A revolução da saúde

Do compartilhamento de banco de dados genéticos ao uso de aplicativos, a tecnologia molda o futuro da medicina

Giulia Granchi Do UOL VivaBem
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A tecnologia já mudou a maneira como as pessoas compram, se deslocam e até como começam novos relacionamentos. Mas os avanços trazem benefícios também para algo ainda mais importante: a sua saúde.

Novidades e casos de sucesso apresentados durante o ASCO 2019, congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, mostram como já estamos vivendo uma revolução que deve resultar em melhores diagnósticos e tratamentos mais eficazes, além de um maior alcance de populações que vivem em áreas afastadas, mas que também traz à tona uma discussão sobre privacidade.

Compartilhamento de dados de pacientes é tendência

A partir de um grande banco de dados nacional reunido por uma startup privada, um estudo apresentado no ASCO mostrou como a expansão do programa social de saúde social Medcaid nos Estados Unidos diminuiu drasticamente a disparidade no acesso ao tratamento de câncer entre pacientes brancos e afro-americanos. A descoberta positiva traz luz para uma nova tendência na comunidade médica, o compartilhamento de dados de pacientes.

Seguindo a mesma premissa, a Sociedade de Oncologia norte-americana apresentou a ideia de criar o CancerLinq, um portal sem fins lucrativos com sistema de monitoramento que coleta e analisa dados de todos os encontros com pacientes. A ideia é utilizar as informações para estudos científicos e ajudar profissionais do mundo todo -- que podem pedir acesso ao conteúdo -- a oferecer a melhor qualidade possível no atendimento.

"Em bancos como esses, os dados são sempre anonimizados, para proteger a identidade das pessoas. Temos uma preocupação que quanto mais dados são compartilhados, mais difícil é manter o anonimato. Alguns casos são específicos e os pacientes também gostam de contar suas histórias em redes sociais. Isso é uma das grandes preocupações éticas da comunidade médica", aponta Thiago William Carnier, oncologista do Hospital BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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Testes genéticos requerem maior cuidado

Quando se trata de dados genéticos, o tipo de informação mais importante para conseguir criar um tratamento personalizado contra doenças como o câncer, é impossível anonimizar os pacientes -- já que o DNA é a assinatura pessoal de cada um.

Nos Estados Unidos, já existem testes genéticos por U$ 70 (cerca de R$280), e com as alternativas se tornando cada vez mais populares, os riscos aumentam. "Se um banco cair nas mãos de seguradoras de saúde, por exemplo, elas podem escolher não fazer planos com determinados pacientes por saberem que existem chances de doenças graves no futuro", aponta Carnier.

Alguns deles são criados por startups e disponíveis até em farmácias. O problema é que, após colher o material em casa, o cliente precisa enviá-lo para empresa e assinar junto um termo de responsabilidade, que muitos não leem. "Sem prestar atenção, alguns autorizam a venda para empresas privadas, como a gigante 23andMe. Com esses dados, já estão rolando parcerias com algumas farmacêuticas e até já existem drogas contra a depressão que estão sendo baseadas em dados de pacientes que relataram ter a doença nos formulários compartilhados", explica o especialista.

Em outro cenário, os pacientes sabem que seu material genético está sendo compartilhado e até recebem dinheiro por isso. "Algumas empresas estão utilizando o sistema de registro de dados blockchain para armazenar as informações do DNA, e cada vez que uma empresa usa seus dados para alguma pesquisa, você recebe um incentivo em dinheiro", esclarece Carnier.

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Muito além do relógio inteligente, aplicativos para a saúde já são realidade

Apresentado no ASCO, o estudo do uso do aplicativo ePAL é um bom exemplo de como a tecnologia pode interferir em diferentes níveis no tratamento de doenças.

Criado por uma equipe de Boston especialmente para pacientes com câncer, a pesquisa reuniu grupos com três níveis de dores oncológicas diferentes: pacientes com dor controlada, pacientes com dor crônica (que não é controlada mas não é algo agudo, que necessita socorro imediato) e pacientes com dor aguda.

A partir de um questionário detalhado e relatos de dor dos pacientes, a inteligência artificial foi capaz de distinguir a dor urgente da não urgente e fornecer mensagens educacionais em tempo real, como por exemplo, quando tomar cada remédio e em qual horário.

Se a dor fosse grave ou piorasse, o aplicativo os conectava com seus médicos para um atendimento mais personalizado. "Dessa forma, eles iam aprendendo a lidar com a dor e entendendo seus limites, sem necessariamente precisar consultar um médico", aponta Carnier.

