Cansadas e irritadas

Apesar da divisão de tarefas em casa, as mulheres é que planejam tudo. E a carga mental pesa

Camila Brunelli Colaboração para o UOL VivaBem
Adriana Komura/UOL

Mulheres superatarefadas e com a cabeça a mil. Trabalhar fora e ao mesmo tempo cuidar da casa já foi encarado como um peso para o sexo feminino. Mas mesmo com os homens dividindo as atividades domésticas, as mulheres continuam a se sentir cansadas. Por quê?

Existe uma diferença entre executar as tarefas de casa e planejá-las, e normalmente o segundo papel está sempre nos ombros das mulheres. São elas que geralmente programam, preveem, fazem planos e adiantam possíveis falhas ou problemas para que as atividades de manutenção da casa deem certo. O trabalho que elas fazem de antecipar a necessidade do outro --seja de conforto, de escuta, segurança ou presença -- é extremamente fatigante em níveis emocionais.

Afinal, quem tem de pensar em colocar a carne para descongelar para o almoço do dia seguinte? Pesquisar qual comida é mais saudável a oferecer para a criança em cada fase de vida? Lembrar do dia da apresentação na escolinha? O nome disso é carga mental, um tema que veio à tona em 2017, quando a cartunista francesa Emma desenhou, literalmente, o problema para melhor entendimento do público.

Essa energia cognitivo-emocional aumenta o cansaço e nervosismo dessas mulheres, que são muitas vezes obrigadas a ouvir que era só terem pedido ajuda. Mas não, não era só isso.

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Mulheres atuam como chefes da casa

É como se as mulheres fossem as chefes da casa: todas as decisões (desde o jantar até os produtos de limpeza que precisam ser comprados) dependem dela. E, naturalmente, todos os membros da família recorrem a ela se precisam de algo.

Os homens que dividem o lar com essas mulheres e deveriam compartilhar o planejamento e execução das tarefas igualitariamente, frequentemente se colocam no papel de operários.

Isso ocorre porque, de uma maneira geral, a mulher é criada para ser, em primeiro lugar, a rainha do lar: fogõezinhos e bonecas são exemplo dos brinquedos oferecidos apenas às meninas, deixando claro quais são os lugares que elas devem ocupar. E a mãe quase sempre passa para as filhas esse planejamento e não aos filhos.

Além disso, o tempo de licença maternidade tão discrepante entre homens e mulheres --elas ficam de quatro a seis meses em casa, enquanto homens podem tirar no máximo seis dias de licença -- sinaliza como a sociedade e o mercado de trabalho enxergam essa relação de pais e filhos: é como se ela fosse tratada como algo simplesmente biológico --como a amamentação. Não é: tem muito a ver com afeto, num primeiro momento.

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Consequências da carga mental: depressão e até câncer

O problema é que toda essa demanda tem um custo: é tanta pressão que isso acaba prejudicando a saúde mental das mulheres. Sintomas como irritabilidade, cansaço, sono de má qualidade, dificuldade de concentração e de manter o foco, dores no corpo e dificuldade de descansar podem indicar que a carga mental está muito alta.

Quando pensamos na quantidade de mulheres que passam por isso, dá para entender por que há uma predominância do sexo feminino no desenvolvimento de doenças mentais e desequilíbrios emocionais. A depressão, por exemplo, é duas vezes mais comum nelas, assim como a ansiedade.

Segundo artigo publicado recentemente por psicólogos da Universidade Babes Bolyai Cluj-Napoca, da Romênia, essa sobrecarga, traduzida muitas vezes como estresse, fadiga ou Burnout, tem associação com câncer de mama.

Muitas vezes, os profissionais de saúde não relacionam esses sintomas com a responsabilidade excessiva que elas têm. Trata-se de um assunto ainda novo, que tem sido abordado por movimentos feministas, mas ainda não chegou totalmente na literatura médica.

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Mulheres ainda são vistas como as donas do lar

O debate sobre a divisão sexual dos papéis passa muito mais por aspectos sociais do que biológicos. Historicamente, aos homens foram destinados papéis ligados à esfera pública e às mulheres a esfera do privado. Ao masculino cabe então o trabalho de provedor, enquanto às mulheres caberia a tarefa de cuidadora.

