Rumo aos 100 anos

Vida ativa, vontade de aprender e dia a dia sem estresse são ingredientes de quem vive bem e bastante

Marcelle Souza Colaboração para o UOL VivaBem
Carine Wallauer/UOL

No Brasil, os médicos consideram longeva uma pessoa que passa dos 80 anos. Isso porque elas vivem mais do que a expectativa média do brasileiro, que atualmente é de 72 anos e cinco meses para os homens e 79 anos e quatro meses para as mulheres.

Algumas delas intrigam médicos, amigos e familiares porque, além de viver bastante, vivem muito bem, obrigada. Mas qual será o segredo delas? Para encontrar essas respostas, o UOL VivaBem entrevistou três pessoas com mais de 90 anos que têm autonomia, boa memória e estão dando uma rasteira no relógio biológico.

Gustavo Semeghini/UOL Gustavo Semeghini/UOL

"O segredo é ter muita paciência"

Vitório Calefi, 104

"Alegre, disposto e bem tratado pela família": assim vive o aposentado Vitório aos 104 anos em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. O segredo de quem "teima em viver", como ele mesmo diz, é muita paciência. "Todo mundo me quer bem, não brigo, não faço nada para querer ofender", conta. A filha Suzana, 69, lembra que desse jeito foram os quase 70 anos de união com a mãe, que faleceu aos 98 há pouco tempo. "Nunca via eles brigarem". Ao lado da esposa, Vitório criou três filhas, que lhe deram oito netos, uma bisneta e o segundo tataraneto está a caminho.

Vitório estudou só até o segundo ano do ensino fundamental, mas aprendeu muito sozinho lendo entre um serviço e outro quando trabalhou em uma livraria. "A minha mentalidade é uma maravilha! Eu penso, eu canto, eu dou risada, faço música", conta. Ouvir e escrever música, aliás, sempre foram os seus maiores prazeres --desde que seja samba ou música caipira. "Eu não sei uma nota musical, mas escrevi 'Meu ranchinho'", conta ele sobre a única registrada das muitas canções que criou ao longo da vida. "Também fui artista de teatro, era chamado de 'bomba atômica do riso'. Entrava no palco e era uma gargalhada só. Cantei também. Quando eu era moço, a minha voz era um cristal, alcançava a nota mais alta", diz.

Das artes, teve ainda uma passagem pelo futebol, jogou na adolescência e chegou a ser técnico, mas logo teve que dedicar a outros ofícios. Até 1982 trabalhou fazendo de tudo, como serviços gerais. Ao se aposentar, equipou uma bicicleta e começou a vender pipoca, queijo e ovos pela cidade. "Aí fui atropelado e quebrei o joelho". Foi aos 80 anos, então, que decidiu parar e descansar.

Hoje, o aposentado gosta mesmo é de consertar pequenas coisas em casa e de comer bem: comida caseira, variada, mas nada industrializado. "Ele sempre foi muito correto, nunca fez extravagância, nunca fumou, gosta de um bom vinho, mas toma pouco", conta a filha.

Nessa linha deve ser também as comemorações dos 105 anos, que completa em setembro deste ano. Como Vitório não gosta de festa, a família deve se reunir em casa para celebrar e ouvir as histórias de quem já viveu mais de um século.

Aprenda com o Vitório

Estudar é um ótimo remédio

Um estudo coordenado pelo geriatra José Marcelo Farfel, do Hospital das Clínicas da USP, mostrou que quanto mais anos de estudo menor é a chance de desenvolver demência e Alzheimer. Normalmente isso está relacionado à escolaridade: quando maior o tempo, maior a contribuição para a reserva cognitiva e associação a menor prevalência de demência, independente de características sociodemográficas e neuropatológicas.

Mas os médicos explicam que os benefícios podem ocorrer mesmo fora da educação formal, ou seja, basta manter o hábito de ler, escrever e fazer exercícios de raciocínio, por exemplo, como foi o caso de Vitório. "O nosso cérebro é plástico, o que significa que conforme as áreas são estimuladas elas se desenvolvem", diz geriatra Lara Miguel Quirino Araújo, professora da geriatra da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Segundo a especialista, esses benefícios também são observados em qualquer época da vida. "Voltar a estudar depois de adulto é um grande ativador das funções mentais. Então sempre vale a pena". Além de ajudar a memória e o raciocínio, ler e fazer exercícios melhora a interação como as pessoas e o local onde mora, amplia a visão de mundo e contribui para que encontre soluções melhores para problemas do dia a dia.

