É genérico, mas pode confiar

Mais baratos, esses remédios tendem a deixar dúvidas sobre sua eficácia. Saiba por que não é preciso temê-los

Giulia Granchi Do UOL VivaBem
Rômolo/UOL

Provavelmente, você já foi à farmácia com uma receita médica na mão e, ao entregar o papel ao farmacêutico, ouviu: "Esse remédio custa 'X', mas também temos a versão genérica, que está R$ 30 mais barata. Quer levar?".

Diante de tal oferta, é normal ter dúvidas e ficar com várias pulgas atrás da orelha. Será que o produto é mesmo confiável e realmente funciona? Devo "arriscar" e levar a caixinha mais barata? Se o genérico é tão bom, porque meu médico nunca me receitou essa versão do medicamento?

Pois é, mesmo sendo comercializados no Brasil há cerca de 20 anos e com a garantia de médicos e farmacêuticos de que funcionam exatamente igual ao "produto original", os remédios genéricos ainda levantam suspeitas. A seguir, explicamos o que exatamente são esses medicamentos e respondemos questionamentos que certamente já passaram pela sua mente.

Os genéricos funcionam? Por que são tão mais baratos?

A primeira coisa que você deve ter em mente é que o preço baixo não é motivo para questionar a eficácia desses remédios. O genéricos contêm o mesmo princípio ativo na mesma dose e forma farmacêutica que as versões com marca (originais). Também apresentam eficácia e segurança equivalentes --tudo comprovado cientificamente junto ao órgão regulador, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Então, por que os preços são tão mais baratos? Para entender, é preciso voltar no tempo. Antes de 1999, os preços dos remédios subiam rapidamente e, embora já existissem marcas similares, não havia garantia de qualidade. A partir da necessidade de drogas mais acessíveis à população, foi criada a Lei dos Genéricos (9.787/1999), que prevê que as patentes dos remédios de marca durem apenas 20 anos.

Após esse período, de acordo com a regra, qualquer laboratório pode criar medicamentos com a mesma formulação, mas sem precisar investir dinheiro em pesquisas ou testes --o grande motivo dos genéricos serem tão mais baratos.

Os três tipos de medicamentos disponíveis

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Referência

É o medicamento inovador que teve a primeira patente --para isso, a farmacêutica responsável investiu dinheiro para realizar estudos clínicos e mostrar a eficácia e segurança da droga, comprovada cientificamente junto ao órgão federal competente no qual é registrada. Por conta de todos os gastos, o medicamento costuma ser mais caro.

Genérico

É a cópia do medicamento referência e só pode ser criado após 20 anos, quando a patente do "original" expira. Para sua comercialização ser aprovada, um genérico precisa comprovar a eficácia e segurança em testes de bioequivalência e biodisponibilidade. Como não há investimentos para pesquisas e propaganda, custa menos.

Similar

Tem a mesma composição do medicamento referência e do genérico e também precisa comprovar eficácia. A diferença é que, assim como o remédio original, ele leva o nome de uma marca e investe capital em propagandas para melhorar a popularidade do produto, além de aumentar a competitividade com o medicamento referência.

Arte/UOL

Qualquer médico que não prescreve genéricos é ou ignorante ou extremamente influenciado por propagandas

José Gomes Temporão , médico sanitarista e ex-ministro da Saúde

Por que muitos médicos não receitam genéricos?

Em 2016, a Câmara aprovou a obrigatoriedade de prescrição de genéricos pelos médicos do SUS (Sistema Público de Saúde) --assim, a receita não é caracterizada como propaganda. No entanto, nos consultórios particulares, isso é uma escolha do profissional.

De acordo com Patricia Moriel, professora do curso de farmácia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a opção do médico em não recomendar um genérico pode ser influenciada pela falta de confiança de alguns profissionais com determinadas farmacêuticas. "Apesar de já ter melhorado muito em comparação aos últimos anos, ainda existe um problema de qualidade de medicamentos no Brasil. Vemos remédios recolhidos, publicações da Anvisa advertindo sobre o controle de qualidade...", explica.

José Gomes Temporão, médico sanitarista e ex-ministro da saúde acredita que a falta de qualidade não deve ser uma preocupação. "Isso acontece pouco, com a minoria dos medicamentos. Eventuais erros são possíveis em qualquer país, mas o fato de estarmos vendo as notificações da Anvisa significa que a vigilância funciona", comenta. "Com o passar do tempo, a tendência é haver cada vez menos preconceito e cada vez mais prescrições deste tipo de droga", conclui.

