Correndo com os leões

Treinei 15 dias na Etiópia para descobrir os segredos dos melhores maratonistas do mundo

Danilo Balu Colaboração para o UOL VivaBem
DiVasca/UOL

É comum ouvir algumas pessoas brincando que os quenianos e etíopes são os melhores maratonistas do mundo porque desde pequenos correm para fugir de leões. Claro que a frase é uma grande besteira e ninguém precisa ir até a África para saber que isso não acontece. Mas, como pratico atletismo há quase três décadas, sou treinador e apaixonado por provas de longa distância, viajei até a Etiópia e corri ao lado de milhares de atletas para descobrir o que torna esse povo um dos mais rápidos do planeta

Adriana Piza/Divulgação Adriana Piza/Divulgação

Correr é questão de sobrevivência

O primeiro desafio para conhecer um dos maiores celeiros mundiais de fundistas --como são chamados os corredores de longa distância -- é achar onde treinar. A Etiópia é um país pobre, exótico, de certa forma fechado, repleto de dificuldades para um turista que não fala o idioma local.

Para superar a falta de estrutura, precisei da ajuda de Edward, um inglês de 35 anos que vive há 8 anos no continente com sua esposa etíope. Ele é corredor amador e montou uma pequena equipe, a Run Africa, para ajudar a colocar interessados em contato com atletas e treinadores locais. Foi assim que consegui passar duas semanas do último mês de novembro treinando na capital Adis Abeba.

Mesmo que ninguém precise fugir de leões por lá, não é difícil perceber que correr é uma questão de sobrevivência. Os etíopes não são um povo naturalmente corredor --como há relatos de que os quenianos são -- e vemos poucas pessoas praticando a atividade física por saúde ou prazer. Porém, muitos deles encaram a corrida profissional como uma enorme chance de melhorar sua situação financeira, como é o futebol no Brasil. 

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Os segredos de treino

Sou formado em esporte pela USP (Universidade de São Paulo) e um estudioso da corrida. Por isso, confesso que cheguei à África achando que ia apenas confirmar tudo o que já sei. Grande engano! Os atletas etíopes amam correr e podem nos ensinar algo sem igual. 

Tive um aprendizado ímpar do primeiro ao último dia em que visitei a casa de corredores e treinadores, peguei ao lado deles velhos ônibus soviéticos da década de 1970 que ainda circulam pela cidade para ir correr e compartilhei de toda sua estrutura de treinos e hábitos. Entre os diversos fatores que fazem dos maratonistas da Etiópia os melhores do mundo, os principais são:

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Fora do asfalto

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o temor que eles têm em treinar em pisos duros (asfalto e concreto). Jemal Mekonnen, terceiro meio maratonista mais rápido da história, me contou que corre no máximo duas vezes por mês no asfalto --impressionante para quem treina cerca de 12 vezes por semana. A razão disso? A dureza e a estabilidade que o asfalto cria na pisada é um enorme risco de lesão.

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Aceleração constante e exercícios

Os etíopes fazem treinos com uma inacreditável variação de velocidade (aceleram e desaceleram). Também correm mudando de direção o tempo todo. Nunca vi ou li nada sobre isso antes! O alongamento é outra coisa bem diferente, supercurto, cerca de três segundos em cada posição. Ao fim do treino, trotando em fila indiana, eles realizam alguns exercícios para melhorar a técnica da corrida, a mobilidade do quadril etc.

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Altitude privilegiada

Adis Abeba é uma das capitais mais altas do mundo e está cerca de 2.300 m acima do nível do mar. Isso traz uma vantagem fisiológica natural para atletas de esportes de resistência (como a maratona), já que eles possuem mais glóbulos vermelhos --células responsáveis por levar oxigênio (combustível) para os músculos. A região montanhosa ainda oferece excelentes locais de treinos, com ladeiras e pisos naturais (grama, trilhas, estradas de terra batida).

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Situação econômica

Os etíopes encaram a corrida profissional como uma enorme chance de melhorar de vida. Como a renda local é bem baixa --salário mínimo de R$ 66 e ganho médio de R$ 155 por mês --, qualquer vitória ou pódio em uma maratona de menor expressão na Europa ou nos EUA já garante o sustento de toda a família por anos --só para ter ideia, uma prova importante no Brasil, que não costuma ter grandes premiações, paga cerca de R$ 10.000, por exemplo.

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O que comem os campeões?

Não pense que o segredo do sucesso dos etíopes está na dieta. Desde a década de 1980, com a campanha beneficente personificada por Michael Jackson "USA for Africa" ("We are the World"), a Etiópia traz às nossas mentes a ideia de um povo faminto e magérrimo. Sim, eles continuam magros. Mas não me deparei escandalosamente com pedintes nas ruas que sinalizassem não ter nada para comer.

