Topo

Coluna

Dante Senra


Estamos vivendo cada vez mais: o que fazer para que esse tempo seja melhor?

iStock
Imagem: iStock
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

2019-04-20T10:30:00

20/04/2019 10h30

Viver muito é uma bênção ou castigo? A resposta é até óbvia: depende da qualidade dessa vida.

Segundo a mitologia grega, Sibila, profetiza de Cumas (cidade na costa da Itália) havia pedido a Apolo, após colocar um punhado de areia nas mãos, que vivesse tantos anos quanto tivessem de partículas de terra ali. Porém, esqueceu-se de pedir, também, a eterna juventude. Assim foi que com os anos tornou-se tão consumida pela idade que teve que ser encerrada no templo de Apolo em Cumas, e implorava pela morte.

Não temos controle sobre as forças do universo. As folhas vão cair no outono, as árvores vão florir na primavera e nos vamos envelhecer. Mas podemos fazê-lo com qualidade.

Então a questão aqui é outra. O que você esta fazendo para envelhecer bem? Conta apenas com a loteria genética? Ou com o acaso?

Seus gens representam apenas 30% da qualidade e da longevidade. Os outros 70% dependem do estilo, dos hábitos, do modo de vida que requer investimento (veja que não disse sacrifício). E mesmo sua genética pode ser influenciada e transformada para melhor ou pior.

A boa noticia é que de qualquer forma vivemos cada vez mais porque fomos beneficiados pelas vacinas, antibióticos, saneamento básico. Deste modo, envelhecer não é mais um privilegio de poucos. No entanto, a qualidade vai depender, não do acaso, mas de um investimento.

Todos querem viver muito, mas ninguém quer envelhecer, porque esta palavra nos remete a dependência, sofrimento, doenças, enfim a um futuro sombrio. Mas não precisa ser necessariamente mais assim. É possível escolher um caminho diferente para este percurso sem volta.

A expectativa de vida do brasileiro hoje é de 73 anos, sendo que perde qualidade na ultima década. Claro que se perde funcionalidade com a idade mas não ha nenhum problema se você fica acima do seu limiar de dependência.

É preciso desenvolver a cultura do cuidado em nosso pais.

As três vertentes do cuidado

Primeiro vem o cuidado pessoal: mantendo-se o peso, mantendo-se ativo física e mentalmente. Digo a meus pacientes que o cérebro nunca fica estacionado. Ou caminha para frente ou para trás.

Parar de trabalhar e de desenvolver atividades intelectuais é um convite ao recrudescimento mental de forma inequívoca. A temida doença de Alzheimer não pode ser contida já que é marcada geneticamente, mas pode-se modular sua intensidade a tal ponto que passe
despercebida pelo portador e por quem o cerca.

A atividade física por sua vez, além de reduzir as perdas ósseas e musculares inerentes da idade, melhora todos os outros ditos fatores de risco para a ateroesclerose como hipertensão, diabetes, colesterol e triglicérides elevados, além de reduzir a obesidade.

A visita a seu médico com realização de seus exames periódicos pode identificar e corrigir disfuncionalidades em fases iniciais de doenças, pois os sintomas muitas vezes podem aparecer apenas nas fases avançadas.

Ainda no âmbito do cuidado pessoal, a qualidade das relações pessoais que você alimenta e ter um projeto de vida lhe dá a noção do porque sair da cama diariamente.

O segundo tipo de cuidado tem a ver com solidariedade, que por acaso rima com longevidade. Vivemos em um momento
difícil em nosso pais que envelheceu antes de enriquecer, diferente dos países da Europa ocidental. As famílias são agora pequenas, as mulheres estão no mercado de trabalho, há poucos cuidadores qualificados e nossos idosos estão doentes.

A quem delegar o cuidado? Daqui a três décadas o Brasil terá 30% da população de idosos. Já que envelhecer no Brasil é algo novo, ninguém esta preparado para isso. No momento não há outro caminho senão contar com família próxima e amigos. Que se desenvolvam casas de longa permanência que aprendam a cuidar do idoso sem destitui-lo de sua condição de ser humano e que não o deixe viver como agora, em exclusão social plena. Já que não há no Brasil políticas públicas de cuidados dos idosos onde o direito fundamental de ser cuidado é apenas simbólico.

E ai residiria a terceira vertente do cuidado, regida pelo estado. O próprio estatuto do idoso, seu parágrafo terceiro deixa claro que "cuidar do idoso é um dever da família, da sociedade e do estado", ou seja, já se coloca em terceiro lugar. No quesito cuidar do idoso nosso país não tem sido uma mãe gentil como em nosso hino.

Portanto amigo, é preciso saber que já que viveremos mais, melhor que seja bem. Se você já é chamado de idoso, é preciso empoderar-se (para usar uma palavra da moda) para assumir seu local na sociedade. Lembrar que pode não ser mais jovem, mas pode ser jovial. Entender melhor seus pontos fortes, fraquezas e limites para ter voz, intervir e decidir sobre as situações que o cercam e assim, viver com remédios sim, mas plenamente.

SIGA O UOL VIVABEM NAS REDES SOCIAIS
Facebook - Instagram - YouTube

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL