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"Não tinha amor pelo bebê e queria sumir, mas venci a depressão pós-parto"

Arquivo pessoal
A depressão pós-parto "bloqueou" os sentimentos bons de Danielle pelo filho Théo por quase um ano, mas ela superou problema e hoje é uma mãe carinhosa e amorosa Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-04-28T04:00:00

28/04/2019 04h00

Alguns dias após o nascimento do segundo filho, a servidora pública Daniella Neres, 35, desenvolveu uma rejeição ao bebê. Não queria mais o menino e tinha vontade de jogá-lo no chão quando o amamentava. Nesse depoimento, ela conta como foi enfrentar por quase um ano a depressão pós-parto e superá-la:

"Eu já era mãe do Matheus quando decidi aumentar a família. Eu e meu marido, o Savyo, nos planejamos e engravidei do Théo, um bebê superdesejado. Tive uma gestação tranquila e o nascimento dele foi emocionante, estávamos felizes.

Cinco dias após o parto, comecei a desencadear alguns sintomas que não eram normais. Chorava do nada, sentia uma tristeza profunda, perdi o apetite, não conseguia dormir e emagreci quase 10 kg em 20 dias. Inicialmente eram sensações negativas comigo, mas depois isso avançou para pensamentos ruins com o meu filho.

Arquivo pessoal
Théo está com três anos e Danielle diz que a relação entre eles hoje é ótima: "A depressão não deixou sequelas" Imagem: Arquivo pessoal
Eu me abri com o meu marido. Falei que estava contente de ser mãe pela segunda vez, mas que algo de errado estava acontecendo comigo.

Disse umas besteiras, que não queria mais o bebê, que ele tinha sido um erro, que tinha vontade de jogá-lo pela janela. Meu marido ficou assustado, achou estranho, disse que nada daquilo fazia sentido. Falou para procurarmos ajuda e me tranquilizou dizendo que íamos resolver a situação juntos.

Nesse período, meu bebê teve icterícia, ficou internado e as coisas pioraram. Eu passei a ter uma rejeição maior por ele.

Quando eu amamentava, sentia vontade de jogar meu filho no chão. Parei de amamentá-lo com 20 dias de vida, com medo de que o desejo fosse mais forte do que eu

Eu tinha consciência que oferecia riscos a ele, preservar a vida e a integridade dele eram minha prioridade. Após essa difícil decisão, eu me consultei com uma psiquiatra, contei para ela a tortura que estava vivendo. Ela me diagnosticou com depressão pós-parto e me prescreveu um antidepressivo, mas o remédio demorou para fazer efeito. Iniciei a terapia com psicólogo duas vezes por semana e, mesmo assim, piorava a cada dia.

Eu olhava para o Théo e não o reconhecia como meu filho, não sentia absolutamente nada por ele, ele parecia um estranho para mim. Eu cuidava dele, dava banho, mamadeira, trocava fralda, fazia dormir, mas era tudo por obrigação, eu não tinha amor por ele. Essa ausência de amor era devastadora. Eu me sentia muito mal, a pior mãe do mundo por não amar um filho que eu tinha desejado tanto, que eu tinha amado quando ele estava dentro da minha barriga, quando nasceu, mas naquele momento era completamente indiferente a ele.

A depressão pós-parto bloqueava todos os meus sentimentos, o amor, o carinho e o afeto. O choro do bebê me causava pânico, eu tremia. Tinha vontade de sair correndo, de sumir. Não podia ficar sozinha com ele em hipótese alguma

Arquivo pessoal
Danielle conta que a fé, o apoio da família e do médico e o trabalho foram fundamentais para vencer depressão Imagem: Arquivo pessoal
Minha sogra se mudou temporariamente para a minha casa. Ela ficava de olho em nós dois e me ajudava nas tarefas domésticas. Nessa época, o Matheus tinha 11 anos e me perguntava: 'Mamãe, quando a senhora vai melhorar?'.

Eu não respondia nada, só o abraçava e chorava. A essa altura, eu tinha pensamentos suicidas, não queria mais viver, só desejava acabar com aquela dor. Minha oração era o meu maior refúgio. Eu lia a Bíblia, me ajoelhava e pedia a Deus para me livrar daquela doença, para ele restaurar minha vida e devolver a alegria.

Na fase mais crítica, eu via o Théo no berço e tinha vontade de asfixiá-lo com o travesseiro. Teve uma vez que eu estava na cozinha com uma faca na mão e veio um pensamento horroroso: "vai lá, mata ele". Quando isso acontecia, eu rapidamente me afastava dele, ia para longe orar e respirar até aquela sensação ir embora.

