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Fica checando seu celular o tempo todo? Entenda por que e reduza o hábito

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-06-06T04:00:00

06/06/2019 04h00

Quantas vezes você já checou o seu celular hoje? Você provavelmente nunca parou para pensar nisso e deve até considerar natural olhar o aparelho o tempo todo. Para alguns, entretanto, ficar conectado tornou-se uma compulsão, que pode ter consequências desagradáveis.

Segundo um estudo da Universidade de Washington, são gatilhos que nos fazem começar a utilizar os celulares, criando esse hábito de consultar o aparelho constantemente.

Círculo vicioso de repetições cria hábito

Coordenador do Programa de Dependência de Internet do IPq do HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), o psicólogo Cristiano Nabuco explica que smartphones e aplicativos são criados para manter as pessoas cada vez mais tempo conectadas. "Podemos explicar esse fenômeno pela ciência da persuasão. Existe uma série de mecanismos cerebrais que, quando estão ativados, levam o indivíduo a repetir determinados comportamentos", afirma.

Para ele, aparelhos e aplicativos utilizam esses mecanismos para atrair as pessoas. "Quando em um cassino uma pessoa puxa a alavanca ou aperta o botão de uma máquina caça-níquel, existe um reforço biológico que, depois de algumas vezes que a pessoa começou a jogar, a máquina irá premiá-la. É o que chamamos de reforço aleatório". A intensificação desse "joga-joga-ganha" faz com que o cérebro libere dopamina, um neurotransmissor ligado a sensação de recompensa que gera bem-estar. "Depois de uma ou duas vezes, o cérebro dessa pessoa vai forçar para que ela tenha os mesmos comportamentos e obter a mesma descarga de dopamina", explica o especialista.

Para o Nabuco, deslizar o dedo em um botão do smartphone ou na tela do aparelho de cima para baixo para desbloquear ou atualizar uma rede social é exatamente o mesmo mecanismo da máquina do cassino: "São reproduções de fórmulas que já deram certo em outros contextos. E aí, supõe-se que, algumas vezes em que você arrastar o seu dedo para baixo e entrar em contato com os likes, comentários e afins, esses estímulos teriam o poder de liberar a dopamina". O psicólogo explica que esse comportamento força um círculo vicioso: em momentos de mal-estar e de instabilidade emocional, a pessoa recorre ao telefone celular ou a plataformas digitais para ter a descarga de dopamina e sentir-se melhor.

O que leva ao uso compulsivo do celular?

Segundo o estudo da Universidade de Washington, a compulsão é gerada por gatilhos como momentos desocupados, esperar para encontrar alguém, antes ou durante tarefas tediosas e repetitivas, situações socialmente desajeitadas ou enquanto esperamos uma mensagem ou notificação antecipada. O estudo entrevistou 39 pessoas de 14 a 64 anos de Seattle, nos Estados Unidos.

Cristiano Nabuco afirma que, além desses gatilhos, existe um senso de pertencimento. Por exemplo, se alguém posta uma foto em uma rede social e recebe 50 curtidas, elas serão liberadas aos poucos. "De olho nessa perspectiva de vício, a rede social vai tornar o reforço intermitente, ou seja, ao invés da pessoa olhar e ter a sua descarga de dopamina de uma só vez, ela [rede social] vai segurar o usuário por 24 horas, fazendo com que as pessoas fiquem o máximo de tempo utilizando esses aplicativos", explica.

Existem, segundo Nabuco, outros fatores psicológicos que colaboram para esse vício, como baixa autoestima e a sensação de isolamento diminuída. Essa confluência multifatorial é que vai determinar que o indivíduo fique muito mais tempo com o celular do que ele desejaria ou gostaria.

Riscos da compulsão para crianças e adolescentes

Muitos pais e responsáveis deixam seus filhos pequenos por longas horas em frente ao celular, computador ou tablet assistindo vídeos ou jogando, o que é um erro. Para Anna Lucia Spear King, idealizadora do Instituto Delete, núcleo especializado em dependência digital institucionalizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, as crianças usam a tecnologia de uma maneira errada porque os adultos é que são responsáveis pela vida digital deles.

"Pais e responsáveis é que têm que saber orientar quanto ao tempo de uso e ao conteúdo que seus filhos estão acessando, supervisionar com quem estão falando, a quantidade de tempo que navegam e colocar limites", explica King. Ela afirma que o grande problema é que, em muitos casos, nem os pais têm essa educação digital e, por isso, não conseguem gerenciar o acesso dos filhos. "Com isso, as crianças estão se tornando usuários excessivos das tecnologias no dia a dia", diz a especialista.

"Pessoas de todas as faixas etárias estão utilizando o celular de uma forma exagerada, principalmente o grupo que vai dos 4 anos de idade até os 25. Eles usam mais do que os outros porque o cérebro ainda não está totalmente formado e, por isso, precisa de força biológica para executar o que a gente chama de freio comportamental", explica o psicólogo Cristiano Nabuco. Segundo ele, esse "freio comportamental" é o que ajuda a discernir na tomada de decisões, medindo impactos e consequências.

Nos adultos esse tipo de digitalização excessiva rouba primordialmente as interações na vida real. A parte física também pode estar sendo comprometida com sobrepeso, posturas indevidas, problemas de coluna, lesões de esforços repetitivos nas articulações, entre outros.

Como reduzir esse hábito?

Os especialistas não acreditam que seja necessário deixar o smartphone ou outra tecnologia digital de lado, mas sim utilizá-los de forma mais consciente, sem a ansiedade e angústia de estar o tempo todo colado na tela do aparelho celular. Confira algumas dicas:

  • Silencie todas as notificações de redes sociais;
  • Veja o celular apenas de tempos em tempos e deixe-o guardado fora do alcance dos olhos;
  • Escolha um dia para ficar totalmente longe do celular;
  • Fique atento às consequências físicas (privação de sono, dores na coluna, problemas de visão) e psicológicas (depressão, angústia, ansiedade) devido ao uso abusivo das tecnologias;
  • Use o bom senso: será que seu desempenho nas tarefas do dia a dia não está sendo prejudicado pelo uso abusivo do celular?
  • Faça mais atividades ao ar livre, marque compromissos e tenha encontros físicos ao invés de ficar conectado;
  • Pratique exercícios físicos regularmente. Crie intervalos regulares durante o uso das tecnologias fazendo alongamentos;
  • Não abale o seu humor com publicações virtuais. Não acredite em tudo o que é postado e cuidado com o que você publica na internet;
  • Valorize suas relações pessoais, sociais e familiares. Não troque estas relações no dia a dia para ficar utilizando as tecnologias.
  • Se você achar necessário, procure ajuda profissional. Tanto no site do Programa Dependência de Internet, do Hospital das Clínicas de São Paulo (https://www.dependenciadeinternet.com.br/), quanto no site do Instituto Delete (https://www.institutodelete.com), você pode realizar um teste para saber seu grau de dependência das tecnologias.

Fontes: Dr. Cristiano Nabuco, psicólogo e Coordenador do Programa de Dependência de Internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo; Dra. Anna Lucia Spear King, idealizadora do Instituto Delete, professora de pós-graduação e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora e organizadora do livro "Nomofobia" da editora Atheneu, sobre dependência de celular e internet ("No Mobile Fobia").

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