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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Ficou deprimido após uma grande mudança? Entenda quando se preocupar

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Imagem: iStock

Sibele Oliveira

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-07-12T04:00:00

12/07/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Sofrer demais com uma mudança é uma das características do transtorno de ajustamento, que surge depois de uma experiência dolorosa e estressante
  • O problema causa sintomas depressivos ansiosos e depressivos e costuma ser transitório
  • Na maioria das vezes, as pessoas conseguem se adaptar à nova realidade sem que seja necessário fazer um tratamento

Existem acontecimentos que nos pegam de surpresa. A demissão de um ótimo emprego, ter que baixar o padrão de vida, o casamento ou o namoro que acabam de repente, uma amizade de tantos anos que é rompida sem entendermos o porquê, um acidente, a descoberta de uma doença, o tempo ocioso depois da aposentadoria, a morte de uma pessoa querida. Ninguém fica indiferente a mudanças como essas. Quando elas acontecem, é natural buscar recursos internos que ajudem a superar os danos emocionais.

Mas nem todos conseguem. Algumas dessas mudanças afetam profundamente quem passa por elas e podem causar problemas psicológicos, como o transtorno de ajustamento. "A pessoa com TA tem sintomas depressivos e ansiosos diante de uma situação em que ela não se adaptou muito bem. Mas que não são suficientes para se fechar um diagnóstico de depressão ou de transtorno ansioso", explica Fernando Fernandes, psiquiatra e pesquisador do programa de transtornos do humor do Ipq HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Quem vive essa situação sai da zona de conforto e tem a impressão de que tudo está fora do lugar. Pode ficar inquieto, irritado, mais preocupado que o normal com o futuro, ter memórias intrusivas, dificuldade para dormir, chorar com frequência, não conseguir aceitar a nova realidade, ter pouca concentração no que está fazendo, perder a autoestima, sentir raiva, tristeza, desesperança e incapacidade de fazer novos planos.

Essa mistura de sentimentos não raro atrapalha o desempenho nas atividades diárias e leva ao isolamento. Apesar de parecer grave, geralmente os sintomas costumam ser leves e não demoram a passar, segundo o especialista. Mas nem sempre é o que acontece. Um estudo publicado no The American Journal of Psychiatry mostrou que 19% das pessoas pesquisadas tinham transtorno de ajustamento três meses após a mudança, enquanto 16% delas ainda conviviam com o problema um ano depois de o evento estressante ocorrer.

O sinal vermelho acende quando esse estado emocional se prolonga, porque os sintomas podem evoluir para uma depressão ou um quadro mais forte de ansiedade, de acordo com Fernandes. O curioso, ele diz, é que acontecimentos felizes como casamento, nascimento de um filho, mudança de casa ou de cidade ou promoção para um cargo que requer mais responsabilidade também podem causar transtorno de ajustamento.

Ter altos e baixos é normal

Não pense que todas as mudanças difíceis causam transtorno de ajustamento. É verdade que elas trazem consigo tristeza e outros sentimentos que num primeiro momento nos deixam paralisados e cheios de interrogações. Mas não significa que estamos doentes. "Existem reações emocionais esperadas a alguns desfechos. Às vezes as pessoas se preocupam precocemente, antes daquilo virar ou não uma coisa séria", observa Michelle Nigri Levitan, professora de psicologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Em outras palavras, se não ficamos mal a ponto de não conseguirmos sair da cama, dar conta de nossas tarefas básicas, desejar ter pessoas por perto, deixar oportunidades irem embora ou perder a vontade de viver, significa que ficar bem novamente pode ser uma questão de tempo. Sofrer por algumas semanas, ter noites mal dormidas e ficar abatido é parte da transição da vida de antes para a de depois da mudança. É uma etapa anterior ao "seguir em frente".

Não finja que nada aconteceu

O primeiro passo para se recuperar da dor e do estresse causados por algumas mudanças, principalmente aquelas que vêm para pior, é não ignorar os sentimentos. Camuflar o que acontece dentro de nós, de acordo com Levitan, é a receita certa para prolongar o sofrimento e até pode fazer com que o mal estar fique crônico. "Na tentativa de não sofrer, de não pensar sobre o assunto e se manter forte, a pessoa fica irritadiça e desconta nas outras. Isso acaba tendo uma repercussão em outros aspectos da vida dela".

A atitude de se manter inabalável impede a pessoa de criar ferramentas para lidar com essa gangorra de emoções. Como consequência, ela pode ficar doente de fato. "Aquilo tende a ir para outra área da vida até de forma somática. O corpo reage e acaba processando uma doença que está ali inócua, que em geral já existe e começa a se manifestar" salienta a psicóloga.

Quando buscar um tratamento

Se o tempo passa e os sintomas não melhoram ou até pioram, é necessário procurar ajuda. Às vezes a terapia resolve. Em outros casos, é preciso tomar medicamentos. Mas como perceber isso? "Quando esse sentimento ruim começa a atrapalhar o desempenho nas diversas áreas da vida. Se ele se perpetua ou aumenta, a pessoa pode estar num nível patológico desse sentimento", diz Fernandes.

Você pode se ajudar

É importante acreditar que há uma saída para o sofrimento. "Tente exercitar um olhar positivo diante da nova condição. Não é achar que está tudo bem apesar de tudo, mas olhar a situação e enxergar possibilidades de intervir", aconselha Fernandes. Ele diz que é importante ter a consciência de que se pode contar consigo mesmo no processo de adaptação. "O desespero e a falta de esperança vêm quando temos a percepção de que as coisas não estão sob o nosso controle e que não tem mais jeito. Procure encontrar algo que está sob o seu controle e que você pode usar para sair da situação".

Flexibilidade é um grande mandamento da adaptação. Portanto, ser flexível poupa muito sofrimento quando ocorre uma mudança inesperada. Outra palavra-chave para voltar a se sentir bem é resiliência. "É a característica de se adaptar a situações adversas de forma muitas vezes até construtiva e positiva. Precisamos ser fortes no sentido de nos adaptarmos a essas situações porque todos nós enfrentamos desafios", diz Levitan.

Ela sugere o exercício de refletirmos se não estamos aumentando o tamanho do problema. Uma das maneiras de fazer isso é imaginar se daqui a alguns anos ele não vai parecer menor. Ponderar se por causa dele não estamos deixando de fazer coisas que nos trazem alegria. E lembrar se no passado vivemos situações parecidas e conseguimos lidar com elas. "É importante mexer com esse repertório de pensamentos e avaliar as atitudes que você está tendo frente ao problema", conclui a especialista.