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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Olhar nos olhos prepara cérebro para se conectar; entenda o mecanismo

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Estudos apontam que a troca de olhares é essencial para nossa empatia Imagem: iStock

Priscilla Auilo Haikal

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-04-11T04:00:00

11/04/2019 04h00

Resumo da notícia

  • O contato visual ativa regiões do cérebro relacionadas à cognição, emoção e ação e nos dá pistas de como estamos sendo recebidos
  • Estudos mostram que ao olhar nos olhos de alguém, é possível que as mesmas áreas se ativem no cérebro das duas pessoas
  • Usamos esse contato para "ler a mente" do outro e tentar entender se é possível se aproximar e de que forma, gerando empatia

Seja nas redes sociais ou em aplicativos de mensagens instantâneas, hoje a interação digital se tornou uma das principais formas de nos comunicarmos. Já reparou quantas conversas estabelecemos sem sair de casa ou encontrar alguém pessoalmente? Apesar da facilidade e rapidez na troca de informações online, análises comprovam a complexidade e a importância psicológica de algo muito mais primitivo e sociável: o olho no olho.

Não é para menos. O contato visual mexe com várias áreas cerebrais em um sistema que integra cognição, emoção e ação, e envolve estímulos que despertam atenção, concentração e memória. Além disso, abrange uma série de processos conscientes e inconscientes para interpretar a emoção do outro que estão ligados com noções que vão desde ameaça ou sobrevivência (ao reconhecer uma face violenta) até reprodução (ao identificar que há abertura para relação sexual).

Pesquisadores apontam que isso se deve à ideia de que estamos fazendo uma "leitura da mente alheia". Para se ter noção, um estudo recente mostra que a conexão é tão grande ao manter o olho no olho, que o cérebro ativa simultaneamente as mesmas áreas de cada pessoa. É um mecanismo que inclui a participação do cerebelo e do sistema límbico, ligados com a capacidade de reconhecer e compartilhar emoções. Ou seja, é essencial para nossa empatia.

O que está por trás dos nossos olhos

Durante o encontro entre duas pessoas, a exploração visual do rosto é um dos aspectos de maior importância. Estudos feitos com registros dos movimentos oculares por meio de equipamentos chamados eye trackers mostram nitidamente essa ação de reconhecimento. Destinamos atenção aos elementos faciais mais expressivos durante a comunicação e nossos olhares tendem a fazer uma varredura na face do outro em busca de extrair informações dessa interação, como interesse ou indiferença.

Ao olhar nos olhos de alguém, criamos um canal de comunicação direta entre os sistemas nervosos centrais (SNC). Isso acontece a partir de movimentos da nossa visão controlados pelos campos oculares frontais, região que se situa no córtex frontal do cérebro e está conectada com várias outras partes envolvidas no processamento cognitivo, emocional e motor. É um processo que vai mexer com nossa percepção, atenção, controle da ação, emoção, resgate de memória implícita e formação de memória explícita.

Para entender melhor como funciona, basta pensar que o cérebro tem diversos circuitos integrativos. As informações entram pelo canal visual (córtex occipital, atrás da cabeça) e convergem para centros mais complexos (como o córtex temporo-occipital) para fazer a interpretação da face. Essas mensagens vão ser ligadas a circuitos de memória (para lembrar experiências prazerosas ou traumáticas) e serão cruzadas com dados de circuitos emocionais (ativando padrões para afeição, simpatia, antipatia, etc).

O cérebro integra essas e muitas outras informações para fazer sua interpretação do outro ser, e a partir dessa avaliação, decidir se vai ser aproximar, se manter neutro ou afastado da pessoa.

O que os olhos veem, a mente sente

Análises mostram que por meio do contato visual sinalizamos atitudes interpessoais, regulamos a sincronia das falas e as distâncias durante um diálogo. Isso decorre da compreensão consciente e inconsciente de elementos que variam conforme cada sistema nervoso central interpreta a dinâmica ocular do outro. Atribuímos carga emocional aos movimentos, o piscar dos olhos e a abertura da pupila de acordo com aprendizagem que ocorreu numa escala evolutiva da espécie humana.

A explicação disso se fundamenta no contraste de brilho entre a esclera (parte branca visível do globo ocular) e a íris (membrana pigmentada responsável pela modulação da abertura da pupila) nos humanos, o que não é encontrado em outros símios. Esse contraste de brilho entre esclera e íris denuncia a direção do olhar, apontando para onde ou para o que a pessoa olha. Aprender a interpretar o significado para onde o olhar alheio está mirando parece ter fundamento evolutivo e consequências como inferimos sobre as pessoas e como nos relacionamos socialmente com elas.

Estudiosos também destacam que ao observamos o olhar de outra pessoa, podemos notar o que lhe chama a atenção, e por consequência, podemos deduzir suas preferências ou até mesmo suas intenções. Quando notamos indiferença, mudamos o discurso para cativar mais a atenção; se percebemos raiva, procuramos suavizar o tom da conversa; se detectamos simpatia, prolongamos o assunto; e assim por diante.

O cérebro humano se desenvolveu para responder ao olhar dos outros por motivos de empatia e de sobrevivência. É pelo contato visual que buscamos entender o que sentem a nosso respeito, sendo uma forma de termos um feedback sobre nós. Assim, o olhar representa muito para a interpretação ou decodificação da emoção do outro.

Da mesma forma que a nossa bagagem cultural, as normas sociais e a formação cognitiva vão influenciar na maneira que reagimos quando nos encaram, seja com medo, simpatia, desinteresse, paixão, repulsa, nojo, entre tantos outros sentimentos. São fatores que abrangem a forma como codificamos, armazenamos e recuperamos informações ao longo de vivências sociais.

Fontes: Alfredo Pereira Junior, professor doutor e docente do Departamento de Educação do Instituto de Biociências da Unesp (Universidade Estadual Paulista - Campus de Botucatu); Guilherme Lepski, professor da FMUSP e Analía Arévalo, coordenadores do curso de Neurociências do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Helio Roberto Deliberador, professor da Faculdade de psicologia da PUC-SP; e Sérgio Fukusima, docente no departamento de Psicologia da FFCL (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) e Orientador Pleno na pós-graduação em Psicobiologia da USP-RP (Universidade de São Paulo - campus de Ribeirão Preto).

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