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Será que um dia conseguiremos detectar um câncer em 10 minutos?

kukhunthod/IStock
Além de ainda não ser preciso, o exame de sangue capaz de detectar o câncer tem custo elevado Imagem: kukhunthod/IStock

Gabriela Ingrid

Do UOL VivaBem, em São Paulo

2019-04-08T04:00:00

08/04/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A biopsia líquida começou com o sangue, mas a partir de qualquer fluido corporal é possível realizá-la: escarro, urina, fluido cérebro espinhal
  • A análise pode ter informações relativas ao diagnóstico, ao retorno ou não do câncer ou ao acompanhamento da doença
  • É difícil fazer uma previsão, mas especialistas relatam que em pelo menos uma década estaremos usando o exame de maneira mais rotineira

Em 2018, uma notícia elevou as expectativas sobre a rapidez em diagnosticar um câncer e, consequentemente, tratar a doença o quanto antes e aumentar as chances de cura. Na época, o estudo, publicado na revista Science, mostrou que um simples exame de sangue é capaz de detectar até oito tipos de tumores malignos. Mas será mesmo que estamos próximos de descobrir um câncer em minutos?

Aparentemente, sim: atualmente, o método é utilizado, em sua maioria, em pesquisas e não tem uso corriqueiro, mas também já é aplicado em alguns casos específicos em certos hospitais brasileiros. O resultado leva cerca de cinco dias para ficar pronto. Porém, esse tempo tende a melhorar e a análise no futuro deve ser entregue em menos de 1 minuto.

"A tecnologia tem avançado bastante. Antes, eram necessários meses até essa análise de sangue ficar pronta. Pode ser que esse resultado chegue em 10 segundos, mas isso daqui 15 anos ou mais. Muitos desafios ainda circundam a técnica", explica Oren Smaletz, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

Resultado rápido não é o objetivo

Chamado de biópsia líquida, esse exame analisa fluídos do corpo (além do sangue, também tem testes com urina, escarro ou fluido cérebro espinhal) para encontrar vestígios de DNA ou célula tumoral circulante. É uma forma bem menos invasiva e mais ágil de fazer o diagnóstico do que o método mais comum atualmente, no qual é retirada uma pequena parte do tecido por meio de uma cirurgia, para ele ser analisado no microscópio e revelar se as células tumorais são malignas ou não.

Apesar de a velocidade na entrega do resultado ser o que mais impressiona muitas pessoas, Smaletz explica que os cientistas começaram a pensar na biópsia líquida para detectar o câncer com um método não invasivo e não com mais rapidez.

"Hoje, sem a matéria do tumor, não há diagnóstico. Mas imagine detectar esse DNA tumoral de uma forma menos invasiva? Acho que a questão em torno desses exames do futuro seria muito mais a de um método que não precisa de cirurgia do que a questão da rapidez", diz.

Muito além do diagnóstico

A biópsia líquida vem senda utilizada no Brasil principalmente em pacientes com câncer de pulmão, para acompanhar a doença. "Além do diagnóstico, o exame pode ser usada para acompanhar o tratamento de um indivíduo que teve câncer --se há recidiva ou não", diz Helano Freitas, oncologista do A.C.Camargo Cancer Center.

Segundo ele, um em cada cinco pacientes com câncer de pulmão terá alguma mutação e o tumor ficará resistente aos remédios. Há medicamentos para essas mutações, mas o tratamento será mais eficaz se os médicos souberem qual a mutação pela qual a pessoa está passando. "Em vez de fazer uma nova biópsia, coleto 8 ml de sangue e faço um simples exame de sangue", explica Freitas. Parece simples, mas existem vários entraves por trás dessa análise.

Por que o exame não se torna popular?

Em pessoas com câncer, o sangue contém restos de células do organismo e células tumorais circulantes. No exame, os médicos procuram em uma pequena amostra resquícios do material genético do tumor --ou sua mutação. O problema é que ele pode não ser tão preciso.

"Eu não acho o que busco em uma em cada cinco amostras. O resultado pode dar negativo para as células tumorais por a pessoa não ter a mutação ou simplesmente porque naqueles 8 ml de sangue que tirei não há essas células, mas isso não quer dizer que elas não existam no resto do sangue da pessoa", diz o oncologista.

No caso de resultado negativo, o médico pode retirar uma nova amostra, mas aí entra uma nova questão: o preço do exame. Segundo Freitas, uma simples coleta como essa pode custar R$ 1.500. "Existem até subsídios farmacêuticos, mas eles não são ilimitados. Alguém tem que pagar", diz. O médico ainda afirma que já chegou a testar duas, três vezes o exame de sangue de um paciente e ter de confirmar o resultado por meio de uma biópsia tecidual.

Falta de precisão e sensibilidade

Além do preço, que Smaletz acredita que nunca vai baixar tanto quanto o de um teste para mamografia ou radiografia, existe o fato de que tumores pequenos não secretam tanto DNA circulante na corrente sanguínea. Ou seja, o diagnóstico só seria feito quando os tumores já estão maiores e mais avançados. "Somente tumores que têm mais de 1 cm começam a secretar DNA circulante. Entretanto, as chances de cura aumentam quando ele tem menos do que 0,5 cm. É um grande espaço de tempo essencial para a cura".

Dessa forma, o desafio seria fazer esse teste ser mais sensível, para captar até pequenas quantidades de DNA circulante. Ele também precisa ser mais preciso: excluir realmente quem não tem câncer e evitar o falso positivo. Além, é claro, de se tornar acessível, com preços mais populares.

"Estamos caminhando rápido para isso, mas não vai acontecer mês que vem", diz Smaletz. Freitas também evita fazer previsões: "É difícil dizer quando, mas não tenho dúvidas que em uma década estaremos usando a biópsia líquida de maneira mais rotineira e com possibilidades muito maiores. Agora, se vamos substituir a biópsia tecidual, acho que não."

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