Viver, apesar do câncer

Doença é cada vez mais tratada como crônica, o que permite ao paciente ter maior tempo de vida e bem-estar

Tatiana Pronin Colaboração para o UOL VivaBem

Por definição, "doença crônica" é aquela que persiste por mais de três meses --como uma dor nas costas. Mas quando médicos e governos falam em "doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)", eles se referem a problemas de saúde que, em geral, surgem aos poucos, são determinadas por diversos fatores e requerem controle pelo resto da vida. Asma, hipertensão, obesidade, diabetes, depressão e artrite são exemplos. O câncer é outra doença que já é encarada assim por especialistas. Apesar disso, pacientes que descobrem um tumor ainda sentem que entraram num campo de batalha para ganhar ou perder. Mas pode haver uma terceira opção: impedir que a doença progrida, maximizar o bem-estar do paciente e permitir que ele conviva com o câncer. Isso é, tratá-la e aceitá-la como uma doença crônica.

Quando não há cura, foco deve ser viver bem

O oncologista Don Dizon, diretor do departamento de câncer da mulher do Lifespan Cancer Institute e do Hospital de Rhode Island, nos EUA, conta que nunca gostou de expressões como "vencer a luta contra a doença". Isso porque encarar o tratamento contra o câncer como uma guerra gera um nível de ansiedade tão grande que os pacientes passam a viver na base do tudo ou nada: é remissão ou morte. "Parece não importar muito se é estágio inicial ou fase avançada: a palavra câncer é aterrorizante", observa.

Para certos tipos de tumores, que evoluem devagar ou foram descobertos em fase inicial, há cada vez mais recursos para alcançar a cura. Porém, quando isso não é possível, o foco deve ser fazer com que a pessoa viva bem pelo maior tempo possível, como é em qualquer doença crônica.

A definição do tratamento do câncer como uma doença crônica é impedir que o problema progrida e maximizar o bem-estar do paciente enquanto ele se trata

Dizon acredita que o conceito dá ao paciente o controle da situação: perceber que as opções de tratamento podem ser vistas através da lente de suas metas e preferências específicas. "Nós, médicos, podemos ajudar alguém a viver, apesar do câncer. Esse é o objetivo", afirma o oncologista americano.

Embora a realidade nos EUA seja um pouco diferente da nossa, o conceito também se aplica ao Brasil. "Hoje, vemos pacientes com câncer metastático viver dez anos, e, para certos tipos de tumores, com determinadas mutações, é possível tomar apenas uma pílula com poucos efeitos colaterais, em vez de quimioterapia", ilustra Raphael Brandão, chefe de oncologia do Americas Serviços Médicos --hospitais Samaritano e Paulistano.

Ele acrescenta o exemplo da imunoterapia, que tem transformado o prognóstico de muitos pacientes com melanoma de pele avançado. Para os cerca de 60% que respondem a esse novo tratamento, a sobrevida passou de seis meses para mais de cinco anos.

O câncer tem várias causas, por isso não é simples elucidá-lo

As doenças crônicas não transmissíveis são, de longe, a principal causa de morte no mundo todo. No Brasil, respondem por cerca de 70% das mortes. As mais comuns, por aqui, são as cardiovasculares, seguidas pelo câncer e pelas doenças respiratórias. Como reforça a OMS (Organização Mundial da Saúde), um pequeno conjunto de fatores de risco controláveis são responsáveis pela maior parcela de culpa: alimentação inadequada, inatividade física, tabagismo e álcool em excesso.

Mas, diferentemente de problemas no coração ou respiratórios, no caso do câncer há muitos outros vilões. Por isso, elucidar os fatores de risco e os mecanismos por trás de cada um dos mais de 200 tipos de tumores é uma missão que não tem fim.

Entre os inimigos conhecidos da doença, além dos quatro citados acima, podemos listar: a radiação que vem do sol ou do espaço; micro-organismos como o vírus da hepatite C, o HPV, e a bactéria H.pilori; poluição e produtos químicos, como solventes e agrotóxicos, entre muitos outros --a lista de suspeitos cresce à medida que novos produtos são criados e mais estudos são feitos.

Esses fatores são chamados de agentes cancerígenos, ou carcinógenos, porque têm o potencial de causar mutações genéticas, ou seja, alterações na estrutura DNA (o manual de instruções que cada célula guarda em seu núcleo). Cada um desses agressores pode atuar em diferentes estágios da formação de um câncer, ou até em todos eles, como acontece com as várias substâncias presentes no cigarro.