Tinha os pensamentos, mas nunca tentei fazer nada, nunca o machuquei, nem judiei dele. Sempre tive o controle das minhas ações. Eu via que era um bebê inofensivo e jamais faria algum mal a ele

Mas eu estava muito doente, não tinha mais condições de ficar em casa, a tendência era só piorar. Mesmo tendo direito à licença-maternidade de quatro meses, decidi voltar a trabalhar com dois meses para ocupar minha mente e tirar o foco do problema. Minha psiquiatra disse que seria bom para a minha recuperação. O Théo ficava com a madrinha dele durante o dia. Eu tive de abrir mão da convivência integral com ele para cuidar de mim, ficar bem e ser uma boa mãe para ele.

Eu buscava todas as ferramentas que auxiliassem o meu tratamento. Passei a fazer caminhada e a comer alimentos que melhoravam o meu humor. Com cinco meses, a medicação começou a fazer efeito e os pensamentos ruins foram diminuindo. O sentimento de amor pelo Théo aparecia poucas vezes ao dia, por cinco, dez minutos. Nesse tempo, que parecia uma eternidade, eu o abraçava, beijava, dizia que o amava e que ia melhorar. Ele me olhava e sorria.

Eu venci a depressão pós-parto

Arquivo pessoal
"A mensagem que deixo é que a cura da depressão pós-parto é possível, mas exige paciência", diz Danielle Imagem: Arquivo pessoal
Aos poucos fui ficando sozinha com ele e criando uma rotina normal. Procurava estabelecer vínculo com o bebê no dia a dia. Os cuidados que antes eram obrigação se tornaram prazerosos. Demorei dez meses para me curar, me livrar completamente dos pensamentos negativos. Recebi alta médica e não tomo mais remédio. Hoje, Théo está com três anos e nossa relação é ótima, não ficou nenhuma sequela, sou carinhosa e amorosa com ele. O Théo e o Matheus são os amores da minha vida. É como se eu nunca tivesse depressão pós-parto.

Quatro coisas foram fundamentais para eu vencer essa doença. Primeiramente, minha fé em Deus, depois a medicação, o trabalho e o apoio da família. Em janeiro deste ano, criei no Facebook a página 'Depressão Pós-Parto - Eu venci', onde compartilho meu testemunho de superação e ajudo outras mães com o mesmo problema. A mensagem que deixo para elas é que é possível obter a cura, mas é preciso paciência. Eu as encorajo a nunca desistir porque não existe amor maior e melhor do que de uma mãe por um filho, é um amor pelo qual vale lutar, se sacrificar e vencer".

Depressão pós-parto: causas, sintomas e tratamentos

A depressão pós-parto pode se manifestar logo após o nascimento do bebê ou em até 12 a 18 meses depois. Entre os fatores que podem desencadear o problema estão quadros pré-existentes de depressão ou outra doença psiquiátrica, perda recente de familiares ou pessoas queridas, perdas gestacionais anteriores, assim como situações inerentes ao puerpério, que incluem privação de sono ou qualquer evento estressante.

Segundo pesquisas recentes da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), a doença acomete 26% das brasileiras. É um número alto, à frente da estimativa da ONU (Organização das Nações Unidas) para países de baixa renda, que é de cerca de 19%.

Os principais sintomas e sinais são:

  • Tristeza;
  • Angústia;
  • Ansiedade;
  • Excesso de preocupação com o bebê;
  • Medo fora do normal de que algo aconteça com a criança;
  • Inquietação;
  • Desespero;
  • Incapacidade de cuidar da criança, de si mesma e de realizar atividades do dia a dia.

A mulher que sofre de depressão pós-parto também pode ter falta de apetite, insônia, dificuldade de conexão afetiva com a criança, o que provoca culpa, e pensamentos de morte e intrusivos, onde a mãe subitamente se imagina fazendo algo ao filho e isso a apavora pelo medo de vir a colocar em prática.

Além de causar grande sofrimento à mulher, esse quadro impacta na vida de toda a família e pode causar danos irreversíveis no desenvolvimento emocional e cognitivo da criança. Por isso, é muito importante procurar ajuda precocemente. Dependendo da gravidade do quadro, o tratamento envolve psicoterapia e medicamentos, além de orientações práticas, apoio nas possíveis dificuldades, como amamentação, e organização de uma rede de apoio.

Fonte: Marília Toledo, médica, psicanalista especializada em saúde materno-infantil da Casa Moara, espaço de convivência dedicado a gestantes, e mestre em saúde coletiva pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

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