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Suplementos dietéticos contra a demência não funcionam

Gracia Lam/The New York Times
O que realmente funciona para ajudar a saúde do cérebro com a idade? Comece com os mesmos alimentos que podem ajudar a manter seu coração saudável Imagem: Gracia Lam/The New York Times

Jane E. Brody

Do New York Times

2019-04-18T04:00:00

18/04/2019 04h00

Atenção, consumidores que querem proteger a saúde do cérebro: é possível economizar centenas de dólares por ano e melhorar a saúde do cérebro e do corpo ignorando a miríade de alegações não comprovadas de suplementos contra a demência e, em vez disso, se concentrar em um estilo de vida há muito relacionado ao bem-estar físico e mental.

Quantos desses produtos para o cérebro você já experimentou --ginkgo biloba, coenzima Q10, huperzine A, ácido caprílico, óleo de coco e cálcio de coral, entre outros? A Associação de Alzheimer diz que, com a possível exceção dos ácidos graxos ômega-3, já se sabe que todos os que foram devidamente testados até agora deixam a desejar.

Admito que é tentador acreditar que você pode manter seus poderes cognitivos com algumas pílulas por dia, em vez de adotar uma dieta saudável para o cérebro e de fazer exercícios regularmente e ter uma qualidade de sono adequada, entre outras medidas de preservação da saúde, como não fumar. Mas você só estaria enganando a si mesmo e desperdiçando um dinheiro precioso, que poderia ser mais bem gasto em alimentos nutritivos e em um bom par de tênis para caminhadas.

"Nenhum suplemento dietético conhecido previne o declínio cognitivo ou a demência", afirmou enfaticamente a dra. Joanna Hellmuth no periódico "JAMA" em janeiro. "No entanto, os suplementos anunciados como tais são facilmente encontrados e parecem ganhar legitimidade quando vendidos por grandes lojas dos EUA", acrescentou ela.

Hellmuth, neurologista do Centro de Memória e Envelhecimento da Universidade da Califórnia, em San Francisco, lembra os consumidores de que os fabricantes de suplementos não têm de testar seus produtos em relação à eficácia ou à segurança. Sem o apoio científico necessário, a maioria deles é promovida por depoimentos cujo alvo são as pessoas que se preocupam com o surgimento da demência.

"É uma situação confusa. Muitos pacientes e suas famílias veem afirmações ousadas em anúncios de jornal, na internet e na tevê de que os vários produtos podem melhorar a memória", disse Hellmuth, citando uma indústria de US$ 3,2 bilhões que promove os benefícios dos suplementos dietéticos para o cérebro.

Esse tipo de declaração em relação à memória é legal, de acordo com uma lei de 1994 que regula os suplementos dietéticos, contanto que o produto não garanta prevenir, tratar ou curar a demência ou o mal de Alzheimer. Mas, muitas vezes, quem procura um caminho fácil para a saúde cognitiva assume incorretamente que qualquer coisa que alegue melhorar a memória poderia afastar a demência.

Algumas empresas tentam incluir afirmações ilegais depois de passar pelo controle do governo. No fim, elas podem ser pegas, mas nem sempre antes que consumidores desavisados desperdicem seu dinheiro, ganho arduamente, em suplementos inúteis, possivelmente perigosos e muitas vezes caros.

Em fevereiro, a Administração de Alimentos e Drogas (FDA) enviou 12 cartas de advertência e cinco cartas de aconselhamento a empresas que, segundo a agência, divulgam ilegalmente 58 suplementos dietéticos que alegam prevenir, tratar ou curar a doença de Alzheimer ou outras condições graves. Em uma dessas cartas, enviada à Earth Turns LLC, a FDA citou o produto Green Tea Extract da empresa, cujo anúncio diz "ajudar a reduzir a ocorrência do mal de Alzheimer", bloqueando as proteínas que causam as placas que se formam no cérebro, típicas da doença.

Se você quer realmente ajudar seu cérebro, os especialistas recomendam a cafeína como uma aposta segura e mais eficaz, mesmo que temporária.