Temporão ainda acredita que não há nenhuma justificativa pela qual profissionais da saúde não receitem os remédios genéricos. "Qualquer médico que não prescreva é ou ignorante ou extremamente influenciado por propagandas", aponta.

Como o lobby da indústria pode influenciar os médicos

Um atendente de farmácia perguntando dados pessoais como CPF e seguro de saúde virou algo comum na hora de fechar uma compra. É assim que os estabelecimentos cadastram seus dados e vendem para indústria farmacêutica.

Com os dados, as empresas de medicamentos sabem que em determinada região médicos possivelmente estão prescrevendo mais produtos da indústria A do que da B. Representantes contratados então abordam os profissionais da saúde para tentar "convencê-los" a recomendar aos pacientes os produtos de sua empresa, aumentando as vendas.

"Amostras grátis, documentos e informações sobre a droga... Muitos profissionais são persuadidos assim e, às vezes, não sabem nem o preço do medicamento que estão passando, que pode ser alto. Por isso, é de extrema importância que os pacientes saibam que o genérico é eficaz", aponta Jorge Bermudez, coordenador do Departamento de Política de Medicamentos e Assistência Farmacêutica da NAF/NSP (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca)

Apesar de presentes para uso pessoal serem proibidos pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), alguns médicos ainda recebem mimos das farmacêuticas se forem fiéis aos seus produtos, como viagens para participarem de congressos de medicina ou cursos de atualização no exterior. Ou seja, no fim das contas, quando a influência da indústria é grande demais, os médicos ganham e as empresas ganham, e quem sai perdendo é a população.

O que fazer para se proteger e acertar na escolha do medicamento

Converse com seu médico

O momento da consulta é o ideal para solucionar qualquer dúvida que você tenha em relação ao medicamento prescrito. Pergunte ao médico se existem outras opções, em quanto tempo o remédio vai gerar efeito, se há contraindicações... Além de outras questões sobre a segurança e para saber o que esperar da droga.

Tire suas dúvidas

Se a dúvida bateu na hora de comprar o remédio e você não sabe se pode intercambiar um genérico, quais opções com a mesma fórmula a farmácia têm ou qualquer outra questão sobre medicamentos, fale diretamente com um farmacêutico. Ele é o profissional mais adequado do estabelecimento para responder às suas perguntas.

Leia e relate

Informações publicadas no site da Anvisa são úteis para entender sobre os critérios de qualidade e descobrir quais remédios foram retirados do mercado. Se os usuários acreditam que o remédio não é eficaz, podem relatar à Agência na área de "notificações em vigilância sanitária" no site, o que contribui para a segurança e qualidade das drogas no país.

"A farmácia deveria ser um estabelecimento focado em saúde"

Chocolate, isotônico, chiclete, suco, whey protein, desodorante, recarga de celular e até remédio! Hoje em dia, as farmácias comercializam praticamente de tudo um pouco. Os profissionais entrevistados acreditam que isso tende a prejudicar um pouco o que deveria ser o foco desses estabelecimentos: vender medicamentos.

Os especialistas defendem que a farmácia deveria voltar a ser o que era há anos atrás: mais parecida com um estabelecimento de saúde e menos similar a uma loja de artigos diversos. "Um local onde o farmacêutico pegue para si a responsabilidade de pensar na saúde do paciente e que o atenda com imparcialidade", opina Moriel. Assim, as pessoas receberiam maior orientação sobre os medicamentos e teriam confiança de tirar suas dúvidas sobre os genéricos ou qualquer outra droga.

Temporão também defende que um dos problemas do modelo atual é o uso desenfreado e sem necessidade de medicamentos, estimulados por propagandas. Você simplesmente chega, pergunta onde está o remédio X, o pega na prateleira e vai para o caixa. Ninguém questiona sobre o seu problema de saúde ou orienta como usar a droga --mas provavelmente alguém vai querer saber se já tem cadastro na loja e oferecer um cupom de desconto...

"Precisamos de um olhar diferente, ver a farmácia como extensão do sistema de saúde, um local para buscar informação e serviço. É um ponto que precisa ser mais debatido em nosso país", aponta o médico sanitarista.

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