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Probióticos podem fazer mal? Entenda quando eles devem ser consumidos

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O uso de suplementos de probióticos deve ser controlado por médicos, mas alimentos não parecem oferecer riscos Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-04-22T04:00:00

22/04/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Probióticos têm sido muito usados sem indicação, no entanto, por mexerem com um sistema complexo, ainda não há consenso sobre sua eficácia
  • Embora os alimentos enriquecidos com eles sejam considerados seguros, os suplementos não são indicados para todos
  • "Automedicar-se" com estes suplementos pode causar sintomas intestinais
  • O ideal é que a indicação de probióticos seja personalizada, já que cada pessoa apresenta uma microbiota intestinal única

Hoje muito se fala sobre o consumo de probióticos, tanto que eles são o terceiro tipo de suplemento mais consumido entre os norte-americanos, perdendo apenas para o ômega 3 e a glucosamina. Mas nem sempre as pessoas sabem exatamente o que eles são: micro-organismos vivos que são suplementados para ajudar em problemas intestinais.

Embora sejam considerados eficazes e seguros por vários estudos científicos, eles trazem preocupação a órgãos reguladores como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), principalmente com a complexidade do microbioma onde eles atuam, no nosso intestino, que é maior do que se imagina, assim como podem ser suas possíveis interações.

"O cerne da questão está na comprovação do efeito benéfico, pois muitas das premissas assumidas para um nutriente e até mesmo uma substância bioativa não são diretamente aplicáveis para um organismo vivo [como os probióticos], que interage com populações de outros organismos dentro de um indivíduo", declarou a Anvisa em documento oficial.

Falta de consenso

Nos Estados Unidos, organizações como a Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) e a Faculdade de Saúde Pública de Harvard disponibilizam informações baseadas em evidências científicas para médicos e consumidores comuns sobre o que se sabe, até hoje, sobre esses suplementos.

Aqui no Brasil, a Anvisa acaba de publicar o novo "Guia de instrução processual de petição de avaliação de probióticos para uso em alimentos". Voltado para fabricantes, ele atualiza as exigências sobre as informações científicas para uma eventual aprovação.

Para além da rigidez e cuidado que cercam a liberação e indicação desses suplementos, existe a falta de consenso entre os cientistas: as explicações sobre como eles atuam aguardam uma maior validação científica.

Uso racional, indicação ética

Produtos com probióticos adicionados, como o leite fermentado com lactobacilos, por exemplo, ou mesmo o caseiro kefir, são considerados seguros para adultos, jovens, crianças e idosos, exceção feita às pessoas que tenham restrições a algum componente dessas bebidas.

Já os suplementos desses micro-organismos, embora sejam de venda livre nas farmácias, não são indicados para todos. Se você é uma pessoa saudável e deseja consumi-los porque imagina que a medida pode melhorar sua microbiota, a melhor coisa a fazer é falar com um médico ou um nutricionista.

Atente-se para o fato de que uma "automedicação" pode agravar eventuais sintomas gastrointestinais e até perpetuá-los. Isso porque cada tipo de probiótico tem indicação e dose específicas e, além disso, deve ser usado por tempo determinado.

Probióticos são contraindicados para pacientes em risco como os que estejam em choque ou situações limítrofes. Já pacientes graves, como os oncológicos, e que tenham problemas de absorção de nutrientes e diarreia, podem até estar na UTI e ser beneficiados pelo uso bem indicado do suplemento, garantem os especialistas.

Discussões entre os cientistas

Em setembro de 2018, dois estudos científicos do renomado Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, colocaram em dúvida o proveito dos probióticos. O primeiro deles observou seu efeito no trato gastrointestinal; o segundo avaliou o benefício do uso concomitante ao consumo de antibióticos. Os trabalhos foram publicados pela revista científica Cell.

Diferente de pesquisas anteriores, eles analisaram os micro-organismos diretamente no intestino, em vez de nas fezes. Concluiu-se que algumas pessoas resistem à colonização, expelindo-a. Esse grupo foi chamado de resistente. Entre os demais indivíduos, o grupo persistente, os probióticos alcançaram seu objetivo.

A investigação remanescente verificou que o uso de probiótico para prevenir os efeitos colaterais dos antibióticos, ao contrário do que se pensava, pode atrasar o retorno ao estado normal da microbiota. Por outro lado, para o grupo que teve a colonização provocada por suas próprias bactérias (implante de fezes), houve pleno restabelecimento da flora intestinal.

Personalização tem poder

Esses achados, embora pequenos, somados ao fato de as análises terem sido feitas diretamente no intestino dos voluntários, contrastam os estudos semelhantes realizados antes.

"Eles abrem uma porta para um diagnóstico que nos tirará de um consumo universal empírico [dos probióticos] - que parece ser inútil em muitos casos - para um adaptado para cada pessoa, e que também pode ser prescrito para indivíduos diferentes que tenham as mesmas características [de microbiota]", declarou Eran Segal, biólogo e integrante da equipe.

O líder dos cientistas, o imunologista Eran Elinav, acrescentou que essas conclusões sugerem que os probióticos não devem ser indicados como uma fórmula única que serve para todos.

O ruim e o bom

Embora reconheça que os probióticos podem até ser interpretados como medicamentos para tratar a microbiota de determinados pacientes, Sandra Beatriz Marion, professora adjunta de Gastroenterologia da PUC-PR, reconhece as limitações de seu uso.

Além da falta de diretrizes internacionais, a flora intestinal tem, em média, 1000 espécies de bactérias, para as quais, não há disponibilidade de todas as cepas para uma prescrição personalizada, sem falar dos inúmeros outros tipos de micro-organismos que ainda não puderam ser identificados, por serem de difícil cultivo in vitro.

Ademais disso, suas características são diferentes em cada região do planeta. Some-se ainda o alto custo de exames genéticos que poderiam dar maiores pistas desse universo que cada pessoa tem dentro de si.

"Nós ainda não temos todas as respostas. Sabemos que alguns probióticos são mais úteis em determinadas situações, mas não sabemos quantos milhões de colônias seriam suficientes para restaurar a microbiota de cada pessoa. E nem podemos garantir sua eficácia 100% por causa dessa diversidade", conclui Marion.

Por ora, a boa notícia, é que já existem mais de 30 opções de probióticos no Brasil que, usados de forma correta, podem trazer alívio para muitas pessoas. Enquanto isso, as pesquisas avançam.

Fontes: Ana Beatriz de Paiva Baptistella, nutricionista funcional, gerente do departamento científico da VP Centro de Nutrição Funcional e docente do curso de pós-graduação da mesma instituição; Helena Sanae Kajikawa, relações públicas gerais e científicas da Yakult do Brasil; Marcella Garcez Duarte, médica nutróloga, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e docente do curso de especialização da mesma instituição; Sandra Beatriz Marion, professora adjunta de Gastroenterologia do curso de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); AGA (American Gastroenterological Association). Revisão técnica: Marcella Garcez Duarte.

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