Estudo do Grupo de Pesquisa em Comportamento Político, da Universidade Federal da Paraíba, coordenado pela doutora em psicologia Ana Raquel Torres, mostra que há 16 vezes mais chances de encontrar um engenheiro do que uma engenheira. Mesmo se encontrada, a profissional será fadada a tarefas profissionais de menor importância, além de receber salários mais baixos --apesar de possuírem, em todos os níveis, mais escolaridade que os homens.

Apesar dos avanços alcançados nas últimas décadas quanto à inserção feminina no mercado de trabalho, no âmbito familiar, mulheres trabalham mais porque há o peso do fardo do papel social de cuidadoras naturais. Tudo isso é construção social.

E são elas que geralmente têm que decidir entre ir buscar o filho doente na escola e uma reunião importante no trabalho.

A realidade é que se trata de um trabalho de desconstrução e desmistificação árduo, contínuo --tanto para o homem quanto para a mulher. Os homens também sofrem de incômodos psicológicos: quando perdem o emprego e deixam de se ver como provedores daquela família, por exemplo, podem enveredar em casos de depressão e ansiedade, por exemplo.

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Carga mental pesa no trabalho

No emprego remunerado, a carga mental pode atingir homens ou mulheres. Como no âmbito familiar, tem a ver com o trabalho invisível que é necessário, mas fica oculto sob o "trabalho oficial".

Certificar-se de que todos assinaram o cartão de aniversário de alguém da equipe ou passar um tempo corrigindo erros de ortografia de um relatório são exemplos dessas tarefas --e que podem deixar a pessoa exausta. E, pior, sem nenhum resultado palpável do dia de trabalho.

O trabalho emocional de gerenciar suas reações e relações com os outros para ser bem-sucedido no trabalho também faz parte dessa carga mental. É uma responsabilidade não reconhecida que alguns membros daquela comunidade irão assumir para manter o grupo funcionando de maneira tranquila e saudável.

Por mais tentativas que se faça de mensurar os resultados, há muito do trabalho do escritório que não se consegue medir e tomam um tempo que deveria ser usado para produzir. É a mesma coisa que acontece com as mães e donas de casa que gerenciam esse trabalho o dia inteiro, todos os dias de suas vidas.

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Como reduzir os efeitos dessa carga sobre as mulheres?

  • Converse

    Como diz o ditado, o combinado não sai caro: discutam as decisões que precisam tomar, mesmo que não tenham filhos. O ideal é que as tarefas sejam divididas por habilidades e competências.

  • Tome consciência

    Pode ser muito cansativo cumprir o papel social de mulher, mãe, esposa, amante, filha, amiga --são diferentes demandas de valores relevantes para o indivíduo. Ninguém precisa trabalhar 24h por dia --levando-se em consideração que o doméstico também é considerado um tipo de trabalho.

  • Preste atenção

    Se atente, por exemplo, se está com dificuldade de colocar foco em alguma coisa durante um tempo que costumava ser tranquilo e agora parece uma eternidade. Ou em descansar: muitas mulheres reclamam que, mesmo ao acordar, continuam exaustas.

  • Movimente-se e medite

    A atividade é uma forma de oxigenar o corpo. Tensionar e relaxar os músculos em seguida é uma reação do corpo ao movimento corporal que também acalma. Meditação e técnicas de mindfulness, ou atenção plena, também são uma forma de relaxar.

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Desconstrução também passa pelas mulheres

As tarefas do lar e da família não são precificadas, mas têm valor social. É porque alguém faz esse trabalho, que outros membros da família podem desfrutar.

É importante que se diga que, quando os homens aprenderem que cuidar das tarefas domésticas não é "ajudar", e sim assumir uma responsabilidade que já é deles --visto que todos devem colaborar quando moram num mesmo lugar --, é importante que as mulheres entendam que essa desconstrução leva tempo: para ela e para o companheiro. Afinal, essa cultura foi sutilmente inserida em nós durante anos a fio.

Ninguém vai se tornar uma dona de casa ou uma mãe pior se tirar um dia para descansar e deixar o papai fazer o almoço e cuidar das crianças, por exemplo.

Pode ser que as tarefas que eles não tinham costume de executar não sejam realizadas da maneira correta, ou do jeito que ela está acostumada a fazer. Mas, como a prática pode levar à perfeição, é necessário um pouco de paciência. E claro, nada de falar que está uma porcaria: é bom apontar o que está errado, mas sempre em um bom bate-papo.

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