Alimentação saudável

Um dos fatores chave para chegar bem aos 80 --ou até mais que isso -- é manter um estilo de vida saudável, que pode ser resumido em uma vida sem exageros. "A saúde é como uma grande poupança: se você gasta muito no começo, acaba perdendo lá na frente", diz a Araújo. Isso significa não fumar, beber ou usar drogas, praticar exercícios e manter uma dieta saudável.

A receita costuma ser eficaz para prevenir doenças cardiovasculares e evitar efeitos de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, que podem acabar prejudicando a autonomia dos pacientes. Quando se trata de alimentação, algumas pesquisas mostram que privilegiar alimentos in natura, ao invés dos industrializados, comer uma variedade de frutas, legumes e verduras, usar óleos de boa qualidade, como azeite de oliva, pode ajudar o corpo a retardar os efeitos do envelhecimento. "Sabemos que a dieta mediterrânea, por exemplo, é protetora de doenças crônicas e do diabetes", afirma o médico Eduardo Ferriolli, professor e pesquisador da USP

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"Ainda tenho muito que aprender"

Tercília Camargo, 91

Quando não está cuidando da casa, cozinhando para agradar algum dos seus nove bisnetos ou fazendo ginástica, Tercília gosta mesmo é de aprender. "Eu adoro ler", diz. A curiosidade pela escrita começou há muito tempo e resistiu mesmo depois de décadas de trabalho duro como empregada doméstica. "Quando eu era criança, a minha mãe me batia porque eu sempre comia com o livro aberto", conta.

Apesar da repreensão materna, ela nunca abandonou o gosto pela leitura. "Eu ainda tenho muito o que aprender", diz ela, que dedica parte do seu tempo aos livros religiosos. "Ali tem muito ensinamento, aprendo muito sobre humildade, ter paciência". Uma vez por semana, ela se desloca de Itapevi, onde mora, até Barueri, onde fica o Centro que frequenta. "Sou espírita desde os 15 anos, mas só agora estou me dedicando de verdade", conta.

Na maior parte da vida, Tercília não teve tempo para algo que não fosse o serviço doméstico em casa de família e o cuidado das filhas. "Eu trabalhava o dia todo e só depois de terminar é que eu pensava em comer", diz. "Em casa eu ainda cozinho, lavo roupa. Faço tudo, porque a ociosidade também mata".

Pequena, magra e de aparência frágil, Tercília enfrenta sozinha e de transporte público o caminho entre Itapevi, na Grande São Paulo, e o consultório de longevos da Unifesp, localizado na zona sul da cidade.

"Toda a vida eu trabalhei muito, agora estou desfrutando", conta ela, que vez ou outra faz passeios com um grupo da terceira idade para conhecer cidades do interior de São Paulo e de Minas Gerais.

Tanta disposição se deve, entre outros motivos, porque duas vezes por semana Tercília faz ginástica em um projeto para a terceira idade mantido pela prefeitura. "Lá em casa, eu e meu neto [bisneto] fazemos exercício. Mas ele faz jiu jitsu", diz ela orgulhosa. "Desde que comecei, no ano passado, não sinto mais canseira, desânimo. E ainda tem as amizades, as brincadeiras. É uma delícia".

A longevidade parece ser ainda segredo de família: sua avó faleceu aos 98 e as tias, aos 92 e 99 anos. "Essa de 99 morava sozinha, cozinhava, preparava uma mesa grande café toda vez que a gente ia visita-la", lembra.

Ensinamentos de Tercília

Menos estresse e mais espiritualidade

Os cientistas ainda sabem pouco sobre qual é o real impacto de duas fatores sobre a longevidade: o estresse e a espiritualidade. De modo geral, quanto mais tranquila e mais fé tem uma pessoa, mais tempo e melhor poderá viver na velhice. O problema é a dificuldade de medir exatamente como cada um desses elementos atuam sobre a nossa vida. Por exemplo, pessoas estressadas normalmente praticam menos atividade física, estão mais propensas a cometer excessos (álcool e cigarro, por exemplo) e a se alimentar mal.

Por outro lado, os médicos já perceberam que pessoas longevas, em geral, têm algum tipo de espiritualidade e se dedicam a atividades relacionadas ao tema. "Como não há como medir, o que a gente orienta os pacientes é que lancem mão de práticas que o fortaleçam diante de problemas externos, que frequentem a igreja, um centro ou um grupo de oração, faça tai chi chuan, ioga ou meditação, por exemplo", diz a professora da Unifesp.

Corpo ativo

Pesquisas apontam que uma das características das pessoas que vivem muito e com qualidade de vida é a prática regular de atividade física. Araújo explica que isso não significa que elas frequentavam academia. "Muitas vezes, pela própria ocupação que exerciam, são mais ativas fisicamente", diz.