A gênese de um câncer é gradual e depende, além da exposição continuada a diferentes agentes, de causas internas, como as condições imunológicas do indivíduo e seus hormônios. Algumas pessoas também podem nascer com determinada mutação que aumenta bastante o risco da doença, mas só 5% a 10% de todos os casos são considerados hereditários. De qualquer forma, todos esses fatores interagem de um jeito para cada pessoa, por isso, nem todos os integrantes de uma mesma família expostos aos mesmos fatores de risco ficam doentes.

Como se forma o câncer

Estágio de iniciação

As células são geneticamente alteradas por certos agentes cancerígenos --como substâncias presentes no cigarro, micro-organismos, má alimentação -- mas a doença ainda não está instalada.

Estágio de promoção

A célula "iniciada" sofre a ação de outros tipos de agentes e se transforma, lentamente, em uma célula maligna. Se a exposição for suspensa, ainda há chance de interromper o processo.

Estágio de progressão

A célula modificada começa a se multiplicar de forma descontrolada e irreversível, e o câncer se manifesta --por exemplo, na forma de um tumor ou de alterações em células do sangue.

Metástases

As células cancerosas de um tumor localizado podem atingir os gânglios linfáticos próximos ao tecido afetado e, então, há risco de se espalharem, produzindo uma metástase (um tumor em outra parte do corpo).

Os números da doença não vão diminuir, mas o tempo de vida com ela pode aumentar

O envelhecimento aumenta a predisposição ao câncer porque age em duas frentes: ao mesmo tempo em que a exposição aos agentes externos se prolonga, processos naturais da idade podem afetar a capacidade de reparo das células. É por isso que a incidência de tumores é bem mais alta a partir dos 60 anos de idade, e em países desenvolvidos, onde a longevidade é mais alta.

Seja aqui no Brasil, onde 600 mil pessoas recebem o diagnóstico de câncer a cada ano, seja nos Estados Unidos, onde o número é quase o triplo, não há a expectativa de redução no número de novos casos. "A incidência de câncer tem aumentado muito nos últimos tempos e a principal razão é que as pessoas estão vivendo mais", diz Ademar Lopes, cirurgião oncológico e vice-presidente do A.C. Camargo Cancer Center.

Porém, o que se espera é a redução da mortalidade e o aumento da sobrevida dos pacientes com câncer

Apesar da perspectiva, muitas pessoas ainda deixam a desejar quando o assunto é evitar fatores de risco associados ao câncer. Mesmo que a taxa de fumantes no Brasil tenha caído de 25% para pouco mais de 10% em quinze anos, segundo a pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, o índice de sobrepeso na população pulou de 42,5%, em 2006, para 53,8%. Todos sabem da importância do protetor solar, mas o produto ainda é caro para o brasileiro, sem contar que a incidência de raios ultravioleta sobre a Terra aumentou com o buraco na camada de ozônio. Em outras palavras, o cobertor é curto: se as orelhas estão cobertas, os pés ficam de fora.

Diagnosticar o quanto antes é um dos pontos mais importantes da batalha

Se neutralizar todos os fatores de risco é impossível --e viver muito é um desejo de todos --, a solução é diagnosticar o câncer o quanto antes, enquanto é possível falar em cura. Isso melhorou muito nas últimas décadas, com a sofisticação dos exames de imagem e a implementação de políticas de rastreamento.

"Podemos dizer que, considerando todos os tipos de câncer, mais da metade dos pacientes tem oportunidade de ficar curados", afirma Alexandre Palladino, chefe de oncologia clínica do HC I, do Inca (Instituto Nacional do Câncer). É muito quando se trata de doenças crônicas.

Novas técnicas de radioterapia e substâncias que atacam as células doentes sem destruir as sadias também transformaram o cenário, inclusive para doenças que de fato eram uma sentença de morte, como certos tipos de câncer de pulmão ou melanoma de pele avançados.

Com diagnóstico precoce, vamos curar cerca de 90% dos casos de câncer, com baixo custo e sem mutilação", diz Lopes. Para ilustrar, o médico lembra que, até pouco tempo, quase todos os tumores de mama eram tratados com mastectomia radical.

Hoje, com associação de novas técnicas cirúrgicas, drogas e radioterapia, é possível retirar só um quarto da mama em muitos casos de câncer. Não só a sobrevida aumenta, como também a qualidade dela" Ademar Lopes, cirurgião oncológico

Embora a taxa de mortes por todos os tipos de câncer no Brasil (mais de 200 mil ao ano) ainda não dar nenhum sinal de queda --principalmente por falhas no rastreamento da doenças --, os números nos EUA mostram que há muita gente vivendo mais, apesar do câncer.

Sim, ainda há 600 mil mortes por ano no país, de acordo com a Sociedade Americana do Câncer, porém, de 1990 a 2016, aconteceu uma redução de 27% na letalidade geral --o que se deve muito aos avanços na prevenção, diagnóstico e controle do câncer de pulmão, um dos mais fatais no mundo todo. Além do impacto das políticas contra o tabagismo, a detecção precoce e os novos tratamentos para casos avançados já começam a dar impacto. A mortalidade por câncer de próstata caiu 50% e a por tumores de mama, 40% nos últimos anos.

