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Líquen escleroso e plano: doenças de pele pouco divulgadas, mas perigosas

Gracia Lam/The New York Times
Embora o líquen escleroso possa se formar em qualquer superfície da pele, ele tem uma predileção pela vulva da mulher e, menos frequentemente, pelo pênis do homem, e pode perturbar a vida sexual das pessoas. Os pacientes lidam com a dor e a coceira e muitas vezes encontram ignorância e maus-tratos médicos até os tecidos afetados ficarem com cicatrizes irreparáveis Imagem: Gracia Lam/The New York Times

Jane E. Brody

Do New York Times

2019-05-19T04:00:00

19/05/2019 04h00

Você provavelmente já ouviu falar dos liquens, organismos complexos constituídos de um fungo e uma alga (às vezes, também uma bactéria) que degradam rochas e ajudam na formação do solo.

Embora os liquens tenham uma vasta variedade de cor e forma, os mais comuns são os de crosta branca, que colonizam a superfície de árvores, pedras e terreno árido. Foi esse tipo que emprestou seu nome a uma doença de pele pouco conhecida - o líquen escleroso -, que normalmente se manifesta como lesões brancas nos tecidos genitais e cujo diagnóstico costuma ser equivocado, ou não determinado, até que a vida das pessoas infectadas seja profundamente afetada.

Um distúrbio relacionado, o líquen plano, acomete mais frequentemente a pele e o interior da boca, mas também pode atingir as membranas genitais, onde pode ser mais difícil de ser tratado do que o primeiro tipo.

Apesar de o líquen escleroso poder acometer qualquer superfície da pele, ele demonstra predileção pela vulva da mulher e, com menos regularidade, pelo pênis do homem, trazendo tantos transtornos para a vida sexual que, às vezes, vem acompanhado de divórcio ou celibato.

Os alvos do líquen plano costumam ser mais abrangentes, mas a forma erosiva pode afetar a região anal-genital e outras partes do corpo, sendo tão nociva quanto o líquen escleroso. Além da dor, ambas as doenças podem causar coceira intensa que, sem o diagnóstico preciso, leva os pacientes a usar erroneamente cremes e outras substâncias que apenas pioram a condição. Os médicos também podem confundir o problema com uma candidíase e prescrever o tratamento errado.

Além do mais, as pessoas raramente se sentem à vontade para falar sobre patologias que atingem a vulva ou o pênis, mesmo com médicos, o que atrasa o diagnóstico correto e o início de um tratamento eficaz. Mas, mesmo quando os pacientes superam o constrangimento, frequentemente se deparam com a ignorância médica e com tratamentos equivocados até que os tecidos acometidos fiquem com cicatrizes irreversíveis.

"Quando os ginecologistas fazem o exame pélvico, em alguns casos nem observam a vulva. Normalmente, tratam o órgão como uma cidade pequena do interior, pela qual se passa sem notar", declarou a médica Anuja Vyas, ginecologista da Faculdade de Medicina Baylor que está se especializando nessas moléstias. Ela acrescentou que, quando uma mulher, após a menopausa, reclama que a dor vaginal a impossibilita de ter relações sexuais, os médicos tendem a desprezar o sintoma como mudanças normais da idade, negligenciando a existência de uma doença que é tratável.

Assim, normalmente fica a cargo dos pacientes garantir o próprio acesso a um profissional de saúde competente e ao tratamento capaz de aliviar os sintomas e brecar o avanço da doença.

Como dois enfermeiros, Nicholas Wedel e Laura Johnson, apontaram no periódico The Journal of Nurse Practitioners, "a saúde da vulva é um aspecto normalmente negligenciado na saúde da mulher", embora "até 20 por cento de todas as mulheres apresentem sintomas significativos nesse órgão em algum momento".

Eles acrescentaram que, "se não tratado, o líquen escleroso pode causar desconforto físico, emocional e sexual significativo", além de incorrer em destruição irreversível dos tecidos genitais e, em casos raros, em carcinoma de células escamosas.

Submetidas a uma pesquisa internacional, mulheres acometidas pelo líquen escleroso relataram as seguintes situações:

"Amo meu marido e quero fazer sexo com ele, mas quando tentamos a dor é insuportável. A sensação é de ter um vidro cortante dentro de mim."

