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Exercícios moderados já melhoram a memória; mas quanto mais tempo, melhor

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Uma atividade física moderada pode mudar imediatamente a forma como o cérebro age e melhorar como ele reconhece nomes e informações similares Imagem: iStock

Gretchen Reynolds

New York Times

2019-05-11T10:58:58

11/05/2019 10h58

Um único treino físico moderado pode ter efeito imediato sobre o funcionamento do cérebro e a capacidade de reconhecer nomes comuns e informações similares. É o que concluiu um novo estudo promissor sobre exercícios, memória e envelhecimento.

A pesquisa vem enriquecer as crescentes evidências de que os exercícios podem impactar rapidamente a função cerebral; além disso, esses efeitos podem se acumular e levar a melhorias de longo prazo relacionadas ao modo como o cérebro e a memória funcionam.

Até recentemente, os cientistas acreditavam que, ao atingir a idade adulta, o cérebro humano já estivesse relativamente estabilizado em matéria de estrutura e função, especialmente em comparação aos tecidos maleáveis, como os músculos, que crescem e se atrofiam em consequência direta do modo como vivemos. Entretanto, diversos experimentos atuais têm mostrado que o cérebro dos adultos pode ser bastante plástico, se renovando e se remodelando das maneiras mais diversas, dependendo do estilo de vida.

Os exercícios, por exemplo, sabidamente exercem influência sobre o cérebro. Em experiências com animais, foram responsáveis pelo aumento da produção de neurotransmissores e neurônios novos em cérebros maduros, além de terem aperfeiçoado as habilidades de raciocínio dos bichos.

Os estudos mostram que, de forma similar, em seres humanos, a prática regular de exercícios ao longo do tempo aumenta o volume do hipocampo, uma parte crucial dos mecanismos de memória do cérebro, e favorece muitos aspectos do pensamento.

Contudo, questões substanciais sobre a relação exercício/cérebro seguem sem resposta, incluindo o curso temporal de quaisquer mudanças e se elas são de curto ou longo prazo, considerando a prática física contínua. Esse ponto em particular intrigou cientistas da Universidade de Maryland. Eles já tinham publicado um estudo em 2013 com adultos mais velhos, observando os efeitos em longo prazo do exercício em regiões do cérebro responsáveis pelo processamento da memória semântica.

A memória semântica é essencialmente o conhecimento que trazemos do mundo e da cultura em que estamos inseridos. Ela representa o contexto de nossas vidas - um acervo de nomes e conceitos comuns, como "O que é a cor azul?" ou "Quem é Ringo Starr?". Ela também pode ser efêmera, sendo uma das primeiras formas de memória a esvanecer-se à medida que se envelhece.

Mas, na primeira pesquisa de Maryland, os estudiosos concluíram que um programa incluindo 12 semanas de caminhada na esteira modificou o funcionamento de partes do cérebro envolvidas na memória semântica. Após quatro meses de exercícios, essas seções do cérebro ficaram menos ativas durante os testes de memória semântica, o que é um resultado desejável. Menos atividade sugere que o cérebro se tornou mais eficiente ao processar a memória semântica por causa dos exercícios, exigindo menos recursos para acessar as lembranças.

Para o novo estudo, publicado em abril no periódico científico "The Journal of the International Neuropsychological Society", os cientistas decidiram recuar um pouco e interpretar os estágios envolvidos no processo até atingir aquele estado. Especificamente, queriam entender como um único treino físico poderia mudar a maneira como o cérebro processava as memórias semânticas.

Para tanto, recrutaram 26 homens e mulheres saudáveis com idades entre 55 e 85 anos sem problemas sérios de memória e pediram que fossem ao laboratório de exercícios duas vezes. Lá, ficavam em repouso ou praticavam 30 minutos em uma bicicleta ergométrica, treino que, segundo os pesquisadores, estimularia, mas não esgotaria, os participantes.

Na sequência, os voluntários foram introduzidos em um equipamento de ressonância magnética para examinar o cérebro. Dentro do aparelho, sobre a cabeça, viam uma tela de computador onde piscavam nomes, alguns famosos, como Ringo Starr, enquanto outros foram tirados de uma lista telefônica local.

Nomes famosos são um elemento importante da memória semântica. Os voluntários precisavam pressionar um botão na tela quando reconhecessem nomes de celebridades e outro quando o termo não lhes fosse familiar. Enquanto isso, os pesquisadores rastreavam tanto a atividade cerebral geral deles quanto as regiões envolvidas no processamento da memória semântica.

A expectativa dos cientistas era encontrar as áreas necessárias para o trabalho da memória semântica com pouca atividade depois dos exercícios, assim como aconteceu após semanas de treino, contou J. Carson Smith, professor associado de cinesiologia e diretor do Laboratório para a Saúde do Cérebro da Escola de Saúde Pública da Universidade de Maryland, que supervisionou o novo estudo.

Entretanto, não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, aquelas partes do cérebro mais envolvidas na memória semântica demonstraram uma atividade muito mais efervescente após as pessoas terem se exercitado do que após o repouso. A princípio, os resultados surpreenderam e intrigaram os pesquisadores, revelou Smith. Mas então começaram a suspeitar que estavam observando a origem de uma resposta de treinamento.

"É análogo ao que acontece com os músculos", esclareceu Smith. Quando as pessoas começam a se exercitar, observou, os músculos tensionam e queimam energia. Mas, à medida que entram em forma, os mesmos músculos respondem de forma mais eficaz, empregando menos energia para o mesmo trabalho.

Os cientistas suspeitam que, da mesma forma, o pico da atividade cerebral após a primeira sessão de exercícios com bicicleta é o prelúdio de um remodelamento do tecido que, com treinos contínuos, vai aprimorar a função daquelas regiões. Em outras palavras, os centros de memória do cérebro entram em forma.

Contudo, esse estudo foi fundamentado no curto prazo e não mostra os passos intermediários necessários para a mudança no cérebro com exercícios regulares. Também não explica como a atividade modifica o cérebro, apesar de Smith acreditar no papel de uma elevação da ativação de certos neurotransmissores e outros elementos bioquímicos.

Ele e sua equipe esperam poder investigar mais a fundo tais tecidos em estudos futuros e se concentrar nos melhores tipos e quantidades de exercícios necessários para nos ajudar a manter as memórias daquele baterista genial dos Beatles e de todas as outras referências do nosso passado.

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