Em vez de drogas, a água

Após 20 anos usando cocaína, Marcelo superou o vício e nadou 52,9 km para atravessar o Canal da Mancha

Maria Júlia Marques Do UOL VivaBem, em São Paulo
Carine Wallauer/ UOL
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"Minha derrotas com o vício se tornaram conquistas na natação"

"Meu nome é Marcelo Eduardo Teixeira, tenho 50 anos, estou em recuperação do uso de drogas há 17 anos, 1 mês e 21 dias. Fui viciado durante 20 anos. Hoje, sou pai de filhos lindos e atravessei o Canal da Mancha nadando, da Inglaterra à França". Marcelo se apresenta assim, transparente, sem esconder que tomou muito caldo da vida, mas que soube dominar o mar e vencer.

Se tivesse que explicar o porquê do começo do vício, diria que foi por frustração. "E sei que não sou o único usuário que pensa assim. É um sentimento de vazio no peito, de inadequação, baixa autoestima. Não estava feliz comigo mesmo, quem está feliz não usa droga." Nesse cenário, se drogar traz uma falsa sensação de alegria e satisfação, até o efeito passar e a depressão e a ansiedade aparecerem com força total, dando vontade de usar novamente.

Para sair desse lugar perigoso, o esporte foi a escolha certeira. A troca de energia na água o deu forças para ficar longe das drogas. "Como usuário eu não tinha sonhos, nunca imaginei que ia passar dos 40 anos de idade. Ao ficar limpo eu comecei a sonhar, a acreditar em mim, a nadar, a viver"

Cada um tem seu Canal da Mancha

"Minha filha não merecia um pai entregue ao vício"

Marcelo começou a usar drogas muito novo, com apenas 13 anos. "Eu era uma criança. Primeiro vieram a maconha e a cerveja. Com 15, experimentei cocaína. Depois, fui do chá de cogumelo até o crack." No início, ele sentia que tinha controle sobre sua vida, mas com o tempo foi controlado pelo vício. Mentia para a família e amigos, ia escondido comprar cocaína na favela, passava dias sem comer e sua rotina era se drogar a madrugada toda, tomar banho e ir trabalhar virado.

"Chega uma hora que a droga domina. E o pior é que a pessoa demora muito para perceber isso. Aí, já é tarde." A substância tem um poder muito cruel de compulsão. Segundo Marcelo, só de notar o cair da noite já ficava ansioso e perdia o foco, pois a hora de buscar cocaína estava próxima. E foi em um momento de desespero para se drogar que Marcelo percebeu que tinha chegado no fundo do poço e estava na hora de parar

Aos 33 anos, já divorciado, ele ficava com a filha de 5 anos em casa dois finais de semana por mês, e não usava cocaína nesses dias. "Mas chegou um momento em que não conseguia mais ficar tanto tempo sem drogas." Um dia, às 3h da madrugada, ele deixou a criança dormindo em sozinha em seu apartamento e saiu para buscar o pó. Quando chegou na garagem, teve o que chama de "despertar espiritual".

"Ajoelhei no chão e comecei a chorar, pedi ajuda a Deus. Aquele não era o homem que queria que minha filha conhecesse. Percebi que estava na hora de mudar e voltei para casa sem a droga." 

Carine Wallauer/VivaBem

"Voltei para casa sem drogas e ela dormia como um anjo. Nunca mais cheirei"

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"Tenho vergonha do que fiz, mas orgulho de quem sou. Eu me reinventei"

Na segunda-feira após o episódio com a filha, Marcelo foi até uma reunião do NA (Narcóticos Anônimos). "Quando ouvi as pessoas falando sobre a vida delas, percebi que não estava sozinho, estava em um lugar com pessoas iguais a mim. Também passei a entender que era alguém doente, precisava de tratamento médico, emocional e espiritual", conta.

Com ajuda do NA, ele compreendeu que tem um problema progressivo, incurável e fatal. Aprendeu que sua condição deve ser enfrentada um dia de cada vez. "Se me falassem que eu teria que ficar 17 anos sem droga, sairia correndo de lá. Mas me disseram para resistir só por hoje. Só por hoje não vou usar. E vou repetir isso amanhã e depois, depois, depois..." Pensar na luta contra o vício de forma fragmentada o deu energia suficiente para ficar limpo.

No tratamento, Marcelo também contou com a ajuda de um psiquiatra, que recomendou ansiolíticos para mantê-lo mais calmo. "E tive minha mãe. Ligava para ela todos os dias para contar que não tinha usado droga. Quando estava num momento ruim, ia dormir na casa dela para garantir que não buscaria a cocaína. Ela também cuidou do meu dinheiro nessa época, para evitar tentação."

