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Vale a pena comprar alimentos fortificados? Saiba mais sobre esses itens

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Imagem: iStock

Chloé Pinheiro

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-05-21T04:00:00

21/05/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Alimentos fortificados são interessantes para crianças e idosos, que passam por períodos em que precisam mesmo de mais vitaminas e minerais
  • No entanto, consumir esse itens enriquecidos não deve excluir os vegetais e frutas da dieta, que devem ser as fontes principais de micronutrientes
  • É preciso tomar cuidado também com o tipo de alimento enriquecido e observar se ele não é rico em açúcar e gorduras também

É comum ver nas prateleiras alimentos com o rótulo de "rico em vitaminas" ou fortificados com um nutriente específico. Eles até podem ajudar a suprir alguma necessidade do organismo, mas não devem ser substitutos de um cardápio variado e repleto de frutas, legumes e verduras.

Para o consumidor, entretanto, o apelo é forte. Uma pesquisa recente da DSM, fornecedora de soluções nutricionais para a indústria, ouviu 7.500 mães e descobriu que elas são mais propensas a comprar alimentos e bebidas fortificadas se lerem no rótulo alegações como "possui vitaminas e minerais essenciais" e "apoio a saúde em geral".

Como muita gente está interessada em manter uma alimentação saudável, o raciocínio é compreensível, mas é preciso tomar cuidado com algumas armadilhas antes de apostar na categoria. No entanto é preciso levar em conta diversos fatores como:

  • Que tipo de alimento fortificado você está comprando? Ele seria considerado saudável se não fossem os nutrientes extras?
  • Por que você precisa reforçar o consumo desses nutrientes? Será que você não consegue esses nutrientes em alimentos como frutas e vegetais?

No final das contas, fortificados são indicados para pessoas em fases da vida que precisam de mais nutrientes (como crianças e idosos) e só valem a pena quando são itens já considerados saudáveis normalmente, como um arroz fortificado. Agora apostar na bolacha recheada fortificada, mas cheia de açúcares e gorduras, nem sempre é uma boa ideia.

Além disso, aproveitar os alimentos fortificados não significa que esses grupos devem deixar de consumir (ou pelo menos experimentar, no caso de crianças) alimentos vegetais, as principais fontes de vitaminas e minerais. Conheça abaixo um pouco mais sobre os alimentos enriquecidos e saiba como escolher no mercado.

O que são alimentos fortificados?

Basicamente, todos que levam algum nutriente essencial --vitaminas, minerais, aminoácidos -- adicionado. O objetivo da adição é reforçar o valor nutricional do alimento, seja repondo compostos perdidos na fabricação ou suplementando para obter um teor superior ao normal da substância.

São dois principais tipos de enriquecimento. O mandatório determina por lei que a indústria acrescente algum nutriente em baixa entre os brasileiros. Ele é feito hoje nas farinhas de trigo e milho, que devem conter ferro e ácido fólico, e no sal de cozinha, com o acréscimo de iodo.

Já o voluntário é feito por conta própria. Hoje há muitas bebidas, bolachas, cereais e outros alimentos enriquecidos, direcionados tanto para a população em geral quanto para grupos específicos, como crianças, idosos e atletas.

O que diz a legislação

Há diferenças entre a categoria. Para ser considerado fortificado ou enriquecido, 100 mg ou 100 ml do produto devem fornecer no mínimo 15% da ingestão diária recomendada do nutriente para os líquidos e 30% para alimentos sólidos. Neste caso, o produto pode alegar "Alto teor" ou "Rico em". Já os rótulos que vem com a inscrição "Fonte de" têm percentuais mais baixos dos nutrientes - 7,5% e meio para os líquidos e 15% para sólidos em cada 100 ml ou 100 g.

Que tipo de nutriente eles devem conter

Varia de acordo com a categoria e o fabricante pode escolher a formulação quando o enriquecimento é do tipo voluntário. O leite desnatado, por exemplo, costuma ser turbinado com vitamina D, pois ela e outras se perdem com a retirada da gordura. Cálcio e ferro também podem estar nos leites fortificados.

Em cereais e sucos, vitaminas A, C e E podem estar presentes. É possível ainda encontrar outras substâncias extras em bebidas e alimentos: vitaminas do complexo B, minerais como zinco e magnésio, ômega 3, fibras e micronutrientes, como os carotenoides.

O brasileiro é carente de micronutrientes?

Apesar de termos índices relevantes de sobrepeso e obesidade, a deficiência de certos nutrientes ainda é uma realidade brasileira. A anemia decorrente da falta de ferro, por exemplo, tem uma prevalência de até 60%, dependendo da região do país. Estudos apontam ainda que entre 30 e 50% dos menores de cinco anos não ingerem vitamina A suficiente.

Minerais como zinco e magnésio também não são consumidos como deveriam ser, mas isso não quer dizer que todo mundo precisa dos fortificados. "Esse mercado surgiu porque a dieta ocidentalizada é reconhecidamente ruim. Assim, as pessoas sabem que não comem tão bem e tentam compensar isso através de suplementos e alimentos fortificados", comenta Francisco Tostes, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Quem deve investir nesse tipo de alimento?

?????Entram na lista indivíduos que tenham uma deficiência diagnosticada pelo profissional de saúde e não conseguem equilibrá-la com a alimentação in natura. O consumo deve sempre estar acompanhado da educação nutricional.

