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Uso de lente com filtro verde acelera a leitura de crianças com dislexia

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Uso de aparelho que funciona como um óculos mostrou que lente verde ajuda criança com dislexia a ler Imagem: iStock

Do UOL VivaBem, com Agência Fapesp

12/09/2018 19h34

A dislexia é um transtorno do desenvolvimento de linguagem que afeta a aprendizagem principalmente da leitura. Pensando em melhorar o aprendizado de crianças com o problema, um estudo publicado por brasileiros e franceses mostrou que uma lente verde pode ajudar a ler. O artigo foi publicado no periódico científico Research in Developmental  Disabilities.

Os filtros coloridos utilizados na pesquisa foram patenteados em 1983 e já indicados não só para crianças com dislexia como para portadores de autismo e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

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“No entanto, os estudos feitos sobre sua eficácia tinham deficiências metodológicas. Pela primeira vez foi usada uma metodologia bastante rigorosa”, disse Milena Razuk, primeira autora do artigo, à Agência Fapesp. A falta de estudos sobre os filtros faz com que eles não sejam muito usados no Brasil, embora alguns países como a França o adotem.

Os pesquisadores avaliaram 18 crianças com dislexia e outras 18 sem a condição, todas atendidas no Hospital Robert Debret, em Paris, na França. São 12 cores disponíveis de filtro, mas os cientistas testaram apenas o verde e o amarelo, para não ser uma dificuldade manter os voluntários em testes por tantas horas, de acordo com José Angelo Barela, professor do Instituto de Biociências da Unesp, em Rio Claro, coordenador do projeto.

Melhora na velocidade da leitura

No experimento, as crianças precisavam ler em uma tela trechos de livros infantis indicados para sua faixa etária. Diferentes trechos eram lidos sem filtro, com o amarelo e com o verde.

Durante todo o tempo, elas usavam um aparelho apoiado na cabeça que mede os movimentos dos olhos, o Eye Tracker. O aparelho é uma espécie de óculos com duas câmeras que enviam sinais infravermelhos para os olhos e detectam onde o usuário está fixando o olhar e qual o tempo dessa fixação.

A criança com dislexia precisa fixar mais tempo o olhar nas palavras para conseguir compreender o texto, por isso a velocidade de leitura é menor”, explicou Barela à Agência Fapesp. 

As crianças sem dislexia fixaram o olho por 400 milésimos de segundo nas palavras, tanto sem como com os filtros. Já os voluntários com dislexia passaram a fixar trechos de palavras ou de frases por 500 milésimos de segundo usando o filtro verde, tempo que mostra uma melhora contra os 600 milésimos de segundo que eles registraram ao usar o filtro amarelo ou sem auxílio de filtros.

Os autores do estudo enfatizam que não avaliaram se o filtro verde melhorou a compreensão do que foi lido.

Condição pouco conhecida

Não se sabe quais as causas da dislexia fazem com que os portadores tenham uma integração sensório-motora menos acurada. “É como se houvesse algum ruído que atrapalha a comunicação do cérebro com o resto do corpo”, disse Razuk.

No entanto, a condição não significa uma deficiência intelectual. “Para o diagnóstico de dislexia, o Q.I. tem de ser normal ou acima da média”, completou Razuk.

No estudo, os pesquisadores apontam que a melhora no tempo de leitura com o filtro verde pode ser por conta de mudanças no estímulo visual disponível para processamento no sistema nervoso central.

Outros artigos sugeriram que os filtros reduzem a excitabilidade do córtex cerebral, que pode ser maior nos disléxicos e por isso atrapalharia a leitura. Nessa hipótese, o filtro diminuiria o estímulo visual e, consequentemente, melhoraria a leitura.

Essa possibilidade ganhou mais força depois que estudos com fMRI (ressonância magnética funcional), publicados em 2015, mostraram uma ativação significativa do córtex de voluntários durante a leitura com filtros coloridos (nesse caso, azul), comparada com a de outros que não usaram filtro algum. Essas lentes, portanto, diminuiriam o estresse visual e a distorção do texto, aumentando o processamento visual e a performance de leitura.

O próximo passo da pesquisa será verificar a atividade cerebral das crianças disléxicas durante a leitura por meio de um aparelho de fMRI.

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