Desde então, Marcelo não teve nenhuma recaída. "Morro de medo de isso acontecer. Minha vida é manter-me longe do vício. Continuo sendo compulsivo, só troquei a compulsão pelas drogas por coisas que fazem bem, como a natação." O esporte criou ferramentas que o ajudaram a ficar limpo, por ser um hábito saudável, envolver companhias que prezam pela saúde e exigir disciplina, além de cansar e dar vontade de comer e dormir, não comprar cocaína. 

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"Com o esporte aprendi a vencer e a perder"

Marcelo começou a praticar esportes depois de cerca de um ano sem drogas, quando ainda fumava cigarro e não tinha boa qualidade vida. "Era apaixonado por esportes na adolescência e decidi voltar a me exercitar. Na minha primeira aula, senti aquela energia da água e amei, mesmo quase morrendo para nadar 40 minutos".

O esporte passou lições valiosas: "Aprendi a vencer, quem usa muita droga não sabe o que é ganhar, a gente só perde na vida. Por outro lado, a natação também me ensinou a perder e a lidar com a frustração, me superar e não voltar para as drogas por isso". Foi amor ao primeiro mergulho e Marcelo logo começou a participar de maratonas aquáticas.

"Nas primeiras competições, chegava por último, todos já tinham ido embora, mas eu ficava feliz da vida. Tinha conquistado algo por mim, era incrível!" O interesse pelas provas foi aumentado e, em nove anos nadando, ele completou, por exemplo, nove vezes a Travessia 14 Bis, que tem cerca de 24 km e é disputada entre Bertioga e Santos, em São Paulo. Até que chegou no seu maior desafio: o Canal da Mancha.

Na primeira tentativa de nadar da Inglaterra até a França, Marcelo treinou por um ano e meio, literalmente, dia e noite. "Se meu treinador me chamasse em um sábado, às 23h, para nadar na chuva e no escuro da represa até às 5h, eu tinha que ir." Depois de tanto suor, em setembro de 2014, Marcelo estava pronto para nadar em alto mar de sunga, óculos e touca. "Comecei a prova bem, mas depois de quatro horas vomitei muito, foram 15 vezes. As ondas eram de 2 m, 3 m de altura e me cobriam. Achei que ia morrer e desisti". Mas ele saiu do mar gelado muito vivo e decidido a tentar mais uma vez. 

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"A vitória não foi atravessar o Canal da Mancha, foi ter recuperado a saúde"

Voltando para o Brasil após a derrota, Marcelo já planejou tentar a travessia mais uma vez dois anos depois, tempo de espera exigido pela organização do evento. Nesse período, toda a energia que existia na frustração de ter desistido se tornou combustível para vencer o Canal da Mancha. Até que, em agosto de 2016, após 14 horas e 35 minutos batendo os braços ele conseguiu completar o grande desafio.

"A água gelada dificulta muito. Comecei a ter espasmos musculares depois da primeira hora, as pernas quase não se mexiam. Mas nadei até meu peito encostar na areia e ver um monte de franceses me recebendo com alegria." Marcelo conta que ali ajoelhou, não para pedir ajuda a Deus, mas para agradecer. "Fiquei eufórico, descobri que conquistar o Canal da Mancha foi a cereja no bolo. Meu ganho foi toda a caminhada, foi ter me conhecido, ter aprendido a pedir ajuda, a ter me curado", completa. 

Ele também se sente vitorioso por notar como recuperou sua saúde. "Estou sem drogas e cigarros, totalmente limpo. Tomei cuidado até nos remédios que tomei para tontura antes de nadar. Jamais teria conquistado algo tão incrível usando drogas, é impensável."

Hoje, ao ver qualquer droga ele se afasta, já que o receio de uma recaída sempre o acompanha. "Tenho vontade de usar, mas cada vez menos. Já fico alerta por dicas do meu comportamento: me sentir vítima, me isolar, ficar sem paciência." Nesses casos, a saída é correr para o treino ou para o abraço de amigos. "E lembro das minhas conquistas. Drogado eu não tinha nada, agora tenho casa, medalhas, meus filhos. Eu me sinto completo e alegre." Depois de muitas braçadas, Marcelo descobriu que só precisa disso e um pouco de água para ser feliz.

Minha maior felicidade é ver que meu filho tem orgulho de mim, me acompanha. Estou completo". 

Carine Wallauer/VivaBem

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