Vale lembrar que só uma em cada três pessoas come a quantidade adequada de frutas, legumes e verduras, que já traria um bom aporte dos nutrientes aparentemente em falta. Ou seja, dá para apostar nos enriquecidos, mas sem se esquecer do conjunto da obra, como reforça a nutricionista Carolina Pimentel.

Alguns grupos específicos se beneficiam dos fortificados, como mulheres perto da menopausa precisam manter o cálcio e a vitamina D em dia para diminuir o risco da osteoporose, problema comum quando a idade fértil termina. Idosos também precisam de mais cálcio e outros nutrientes, por conta das mudanças da alimentação e na absorção dessas substâncias no organismo relacionadas à idade.

Bebidas esportivas, que repõem água, sais minerais e carboidratos, são úteis aos atletas que praticam atividades físicas intensas ou de longa duração. Quando não há deficiência, mas sim a exclusão voluntária de algum grupo alimentar da dieta, os fortificados podem ajudar a repor compostos perdidos --caso dos veganos e das vitaminas do complexo B, em especial a B12.

Para as crianças

Eles até podem ajudar a fornecer nutrientes nos períodos em que as crianças deixam de querer comer certos alimentos --o que é bem comum. A pesquisa da DSM mostrou que 39% das crianças são consideradas seletivas na hora de comer. Mas este complemento deve ser exceção e não regra.

Os vegetais não podem deixar de ser oferecidos para a criança nunca, mesmo que ela os recuse a princípio, pois há um tempo de exposição necessário para que ela se acostume com o novo ingrediente. Enquanto a adaptação ocorre, essa lacuna pode ser preenchida com os enriquecidos, mas nunca deixando de lado o alimento in natura. Por exemplo, uma boa estratégia pode ser combinar o iogurte enriquecido com as frutas picadas. Mesmo que ela deixe de lado as frutas, já estará se familiarizando com a novidade.

Eliana Vellozo, da Unifesp, ressalta que a criança precisa de uma alimentação adequada e, neste contexto, não se deve substituir ingredientes in natura por produtos industrializados. Isso porque, mesmo que sejam acrescidos de nutrientes, a maior parte deles também é rica em açúcar, sódio e gordura.

Outro ponto é que grande parte dos processados, como biscoitos e pães, já possui o ferro da farinha enriquecida. Assim, mesmo que a deficiência do mineral seja uma realidade, é preciso ter atenção para que o consumo não ultrapasse o necessário, o que pode provocar problemas de saúde.

As armadilhas

A primeira delas é justamente esperar que o fortificado vá fornecer todos os nutrientes que o corpo precisa sem olhar também para o prato. A segunda é a composição do produto adquirido. É diferente fortificar um leite ou um iogurte natural, que já são consideradas saudáveis pelos especialistas, e enriquecer uma bolacha recheada, por exemplo.

"Ao comprar um ultraprocessado com vitaminas e minerais, a pessoa não estará fazendo uma escolha mais saudável", aponta Elza de Mello, nutróloga e diretora da Abran (Associação Brasileira de Nutrição). Antes de colocar no carrinho, olhe o rótulo dos alimentos e procure pelos menores teores de sódio, açúcar e gordura.

Há risco no consumo excessivo de algum nutriente?

O uso eventual, em quantidades recomendadas, dificilmente causará danos à saúde. Mas nem sempre quantidade quer dizer qualidade. Nutrientes em excesso, além de serem excretados pela urina sem sequer serem usados, podem causar intoxicação se consumidos de maneira constante ou sofrer interação negativa com outros nutrientes.

A sobrecarga de ferro nos tecidos pode aumentar o risco de infecções, doenças cardíacas, artrite e outros problemas. Já a vitamina A em exagero eleva o risco de problemas ósseos e má formação fetal em gestantes. "Então, ao invés de adicionar o nutriente na dieta, precisamos primeiro entender se existe uma deficiência e porque ela ocorre, para depois definir como agir", pontua Tostes.
Se quiser consumir um item do tipo, o ideal é conversar com o nutricionista, que consegue enxergar o que você precisa de acordo com o que entra no seu prato. Por exemplo, se o peixe é de difícil acesso, ele pode recomendar itens com mais ômega 3. Tudo dentro de um plano que priorize alimentos naturais e crie uma relação mais equilibrada com a comida.

Fontes: Ana Carolina Rangel Port , coordenadora do curso de Nutrição da Estácio Ribeirânia; Carolina Pimentel, doutoranda em Ciências da Nutrição pela Universidade de São Paulo e professora do Instituto de Ciências da Saúde da UNIP (Universidade Paulista); Carolina Yumi Cascão Yoshikawa, doutora e professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo); Eliana P. Vellozo, professora doutora em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria pela Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo (EPM- UNIFESP). Pós-doutoranda pela Disciplina de Pediatria Neonatal da EPM-UNIFESP. Pesquisadora e Supervisora de Ambulatório do Setor de Medicina do Adolescente do Departamento de Pediatria/UNIFESP; Elza de Mello, nutróloga e diretora da Abran (Associação Brasileira de Nutrição); Francisco Tostes, endocrinologista e membro da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia); Maria Fernanda Elias, nutricionista da DSM.

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