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Tomar anti-inflamatório após exercício "anula" treino e põe saúde em risco?

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Recorrer a anti-inflamatórios para aliviar a dor pós-treino e voltar a malhar forte no dia seguinte prejudica os ganhos do exercício Imagem: iStock

Diana Cortez

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-06-25T04:00:00

25/06/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A dor muscular pós-treino é um processo natural que ocorre até 72 horas depois de exercícios intensos ou que o corpo não está adaptado a fazer
  • Tomar medicamentos para reduzir o desconforto e voltar a malhar no dia seguinte inibe a resposta do organismo ao processo inflamatório
  • Isso tende a prejudicar os ganhos de hipertrofia, força e resistência muscular
  • O uso abusivo desses medicamentos também pode causar problemas de saúde, como gastrite, e até aumentar o risco de infarto

É natural (e importante para evoluir no esporte) quem pratica atividade física sempre tentar ir "além dos seus limites" --e pegar um peso maior na academia ou correr alguns quilômetros a mais no parque, por exemplo. Só que isso tende a causar nos dias seguintes a famosa dor muscular pós-treino, que ocorre ao fazer um exercício intenso ou que o corpo não adaptado, gerando o rompimento (microlesões) das fibras musculares.

"A partir daí, um processo inflamatório natural se inicia para repará-las, possibilitando o ganho de força, resistência e/ou de massa muscular", explica Adriano Almeida, médico do esporte e ortopedista do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Acontece que, na tentativa de reduzir o incômodo (que geralmente dura de 48 a 72 horas) para treinar forte novamente no dia seguinte, algumas pessoas lançam mão de remédios anti-inflamatórios --uma medida que coloca em risco não apenas a saúde, como também os resultados do exercício.

"Esses medicamentos agem inibindo a resposta natural do organismo em reparar as microlesões musculares. Dessa maneira, interrompem a produção e liberação de enzimas (prostaglandinas) e células inflamatórias (leucócitos, macrófagos, neutrófilos) essenciais para o processo de regeneração dos músculos", explica Almeida.

Conclusão? Você prejudica o ganho de hipertrofia, de força e de resistência. É praticamente como se jogasse fora todo o tempo que dedicou na academia, pois boa parte dos efeitos do treino serão anulados.

Inclusive, o impacto desses remédios nos resultados da atividade física foi verificado em estudos, como o realizado por pesquisadores do Karolinska University Hospital, em Estocolmo (Suécia), que sugeriu a adultos jovens praticarem o treinamento resistido (musculação) e consumir ibuprofeno ou ácido acetil salicílico por oito semanas. "Além de apresentar menos adaptações nos músculos, o consumo dessas substâncias acabou aumentando os riscos de lesões sérias, por mascarar dores importantes", explica Paulo Zogaib, médico especialista em medicina esportiva e fisiologia do exercício, chefe do ambulatório de avaliação da Medicina Esportiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

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A dor muscular pós-treino costumar durar de 48 a 72 horas Imagem: iStock

Saúde em risco

Apesar dos anti-inflamatórios, como ibuprofeno, cetoprofeno, ácido acetil salicílico, nimesulida, diclofenaco sódico, entre outros, serem vendidos sem prescrição médica e darem impressão de não oferecer riscos, os impactos no organismo podem ser diversos.

"O consumo indiscriminado desses medicamentos pode causar desde uma gastrite (por agredir a mucosa do estômago) até lesões nos rins, com risco de evoluir para uma insuficiência da atividade do órgão. Também há um aumento do risco de infarto", alerta Zogaib.

Para se ter ideia, um estudo do Hospital Universitário Gentofte, de Copenhague, publicado na revista European Heart Journal, concluiu que o consumo excessivo de ibuprofeno eleva em cerca de 31% o risco de parada cardíaca, e o diclofenaco, em 50%.

Portanto, se depois do treino houver muita dor, é importante que o quadro seja avaliado por um médico para definir se realmente o remédio é necessário. Dependendo do caso, um analgésico ou um relaxante muscular podem ser suficientes para aliviar o incômodo. "O profissional da saúde vai analisar os riscos em cada situação. Mas, o ideal seria não haver a necessidade de utilizar medicamentos", coloca Zogaib.

O que fazer para diminuir a dor e acelerar a recuperação muscular?

Quando estiver com muita dor em um grupo muscular, a recomendação é descansar. Se você fizer questão de treinar, procure trabalhar outras partes do corpo para permitir que a região com incômodo se recupere. Veja a seguir algumas estratégias que ajudam a aliviar a dor e acelerar a recuperação após um treino intenso

Crioterapia Propõe o resfriamento da área dolorida em uma piscina ou balde com água e gelo, por cerca de 20 minutos. Por promover o fechamento dos vasos sanguíneos (vasoconstrição), o frio tem efeito analgésico e alivia a dor e o inchaço. Alguns estudos recomendam que a técnica seja usada somente após o treino, pois depois de certo período seu efeito também pode interferir na resposta natural do organismo às microlesões.

Massagem Além de relaxar a musculatura exigida no treino, ativa a circulação e facilita a retirada de substâncias tóxicas que ficaram acumuladas, acelerando o processo de recuperação e aliviando as dores.

Exercícios regenerativos Fazer atividades leves, como uma caminhada, estimula a circulação sanguínea e possibilita oxigenar os músculos e eliminar possíveis edemas. Exercícios em uma piscina também ajudam a relaxar a musculatura e a diminuir o inchaço por conta da pressão que a água exerce sobre o corpo.

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Errata: o texto foi atualizado
O correto é Universidade Federal de São Paulo e não estadual. Corrigido no texto.