Após oito semanas, o nível de dor dos pacientes que usaram o app diminuiu em 20%, mas o mais surpreendente foi a redução em 69% de chances de visitar um pronto-socorro por conta da dor, em comparação com o grupo controle, que não utilizou a tecnologia.

Isso mostra o potencial da tecnologia para educar as pessoas e diminuir a lotação dos hospitais. A técnica poderia trazer enormes benefícios ao sistema público de saúde
Thiago William Carnier, oncologista do Hospital Beneficência Portuguesa

Por outro lado, a novidade também aumentou os níveis de ansiedade de alguns pacientes, que sentiam insegurança em lidar com a própria dor sozinhos.

Como próximo passo, os autores planejam desenvolver uma plataforma ainda mais robusta e estudá-la em outros ambientes clínicos. "Estamos especialmente interessados em ver se esse tipo de tecnologia pode ser útil em áreas onde o acesso a cuidados paliativos é limitado", disse Mihir M. Kamdar Diretor Associado da Divisão de Cuidados Paliativos do Massachusetts General Hospital, em Boston.

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Com a tecnologia, pacientes são menos dependentes da indústria

A canadense Kate Farnsworth parou de dormir à noite quando sua filha Sidney, de oito anos, foi diagnosticada com diabetes tipo 1. Diferentes alarmes eram programados para conferir se os níveis de glicose da criança estavam normais durante a madrugada. Se os resultados preocupassem, a checagem passava a ser a cada 15 minutos.

A esperança, de acordo com relato que deu à Bloomberg, só veio após dois anos, ao encontrar um fórum de internautas que buscavam construir um dispositivo que mudaria a vida de muitos pacientes. Trata-se de uma bomba de insulina conectada a um monitor de glicose e monitorado por aplicativo de smartphone. A tecnologia permitiria rastrear e ajustar o nível de açúcar no sangue, estando presente ou não.

Seguindo o passo a passo indicado pela comunidade online, Kate conseguiu construir a engenhoca que equivale a um pâncreas artificial, o órgão que regula o açúcar no sangue. Kate conseguiu ainda a doação da bomba, e o aparelho saiu por US$ 250 (R$ 1 mil), muito mais barato do que comprar uma nova, produzida pela indústria, que custa por volta de US$ 6 mil (R$ 24 mil, embora o preço no Brasil comece por volta de R$ 3 mil).

A trajetória da família mostra o valor da interação online para pacientes engajados. "Muitos querem contar seus casos e ajudar outras pessoas, e compartilhando os dados, surgem criações que antes a população dependia totalmente da indústria para obter", comenta Thiago Carnier, oncologista do Hospital BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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Telemedicina torna o acesso à saúde mais democrático

A telemedicina já é realidade em vários países do mundo e a ideia de levar o médico no bolso -- dentro de smartphones -- só deve se tornar mais popular.

No Brasil, a prática já vem sendo realizada há alguns anos (quem já bateu um papo com o médico pelo Whatsapp?), mas só recentemente começou uma discussão mais séria sobre o que é ou não ético. Em fevereiro deste ano, o CFM (Conselho Federal de Medicina) publicou uma resolução com as regulamentações necessárias para que o atendimento pudesse ocorrer, também, pelas telas.

Mas, por conta de centenas de pedidos de alterações por médicos de todo o país, a resolução foi revogada poucos dias depois. Em geral, os profissionais pedem explicações mais detalhadas acerca da definição de área remota, custo de implantação do sistema e condições em que a teleconsulta é permitida. Agora, os médicos e entidades têm até o dia 31 de julho para enviar suas sugestões de implementação do documento, que serão analisadas por um comitê.

A inovação beneficia especialmente aqueles que vivem em áreas afastadas, sem grandes centros hospitalares por perto, mas é importante ressaltar que ela não substitui o contato presencial com o médico.

O ideal é que o paciente seja visto presencialmente primeiro, porque ao visualizar o quadro ao vivo, muitas vezes vemos que a situação é bem diferente do que foi descrito por e-mail ou até visto por câmera
Sergio Simon, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica)

Mas não são apenas residentes de áreas com poucos profissionais de saúde que são favorecidos. Nos grandes centros, a expectativa é que a tecnologia diminua as visitas presenciais aos hospitais para consultas mais simples, o que pode ser especialmente benéfico para reduzir as filas em hospitais públicos.

Apesar de a regulamentação ainda não estar em voga, Simon afirma que a prática já acontece há anos. "É comum que os pacientes peçam conselhos por mensagens ou que acompanhemos casos de outros estados em conjunto com outros profissionais. No entanto, a regulamentação é essencial para que não ocorra uso abusivo e erros graves que podem prejudicar seriamente a saúde", explica.

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