Naturalmente, os suplementos são apenas um dos vários braços da indústria para o aprimoramento da memória. Há também inúmeros vídeos, jogos, quebra-cabeças, programas e outros produtos sendo atualmente comercializados. Nenhum deles é um problema caso as pessoas se divirtam ao usá-los, contanto que não ignorem medidas que muito provavelmente vão reduzir o risco ou atrasar o início da demência.

Alguns desses produtos podem ser úteis até certo ponto. Pesquisadores da Clínica Mayo, em Phoenix, relataram em "JAMA Neurology", há dois anos, que os idosos que se envolvem em atividades de estímulo mental, como jogos, artesanato e uso de computadores têm um risco menor de desenvolver um comprometimento cognitivo leve, muitas vezes um precursor da demência.

Os pesquisadores, liderados pelo dr. Yonas E. Geda, psiquiatra e neurologista comportamental na Mayo, seguiram quase duas mil pessoas cognitivamente normais de 70 anos, ou mais, por uma média de quatro anos. Depois de ajustar os resultados em relação a gênero, idade e nível de escolaridade, descobriram que o uso do computador diminuiu o risco de comprometimento cognitivo dos participantes em 30 por cento; o artesanato, em 28 por cento; e os jogos, em 22 por cento.

Geda conta que aqueles que realizavam tais atividades pelo menos uma ou duas vezes por semana experimentaram um declínio cognitivo menor que aqueles que faziam as mesmas atividades no máximo três vezes por mês.

Jogar com outras pessoas também ajuda; já foi demonstrado, várias vezes, que a vida social beneficia a saúde e a longevidade.

No geral, os jogos de treinamento cerebral podem favorecer a prática em si, mas os benefícios não necessariamente se traduzem em melhor desempenho em outras atividades. Há três anos, a Comissão Federal de Comércio desafiou a alegação da Lumosity de que seus jogos podem aguçar a memória ou o poder do cérebro no mundo real. Citando publicidade enganosa, a agência disse que a empresa oferecia prêmios aos consumidores que atestavam a eficácia do produto.

O que realmente funciona para fortalecer a saúde do cérebro com o passar dos anos? Comece com os alimentos que podem ajudar a manter seu coração saudável: uma dieta no estilo mediterrâneo repleta de frutas frescas e legumes, grãos integrais, feijão, nozes, peixe, laticínios com baixo teor de gordura e azeite. Em um estudo importante chamado MIND, os adultos que adotaram tal dieta e limitaram sua ingestão de sal tinham um risco 35 por cento menor de declínio cognitivo na terceira idade, e a adesão estrita à dieta diminuiu o risco em mais de 50 por cento.

Ao mesmo tempo, evite ou limite os alimentos que podem ter efeitos tóxicos para o cérebro, como carnes vermelhas e especialmente as processadas, queijo e manteiga, frituras, doces, açúcares e carboidratos refinados como arroz branco e pão branco, nenhum dos quais é bom para o coração também.

Essa dieta também reduz o risco de pressão arterial elevada e de diabetes tipo 2, dois quadros que podem promover o declínio cognitivo ou a demência.

Em um estudo chinês com 17.700 idosos livres de demência no início do estudo, aqueles que consumiam pelo menos três porções de legumes e duas porções de frutas por dia estavam significativamente menos propensos a desenvolver demência nos seis anos seguintes.

Um estudo chinês anterior com 15.589 pessoas de 65 anos, ou mais, descobriu que aqueles que participaram diariamente de exercícios aeróbicos e atividades que envolvem mente e corpo eram significativamente menos propensos a desenvolver demência do que aqueles que fizeram apenas exercícios de alongamento e tonificação. E um novo estudo sueco que seguiu 800 mulheres de meia-idade por 44 anos descobriu que o envolvimento com a atividade física reduziu o risco de demência em 57 por cento.

Finalmente, não poupe seu sono, que dá ao cérebro uma chance de formar novas memórias. Os pesquisadores sugerem de sete a oito horas de sono por noite.

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