O resultado positivo atribui-se ao fato de que o exercício ajuda a manter a capacidade muscular, freando a perda de massa normal e força comuns ao envelhecimento, além melhorar o raciocínio e a memória. Segundo um estudo realizado pelos pesquisadores da Universidade de Birmingham e do King's College, e publicado na revista científica Aging Cell, mostrou que praticar atividade física ao longo da vida também faz com que o corpo produza mais células T, responsáveis pela defesa do organismo. Nesse sentido, os médicos dizem que quanto mais cedo começar a fazer exercícios, melhor. "Na medida em que a pessoa pratica, melhora a função imunológica, a intelectual, além do bem-estar geral", diz a geriatra, que garante que nunca é tarde para dar o primeiro passo.

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"Aos 80, comecei a escrever poemas eróticos"

Claire Feliz Regina, 90

Foi com 80 anos que Claire decidiu que era hora de descansar de verdade. Já fazia dez anos que batia ponto todos os dias na Receita Federal, mesmo aposentada compulsoriamente por conta da idade.

"A vida inteira eu estudei muito, mas só coisa técnica. Sabia o regulamento do imposto de renda de cor, meu livro de cabeceira era o Diário Oficial. Quando eu aposentei, pensei: vou fazer o que?", conta.

Nunca tinha escrito um verso na vida, mas começou a frequentar alguns saraus em São Paulo e pensou em se arriscar pela poesia. "Eu vi que os poemas apresentados eram muito bons. Eu tinha escrito uns três, mas os meus não davam para competir com eles, tinha que ser uma coisa diferente. Tentei fazer um poema humorístico, mas não deu certo. Daí pensei: e se eu fizer um poema erótico? Fiz e gostei", diz.

Chegando no Sarau Sopa de Letrinhas, um dos mais tradicionais da cidade, enfrentou uma sala imensa -- "não tinha nenhuma velhinha como eu" --e o medo de ser vaiada. "Eu me levantei, todo mundo ficou me olhando e pensando 'o que essa velha vai fazer?'. E eu disse: 'vou falar para vocês uma receita". E começou:

"Meu vizinho queria fazer um bolo,
me pediu a receita.
Eu não tinha a receita,
mas eu tinha vinte anos!
Fui ajudar...
Não tinha farinha para ele amassar
com as mãos,
ofereci o meu corpo
e ele amassou."

Os olhos dos presentes se viraram para ela, que continuou:

"Não tenho açúcar, ele me disse,
ofereci os meus lábios
e ele me beijou.
Ele era bom cozinheiro,
pôs o leite para ferver,
o leite fervia no meu corpo inteiro.

Nós dois queríamos fazer o bolo,
mas... e a receita?
Ele abriu o caderno,
estava escrito,
me ama.
Não fomos mais para a cozinha
fomos para a cama."

Seus versos, declamados sempre de cor, fazem tanto sucesso que Claire já lançou três livros e se apresenta frequentemente em saraus do centro e das periferias de São Paulo. E de onde vem tanta energia e criatividade? "Da necessidade de ser arrimo de família aos 10 anos. Eu tinha seis irmãos mais novos que não podia deixar passar fome", conta a economista aposentada.

A inspiração vem da leitura frequente, do amor pelos três maridos que faleceram e do coração ainda apaixonado. "Eu tenho uma paixão que não é vivida, é só sentida. É correspondida, mas gente não se conhece pessoalmente. Quem vai entender um relacionamento tão intenso de uma mulher de 90 anos?", questiona a poeta.

Lições de Claire

Ter um círculo social

Outro ingrediente comum aos entrevistados desta reportagem é que, além de ativos, todos nunca estão sozinhos. "Hoje em dia se fala que um bom engajamento social --que é ter amigos, uma rede de apoio bem formada --tem tanto valor paro envelhecimento saudável quanto a dieta", diz o médico da USP. Isso acontece porque, além do sentimento de bem-estar, essas relações funcionam como protegendo o seu corpo de doenças. "A pessoa que tem uma rede social adequada está menos submetida a estresse, tem menos episódios de depressão e tem menor risco de ter Alzheimer", afirma.

É preciso saber o que quer

Estudos também mostram que sentir prazer em viver, ter objetivos e encontrar um sentido para a vida também ajudam a viver mais e melhor. Uma pesquisa conduzida por pesquisadores de três universidades (University College London, Princeton University e Stony Brook University) e realizado com 9.050 ingleses com idade média de 65 anos descobriu que as pessoas que sentiam que aquilo que faziam realmente valia a pena tinham 30% menos chances de morrer dos que as demais. Nos Estados Unidos, outros estudos mostram que ter um objetivo de vida reduz em 27% o risco de ter doença cardíaca, em 22% as chances de ter um AVC (acidente vascular cerebral) e cai pela metade quando se trata de Alzheimer.

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