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Inspiração pra fazer da atividade física um hábito


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Criticada pelo peso, ela virou coreógrafa: "Todo corpo é 'bom' para dançar"

Reprodução do Instagram @gabbcaboverde
Gabb Cabo Verde ouviu que não tinha perfil para ser dançarina, mas superou preconceito e virou professora de dança afro Imagem: Reprodução do Instagram @gabbcaboverde

Juliana Vaz

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-04-22T04:00:00

22/04/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Nascida na Angola, Gabb Cabo Verde, 23 anos, veio para o Brasil com oito meses em um navio de contrabando
  • Ela é apaixonada por dança desde a infância e, quando criança, sofreu preconceito de colegas e professores por causa do peso
  • Já adulta e participando de vários grupos, Gabb ouviu que dançava bem, mas não tinha um "bom perfil" comercial
  • Coreógrafa e professora de afro dance, hoje ela mostra que todos podem dançar, independentemente do físico

"Minha paixão pela dança começou na infância. Sempre que tinha chance, eu estava dançando em casa, na escola. Porém, como era uma criança gordinha, eu sofria bullying e era vítima de preconceito não só dos colegas de classe, como também dos professores.

Uma vez, minha turma fez uma apresentação de dança em uma festa da escola. Eu queria muito participar. No entanto, só meninas magrinhas foram selecionadas. Isso me marcou, mas não fez com que desistisse de dançar.

Reprodução do Instagram @gabbcaboverde
Gabb veio para o Brasil em um navio de contrabando e é apaixonada por dança desde a infância Imagem: Reprodução do Instagram @gabbcaboverde
Aos 11 anos, soube que o Centro Cultural José Bonifácio dava aulas gratuitas de danças afro-brasileiras contemporâneas na zona portuária do Rio de Janeiro. Eu me inscrevi e não faltava a uma aula sequer. Essa foi a porta de entrada formal ao universo artístico. Aos 15 anos, eu e meus amigos já tínhamos o nosso próprio grupo de hip-hop. A rede de amigos se expandiu e com isso meu repertório de possibilidades de conhecer novos estilos de dança também.

Por volta dos 17 anos tive contato com o dancehall queen, um estilo afro urbano de dança jamaicana. O nome 'queen' é porque são mulheres à frente dos vocais e da coreografia. Fiquei impressionada ao ver a energia com que elas dançavam e, principalmente, por não terem um corpo dentro do padrão de magreza. Essa época coincidiu com a minha busca por raízes e pela minha identidade como negra.

Vim para o Brasil com 8 meses, em um navio de contrabando

Até então, eu sabia que meu pai era angolano, morou muitos anos no Brasil, e que havia abandonado a mim e minha mãe quando eu tinha quatro anos. Só mais tarde é que minha mãe revelou que eu também era angolana! Meus pais se conheceram em Goiânia, cidade onde ambos trabalhavam. Quando ela engravidou, decidiram tentar uma nova vida no país de origem do meu pai.

Eu nasci em Luanda, em 1995. Porém, o país enfrentava uma guerra que parecia longe do fim. A situação econômica precária e a falta de segurança frustraram os planos de meus pais, que voltaram ao Brasil. Dessa vez, sem as economias e com as fronteiras de Angola em vigília, o caminho mais seguro e barato foi viajar até Moçambique e de lá tomar um navio.

Com um bebê de apenas oito meses, minha mãe enfrentou um navio de contrabando, com condições horríveis de higiene e muitos dias de viagem até chegar em Recife. De lá, ela conta que tentaram morar na Bahia para só depois chegarem ao Rio de Janeiro, cidade em que cresci.

Voltei a sofrer preconceito por causa do peso

São essas raízes que eu encontrei e fortaleci ao fazer parte do primeiro grupo de dancehall do Rio de Janeiro, a Rud Moviment. Fazíamos apresentações e workshops. Foi a partir daí que tive a oportunidade de trabalhar como dançarina de rappers importantes da cena musical.

Surgiram oportunidades de participar de testes para outros trabalhos, principalmente em videoclipes. Participei de vários testes e em muitos fui descartada mesmo com uma boa performance. A ficha caiu em um desses castings que todos me aplaudiram no fim da dança, mas o produtor me disse que eu 'não tinha ainda um bom perfil comercial'.

Não demorei para entender que ele se referia ao meu peso. Nessa época, por volta dos 18 anos, eu estava acima do peso. Mesmo com 1,79 m de altura os meus 90 kg eram mais importantes que minhas habilidades na dança. Cheguei ao limite e dei um basta nas pessoas que queriam definir o corpo ideal para dançar. Deixei os testes de lado por um tempo.

Todo corpo é 'legal' para dançar

Aos 20 anos, já havia me formado em dança Afro Brasileira pelo Sindicato dos Profissionais da Dança do Rio de Janeiro e comecei a ministrar aulas. Além de ainda estar angustiada com as experiências profissionais que tive até ali, comecei a ouvir minhas amigas falando que sentiam vergonha de dançar por não ter um corpo 'legal'.

Resolvi criar uma oficina de dança para que as pessoas pudessem compreender que quem nós comandamos nosso corpo, independentemente do tipo físico, todos podem dançar. Assim, nasceu o Celebre Seu Corpo, um espaço para crianças e mulheres de todas as idades estimularem o afeto, a autoestima e produzirem conhecimento.

Mudança no estilo de vida

Reprodução do Instagram @gabbcaboverde
Para ter mais saúde, Gabb passou a se alimentar melhor. Mesmo sem a pressão de emagrecer, ela perdeu 10 kg em dois meses Imagem: Reprodução do Instagram @gabbcaboverde
Eu me formei também em Afrovibe, que mistura fitness class com danças africanas e nessa fase reeduquei minha alimentação, mas sem nenhum objetivo de perder peso. Se acontecesse, seria apenas uma consequência.

Com a demanda de mais aulas na semana e seguindo um cardápio sem alimentos industrializados, perdi 10 kg em dois meses. Essa foi a prova de que quando você faz o que quer, sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar, as coisas acontecem. Ao focar em uma alimentação que me tornasse mais saudável, vi como meu corpo fica grato e funciona melhor. Comecei cortando o açúcar do café da manhã e hoje eliminei totalmente o consumo do ingrediente. Descobri que abacate é ótimo e versátil e não vivo mais sem.

Hoje, aos 23 anos, moro em São Paulo e sou dançarina profissional e coreógrafa. Além de trazer o projeto Celebre Seu Corpo comigo, dou aulas em um espaço somente para mulheres e colaboro com outros coletivos, como o Mooc, um grupo oito jovens artistas negros moradores da periferia paulistana."

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