitriptilina, imipramina e clomipramina) e os inibidores da monoaminoxidase (ou IMAOs, como tranilcipromina) são os mais antigos. Em seguida, vieram os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ou ISRSs, como fluoxetina, sertralina, paroxetina e escitalopram), os inibidores duais, que envolvem também a noradrenalina (como venlafaxina e duloxetina), a dopamina (bupropiona) ou a melatonina (agomelatina). Ainda há outras drogas, que envolvem mecanismos diferentes (como a mirtazapina) ou agem em vários receptores (como a  vortioxetina e a vilazodona, mais novos e ainda pouco usados no Brasil).

Cada pessoa reage de uma forma, por isso não dá para dizer que um medicamento é melhor que o outro. Em geral, os antidepressivos levam de uma a quatro semanas para funcionar, e cerca de um terço dos pacientes não responde ao tratamento inicial. Por isso é importante que a pessoa seja acompanhada de perto nessa fase inicial. Hoje há alguns testes genéticos que podem guiar os médicos na escolha dos fármacos que serão melhor metabolizados pelos pacientes, economizando tentativas e erros. São exames caros, inacessíveis para a maioria da população e nem sempre determinantes para o sucesso da escolha. Mas é um campo de pesquisas em expansão, que pode trazer benefícios mais expressivos no futuro.

Os efeitos colaterais dos antidepressivos podem incluir constipação, boca seca, problemas sexuais, ganho de peso, sonolência ou insônia, entre outros, que podem ser administrados com ajustes na dose, trocas ou associações. Dependendo dos sintomas ou do tipo de depressão, o psiquiatra ainda pode (ou deve) receitar outros medicamentos, como ansiolíticos (contra ansiedade), indutores do sono, antipsicóticos ou estabilizadores de humor.

Psicoterapia: pode ser realizada por psicólogo ou psiquiatra. Existem diversas modalidades disponíveis, como individuais, em grupo, familiar ou de casal, breves ou mais longas, dependendo das necessidades do paciente. Existem linhas diferentes de trabalho. As terapias interpessoais ou psicodinâmicas tiveram origem na psicanálise e têm como objetivo estimular o indivíduo a tomar consciência e aprender a lidar com seus conflitos de forma mais adaptativa (ou saudável, digamos assim). A terapia cognitivo-comportamental é outra vertente e tem um aspecto mais prático, com exercícios que ajudam a reconhecer e mudar crenças distorcidas e comportamentos que alimentam o sofrimento.

A combinação da psicoterapia e de medicamentos é a que traz melhores resultados na depressão. Assim como os medicamentos podem ajudar a pessoa a obter avanços importantes na psicoterapia, esta também pode resultar em uma melhora no caráter químico da depressão, já que pensamentos e emoções são mediados por neurotransmissores, em última instância.

Em casos mais leves de depressão, só a psicoterapia pode ser suficiente, especialmente se associada a mudanças na rotina, como um estilo de vida mais saudável. “Para os casos de depressão de moderada a grave, o uso de psicofármacos é imprescindível e fundamental, visando o equilíbrio químico do cérebro”, diz Silva. “Só tomar remédio não adianta, porque sempre há questões psíquicas envolvidas”, ressalta o psicólogo clínico Hélio Deliberador, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É preciso entender conflitos, rever situações e, eventualmente, mudar crenças ou comportamentos para superar a doença como um todo, e não apenas aliviar os sintomas. 

Eletroconvulsoterapia (ECT): o procedimento é indicado em casos graves em que não há resposta aos medicamentos. Apesar da reação que desperta nas pessoas que não tem familiaridade com o tema, é um procedimento seguro e eficaz. É realizado com sedação e presença de anestesiologista, além de enfermeiros e do próprio médico psiquiatra, com autorização do paciente. Os efeitos colaterais mais comuns são problemas de memória transitórios.

Neuromodulação: técnicas não invasivas, como a estimulação magnética transcraniana (EMT), podem auxiliar alguns indivíduos que não respondem ou não toleram os medicamentos. Outros métodos, como a estimulação por corrente contínua (ETCC) e a estimulação profunda (invasiva, que funciona como um “marcapasso” no cérebro), têm sido empregados em caráter experimental.

Tratamentos complementares

Práticas como meditação, técnicas de relaxamento e respiração, mudanças nos hábitos alimentares, administração da rotina etc podem trazer benefícios para o sono e outros sintomas da depressão, quando associadas à psicoterapia e aos remédios. Fitoterápicos como a erva-de-são-joão (Hipericum perforatum) têm sido usados por muitos pacientes, mas é importante informar o médico ou psiquiatra, pois o princípio ativo pode causar interações medicamentosas. Muitos especialistas também indicam o uso de suplementos como vitamina D e ômega 3, que parecem ter papel protetor.

Vale destacar o papel da atividade física: vários estudos já demonstraram que os exercícios ajudam o corpo a liberar substâncias que promovem bem-estar. Uma revisão recente, feita por pesquisadores da Universidade de Toronto, e publicada no periódico American Journal of Preventive Medicine, mostrou que eles ainda ajuda a evitar a depressão a longo prazo. 

Existe cura?

Como em qualquer doença, quanto antes a intervenção, maiores as chances de restabelecimento. Os remédios, em geral, devem ser administrados por no mínimo um ano após o desaparecimento dos sintomas, para evitar recaídas. Não se deve, em hipótese alguma, suspender os remédios por conta própria. Alguns fármacos podem causar mal-estar ou sintomas de rebote quando o tratamento é interrompido muito rápido, assim como acontece em outras doenças.

