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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Solidão nem sempre é ruim: aprenda a transformá-la em algo positivo

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Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-06-24T04:00:00

24/06/2019 04h00

Resumo da notícia

  • É importante ter um tempo de reflexão e internalização, pois isso garante uma experiência muito positiva e enriquecedora
  • A maneira mais adequada e saudável de estar com outras pessoas é quando já sabemos estar sozinhos sem sofrer
  • Estar só ajuda a ?sair do piloto automático? e a retomar uma direção que atenda a subjetividade, isso em qualquer fase e qualquer idade.

Sim, a solidão também pode ser uma boa companheira. Sabe aquele momento em que a gente precisa ficar sozinho, colocar as ideias no lugar, relaxar? Isso é muito positivo e existem pessoas que realmente precisam desse período solitário. Porém, isso não tem a ver com isolamento, que se for muito frequente pode mesmo levar ao adoecimento.

Para compreender melhor, vale diferenciar solidão e solitude, afinal ambos implicam em estar 'desacompanhado' fisicamente. A solidão pode provocar um sofrimento causado pela reclusão e o isolamento, podendo causar outros sentimentos como sensação de abandono, rejeição, ansiedade. Já a solitude representa um estado de privacidade que permite um tempo de reflexão e internalização, resultando em uma experiência muito positiva e enriquecedora. E é justamente nesse momento que podemos contradizer Tom Jobim e afirmar que 'é possível ser feliz sozinho'.

Fechado para balanço

Existem muitas fases na vida que pedem 'um tempo'. E fechar para balanço pode ser muito positivo para amadurecer os sentimentos, ressignificar algumas ações e planejar novos sonhos. "Estar só pode ser muito positivo quando estamos em paz e apreciamos quem somos", confirma a psicanalista Rose Paim, pós-doutora em Psicanálise e Educação e professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

E se isso ocorre pontualmente, pode ajudar a consolidar lembranças e elaborar os acontecimentos. Ou seja, desfrutar de alguns momentos consigo mesmo pode ser muito produtivo. "O modo mais adequado e saudável de estar com outras pessoas é quando já sabemos estar sozinhos sem sofrer. E cada um tem seu tempo para aprender isso na vida", explica a psicóloga Magda do Canto Zurba, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Saber apreciar a própria companhia

Gostar de ter um momento sozinho não significa ter dificuldade em se relacionar. Afinal têm pessoas com a capacidade de se divertir sozinhas. "Mas nada impede que ela possa ter alguém, precisamos aprender a ser boa companhia para nós mesmos", diz a psiquiatra Fátima Vasconcellos, coordenadora do Curso de Psiquiatria da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). E isso apenas mostra que, na ausência, o indivíduo não se paralisa. Viajar, ir ao cinema, ao museu, sair para dançar, enfim tudo isso pode ser feito sozinho, mas é importante que a pessoa não faça disso uma tragédia.

Existem pessoas cercadas de gente que ocultam uma tristeza interior. Portanto, não é quantidade que define acolhimento. E nessas horas, sair de cena pode ser muito saudável. "Um momento solitário traz serenidade, equilíbrio, autoconhecimento, é muito bom sair do tumulto mental que a interação continuada proporciona", fala Magda. E isso pode ajudar a realizar boas escolhas para investir em relacionamentos e amizades realmente presentes.

Socializar-se é fundamental

Estar sozinho é uma ótima oportunidade para conhecer pessoas novas. Portanto, abrir mão das mesmas companhias pode ser uma ótima chance para descobrir pessoas, conhecer outros universos e criar vínculos. "As pessoas mais propensas a essa vivência são as que estão dispostas a enfrentar seus medos e conflitos, e construir um espaço interno de interlocução verdadeira", sugere Rose Paim.

Portanto, equilíbrio é a palavra-chave. O excesso de solidão ou o excesso de convívio social, como todos os excessos, atravessa a fronteira das necessidades humanas. O isolamento pode ser prejudicial, mas a dependência de companhia também. O prazer e o bem-estar devem estar em ambas as situações, sem provocar tristeza e descontentamento.

Somos seres gregários, sociais, mas somos também individualidades. Estar em grupo é enriquecedor, mas não é tudo. É importante nos deparar com nossos silêncios, conhecer o que realmente gostamos e desejamos, e isso acontece quando estamos fora da 'matilha'. "Isso favorece os relacionamentos, pois quando nos colocamos mais disponíveis, mais abertos, estamos criando oportunidades para novas experiências e aprendizagens", diz Rose.

Querer ficar sozinho não tem a ver com idade

É um engano considerar que solidão está associada a alguma faixa etária. Buscar um momento solitário tem muito mais a ver com personalidade e situação vivenciada. Já a solidão pode acometer os mais velhos, por isso o convívio e a vida social estão sendo confirmados como um aspecto essencial para o envelhecimento saudável no mundo todo.

Os adolescentes também costumam passar por essa fase, mas é um momento mais de conquista de independência. "Nos idosos, pode ser uma solidão imposta por perdas, por não ter uma religião, não ter criado uma rede de contatos. Mas é importante vencer isso para evitar o isolamento. Já entre os jovens, é uma solidão saudável que faz parte do amadurecimento", explica Fátima.

Sempre e cada vez mais é muito saudável e enriquecedor que se possa ter momentos ou mesmo períodos para estar só. "O cuidado com a saúde mental e espiritual passa pela introspecção", alerta Rose. Especialmente na vida contemporânea, com todas as atribulações, com as emergências do dia a dia e o estresse decorrente, uma pausa na pressa e nas turbulências da agitação constituem tratamento preventivo. Ajudam a 'sair do piloto automático' e a retomar uma direção que atenda a subjetividade. Isso em qualquer fase e qualquer idade.

Existe um termômetro

Se estar só é prazeroso e construtivo, certamente não há tristeza. E talvez, este seja o melhor indicador de que essa fase solitária é positiva e merece ser vivenciada. Em contrapartida, se traz sofrimento e angústia precisa ser mais elaborada. Ou se faz sentir vergonha por sentir-se rejeitado e sem amigos, é importante buscar orientação profissional.

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