Principais avanços nos tratamentos do câncer nas últimas décadas

  • Terapias-alvo

    São medicamentos ou anticorpos desenvolvidos para agir num alvo específico das células tumorais. Como o ataque é mais preciso e preserva células normais, os efeitos colaterais são menores nesse tipo de tratamento. Há terapias-alvo para alguns tipos de câncer de mama, pulmão, colorretal, melanoma e leucemia mieloide crônica.

  • Imunoterapia

    Anticorpos que ajudam o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais. Os efeitos colaterais são mínimos, embora exista o risco de reações autoimunes. Há resultados promissores para alguns tipos de melanoma, câncer renal e de pulmão, entre outros. O tratamento é caro e nem todos os pacientes respondem.

  • Abordagem multidisciplinar

    Envolve profissionais de diversas especialidades, que precisam conversar entre si para oferecer o melhor roteiro para cada caso. Exemplo: a radio ou quimioterapia às vezes podem ser feitas antes da cirurgia, para aumentar a taxa de sucesso; fisioterapeuta e nutricionista também podem agir antes para melhorar a recuperação etc. Mas apenas grandes centros de referência contam com reuniões multidisciplinares para discussão de casos.

  • Terapia hormonal

    Muitos tumores são estimulados por certos hormônios, como o estrogênio ou a testosterona. Drogas que ajudam a alterar o perfil hormonal já atuam como coadjuvantes no tratamento de alguns cânceres como o de mama e de próstata, além de evitar recidivas. Os efeitos colaterais costumam ser os mesmos da menopausa ou da andropausa: fadiga, queda de libido, ondas de calor e aumento de peso, por exemplo.

  • Quimioterapia

    Já existem quimioterápicos que podem ser administrados por via oral, sem que o paciente tenha que ir ao hospital. Novos medicamentos de suporte, além de orientações nutricionais, têm permitido controle maior dos efeitos colaterais. Há até novas substâncias que não induzem a queda de cabelo. Mas tudo depende do tipo de câncer.

  • Radioterapia

    Novas modalidades de radioterapia têm permitido o uso mais localizado e seguro da radiação ionizante para destruir células cancerosas que podem ter ficado no corpo após a cirurgia. Também podem ser utilizadas até mesmo para controlar o tamanho do tumor e reduzir sintomas nos casos em que a cura não é possível.

Cuidados que o paciente deve ter e ajudam a viver mais

Certos hábitos podem melhorar muito o prognóstico do tratamento e a qualidade de vida de alguém com câncer

Controle do peso

Manter-se magro é importante, pois pode melhorar bastante a resposta ao tratamento. Mas para controlar a balança é preciso contar com orientação de um profissional, que vai definir o plano mais saudável.

Dieta saudável

Ela pode combater efeitos colaterais do tratamento, como anemia. Além disso, consumir as cinco porções ao dia de frutas, legumes e verduras, como recomenda a OMS, ajuda na prevenção do câncer e da obesidade.

Atividade física

Praticar exercícios regularmente combate a fadiga provocada pelos tratamentos, além de ajudar na manutenção do peso. A atividade física ainda libera hormônios que melhoram o humor e trazem bem-estar.

Apoio psicológico

A descoberta de um câncer abala o emocional de qualquer pessoa. Por isso, buscar a ajuda de um profissional, dos amigos e da família é uma forma de controlar o estresse e favorece a adesão ao tratamento.

Mesmo quando há "cura", acompanhamento deve ser regular

Você chegou aqui e ainda está pensando: "Eu conheço tanta gente que se curou do câncer, por que tratar o problema como doença crônica?". Entenda que, em geral, um paciente só é considerado curado se depois de cinco anos continuar sem sinais do câncer. Mas não quer dizer que a cura é para sempre. Algumas pessoas podem nunca mais ter a doença de novo, enquanto outras terão recidivas ou tumores em outras partes do corpo. Por isso, o acompanhamento médico deve ser regular, assim como a manutenção de hábitos saudáveis --exatamente como acontece com qualquer doença crônica.

A título de curiosidade, estes são os tipos de câncer com maior taxa de sobrevida em cinco anos nos EUA:

  • Câncer de mama in situ (quando está localizado no ducto ou no lóbulo): 100%
  • Câncer de tireoide: 98,8%
  • Próstata: 98,2%
  • Câncer testicular: 95,5%
  • Câncer de mama (geral): 89,7%
  • Linfoma de Hodgkin: 89,7%

Fonte: National Cancer Institute (2008-2014)

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