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Quanto antes a doença foi identificada melhor para a cura. O importante é nunca mudar ou abandonar os remédios sem ajuda médica Imagem: iStock

Relação com suicídio

Nem todo os pacientes com depressão pensam em se matar. Aproximadamente 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos psiquiátricos, dos quais quase 36% podem ser por transtornos de humor, categoria da qual a depressão faz parte. Abuso de substâncias psicoativas (como álcool, drogas ou remédios), esquizofrenia e transtornos de personalidade também podem levar ao suicídio quando não diagnosticados e tratados corretamente.

Possíveis causas

A hipótese mais aceita para explicar a depressão é que existe uma predisposição genética para o transtorno, relacionada a fatores como histórico familiar, personalidade do indivíduo, a maneira como a pessoa vê o mundo, e estressores ambientais, como traumas, uso de substâncias psicoativas, estresse crônico, entre outros. Algumas doenças físicas, como hipotireoidismo, e alguns medicamentos de uso crônico também podem explicar alguns casos.

“Não sabemos ao certo o que ocorre no cérebro durante um episódio de depressão, mas sabemos que a fisiologia neuronal funciona de uma maneira diferente do esperado, embora não tenhamos nenhuma alteração na constituição anatômica (e, portanto exames de imagem sejam desnecessários e contra-indicados)”, comenta o psiquiatra e psicanalista Luiz Sperry, blogueiro do VivaBem. Apesar de existir algum tipo de desequilíbrio, dizer que a doença é causada por falta de serotonina ou outra substância qualquer não tem fundamento.
Estamos mais vulneráveis?

“O gene da depressão, por assim dizer, sempre esteve presente no ser humano, mas não encontrava tantas condições favoráveis para aparecimento da doença”, pondera o diretor da ABP. Com a rotina atual, o grande acesso a informações, a comparação proporcionada pelas redes sociais, o impacto da vida do outro em seu dia-a-dia, a depressão encontra terreno fértil para aparecer e, assim, ser diagnosticada. Desta forma, é aceitável afirmar que ela é mais diagnosticada porque tornou-se mais comum”, completa.

Na visão de Sperry, a depressão tem um forte componente social e cultural, assim como diversas outras doenças mentais. “Grande parte das depressões se devem a situações disadaptativas, onde o sujeito não consegue responder a uma demanda que, em última instância, é inalcançável. E o mais louco (e belo, e trágico) é que normalmente essa demanda é interna”, reflete.

Crianças também podem ser afetadas

Apesar de ser mais comum a partir da adolescência, crianças também podem ter depressão. “As menores não têm vocabulário para expressar o que sentem, por isso a observação pelos pais de mudanças no comportamento é o primeiro alerta para procurar um especialista”, diz o psiquiatra e psicanalista Mário Louzã, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Se a criança tem menos de 3-4 anos, pode ficar mais quieta, com expressão de tristeza, brincar menos, ter queixas vagas, alterações de sono e de apetite. A partir dos 4-5 anos, podem surgir também outros sintomas como fadiga, apatia, rendimento escolar baixo. Nas mais velhas já pode haver queixas relacionadas à autoestima e risco de suicídio. 

Nomes diferentes, problema parecido

  • Transtorno depressivo maior: quando os sintomas depressivos são incapacitantes ou atrapalham muito o funcionamento normal do indivíduo.
  • Transtorno depressivo persistente (ou recorrente): quando os sintomas são considerados crônicos (duram mais de 2 anos). Podem ser leves, moderados ou graves, ou se alternar. Se na depressão maior as pessoas mais próximas (e até o próprio paciente) percebem que há algo de errado, na depressão mais leve e persistente (antes chamada de distimia) o indivíduo acha que nem adianta buscar ajuda, porque “foi sempre assim”.
  • Depressão atípica: o termo é usado quando os sintomas que predominam são o aumento significativo do apetite e do peso, além de fadiga e hipersônia (a pessoa precisa dormir muito, mais de 10 horas).
  • Distúrbio afetivo sazonal: mais comum nos países em que a exposição à luz solar diminui muito no inverno, ocorre apenas em uma época ou estação do ano.
  • Depressão perinatal ou pós-parto: diferente do “baby blues”, um estado de melancolia ou sensibilidade que passa alguns dias após o nascimento do bebê. Não confundir com a psicose puerperal.
  • Depressão psicótica: inclui sintomas psicóticos, como delírios, mania de perseguição, paranoia ou alucinações
  • Depressão bipolar: os episódios depressivos de uma pessoa com transtorno bipolar se alternam com fases de mania (em que o paciente enfrenta uma excitação e descontrole intensos) ou hipomania (quando a agitação é mais sutil, mais difícil de ser percebida).

Fontes: Antônio Geraldo da Silva (presidente eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina – Apal e diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP); Hélio Deliberador, psicólogo clínico e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Luiz Sperry (psiquiatra, psicanalista e blogueiro do UOL); Mário Louzã (psicanalista e psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo); Instituto Nacional de Saúde Mental/Institutos Nacionais de Saúde (NIH - EUA), Associação Americana de Psiquiatria (APA); Ministério da Saúde; Organização Mundial da Saúde (OMS); “O Demônio do Meio-Dia – Uma anatomia da depressão”, de Andrew Solomon (Ed. Companhia das Letras).