"Meu diagnóstico tardio aos 58 anos foi devastador. Muito sofrimento matrimonial poderia ter sido evitado."

"Sexo não pertence mais ao meu vocabulário. A dor é insuportável e aumenta quando urino ou evacuo."

A mãe de uma menina de quatro anos que teve rachaduras e lacerações na pele causadas pelo líquen escleroso disse que a filha "não conseguia dormir devido à coceira e à sensação de queimação intensa" e ficava apavorada ao usar o banheiro, com medo de que levasse a mais feridas e mais dor. Uma mulher infectada reiterou o suplício da menina: "A doença me faz não ingerir os líquidos de que meu corpo precisa, porque não quero fazer xixi. Literalmente, grito quando faço."

Veja a seguir o que é importante saber sobre essas duas doenças crônicas.

Nenhum dos dois tipos é fatal, nem contagioso ou transmitido sexualmente. As enfermidades não têm causa estabelecida nem cura definitiva. O líquen plano pode desaparecer espontaneamente ou após tratamento, mas o tipo escleroso raramente mostra melhora sem o tratamento apropriado, que deve continuar indefinidamente.

Ambos são inflamações da pele e provavelmente têm origem autoimune. Ou seja, o corpo confunde a pele e as membranas mucosas com tecidos estranhos, por isso as atacam. Cerca de uma entre cinco mulheres com líquen escleroso possivelmente apresenta outra doença autoimune, como tireoide, vitiligo ou alopecia areata.

O líquen escleroso pode se manifestar em qualquer idade, mas é mais comum que afete garotas antes da puberdade e mulheres após a menopausa, sugerindo que níveis baixos de hormônios sexuais ajudam na deflagração da enfermidade. Além disso, acredita-se que exista um componente genético. Durante o período de uma vida, uma em cada 300 mulheres pode ser afetada, informou Vyas.

Muitos sintomas das duas condições coincidem e ambas podem alterar a estrutura dos tecidos vaginais, estreitando as aberturas da vagina ou do trato urinário.

O líquen plano, que ordinariamente afeta mulheres mais jovens, pode começar com protuberâncias arroxeadas na pele que coçam muito - na maioria das vezes na cintura, na porção da perna abaixo do joelho ou nos tornozelos - e podem se espalhar pelo resto do corpo. Quando acomete a boca, lesões brancas dolorosas com aspecto rendilhado se formam, o que pode transformar o ato de comer em um desafio. Os sintomas vaginais incluem secreções, dor, queimação e coceira.

Os sintomas do líquen escleroso incluem manchas brancas macias na pele, coceira intensa, laceração da pele, desconforto ou dor que pode ser extrema e, nos casos mais graves, sangramento, bolhas ou feridas ulceradas.

Embora nenhum tipo da doença seja comum, o líquen escleroso na vulva chega a atingir 1 em cada 30 mulheres após a menopausa. Estima-se que a forma genital do líquen seja dez vezes mais comum nas mulheres do que nos homens; estes têm mais chances de ser acometidos quando não circuncidados.

O tratamento mais efetivo para o líquen escleroso é uma pomada de corticoide potente chamada clobetasol (Temovate), que deve ser aplicada em pequenas quantidades várias vezes por dia, no começo. Depois, costuma-se diminuir a frequência à medida que os sintomas melhoram. Vyas garantiu que, "mesmo em estágios mais avançados da doença, ela vai melhorar se tratada de forma apropriada e se o tratamento continuar indefinidamente".

Do mesmo modo, continuou, também é benéfico o uso rotineiro de hidratantes, como supositórios de vitamina E, ácido hialurônico ou um produto chamado Revaree. Para reduzir o desconforto sexual, ela sugeriu usar lubrificante à base de óleo ou água: óleos comestíveis, como o de coco, de oliva, de uva, de abacate ou um lubrificante pessoal chamado Slippery Stuff. Se as cicatrizes limitarem a penetração sexual, os dilatadores podem ser usados para esticar o tecido vaginal suavemente e tornar a relação mais confortável.

Embora o risco de câncer seja baixo, as mulheres acometidas por qualquer tipo da doença devem se submeter a exames regulares para identificar a presença de malignidade.