A grande diferença é que de 1980 para cá a população ainda não passou a consumir os mesmos alimentos processados que os americanos, brasileiros e europeus. Isso pode explicar muito de sua magreza, que traz uma vantagem competitiva na corrida. Se por um lado a maior rede de fast-food do mundo ainda não abriu sua primeira filial no país, por outro você pode ter certeza de que nas ruas irá se deparar constantemente com pessoas vendendo alimentos naturais (legumes, frutas, carne, ovos, temperos, leite e queijos).

Carboidrato é a base

Por ser um país muito pobre, é natural que a dieta local seja repleta de carboidratos, o macronutriente mais barato --enquanto comer proteínas como carne e ovo é um luxo. Após os treinos, circulava no grupo o kolo, um grão que parece um tipo de aveia, e vinha misturado com um pouco de amendoim, além de banana e água, que eles não tomam durante os treinos "mais curtos" (de até 1h30).

O que parece ser uma importante fonte proteica no país é o teff, um grão que parece um milho e vem ganhando fama. Ele é a base do injera, uma massa que lembra um tipo de pão e é encontrado nas refeições do país. Além de mais proteico do que o trigo, por exemplo, a farinha do teff, largamente consumida, também é rica em ferro e outros micronutrientes, o que compensaria o baixo consumo proteico animal.

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As feras etíopes

  • Herói olímpico

    Considerado um dos melhores corredores de todos os tempos, o etíope Abebe Bikila foi o primeiro atleta a ganhar duas medalhas de ouro seguidas na maratona dos Jogos Olímpicos (Roma 1960 e Tóquio 1964). Detalhe: na primeira conquista ele correu descalço os 42 km.

  • Sempre no pódio

    Na história, a Etiópia tem 54 medalhas olímpicas, todas conquistadas na corrida --são 22 ouros e o, por exemplo, Brasil possui 30, somando outros os esportes. Nos Jogos do Rio Janeiro 2016, três homens e cinco mulheres etíopes subiram no pódio.

  • Entre os mais velozes

    Até esse momento, dos 100 maratonistas homens mais rápidos de 2018, 26 são etíopes. E na prova feminina o domínio do país é ainda maior. São 49 corredoras da Etiópia entre as 100 mulheres mais velozes do ano nos 42 km.

  • Donos dos recordes

    Cinco maratonistas etíopes já quebraram o recorde mundial da maratona na história --mesmo número de quenianos. Dos recordes olímpicos nas provas de 1.500 m, 5.000 m, 10.000 m e maratona, metade pertence à Etiópia.

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Treino é treino e prova é prova, mas a alegria é sempre igual

Eu já havia passado uma semana na Etiópia em 2017. Mas a grande diferença da viagem de 2018 foi que consegui participar de uma competição: a The Great Ethiopia Run. Com percurso de 10 km, ela é a maior prova do calendário africano de corridas, juntando mais de 40.000 corredores, entre amadores e profissionais. 

Como já disputei inúmeras corridas e trabalhei na organização de grandes competições dentro e fora do Brasil, não esperava me surpreender. Mais um equívoco! A Etiópia tem um dos trânsitos mais desorganizados que já vi, porém, a The Great Ethiopia Run, maior do que nossa São Silvestre, acontece em uma organização incrível!

O que se vê é um mar de gente esperando educadamente a largada. Além de algo que só deve ocorrer mesmo em países africanos, uma festa sem igual. Sim, as provas brasileiras são muito animadas. Mas foi diferente ver os africanos em grupos se aquecendo dançando e cantando. Uma curiosidade é que as turmas vão crescendo conforme as pessoas vão chegando e se juntando, em um sinal claro de que elas não estavam juntas, mas farão daquilo em grupo.

Durante a prova, o apoio da população era enorme, pessoas por todos os lados incentivando os atletas locais e os facilmente reconhecíveis estrangeiros. No final do percurso, duas coisas me chamaram demais a atenção.

A primeira delas foi que os etíopes não pararam de correr após a chegada. E eu continuei correndo com eles e devo ter feito pelo menos uns 300 m a mais. Eu vi onde terminava a prova, mas como ninguém parou de correr, simplesmente segui junto sem entender direito o que estava acontecendo.

A segunda foi que, na dispersão, enquanto eu ainda cansado por causa da distância e da altitude incomum me deparei com novas rodas de grupos, de pessoas que vinham chegando e se juntando fazendo os mesmos exercícios do aquecimento. Eu não tinha fôlego, mas de alguma forma eles ainda estavam cheios de energia para aquelas danças!

Era o que faltava para voltar ao Brasil com a certeza de que correr com alegria é uma das coisas que fazem os etíopes serem tão bons maratonistas. E esse segredo fica estampado em seus rostos, eles não conseguem esconder de ninguém. 

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