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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Como lembramos de algumas coisas e esquecemos outras?

Daniel Zender/The New York Times
Algumas coisas não merecem ser lembradas e a ciência lentamente está trabalhando em como podemos deixar essas lembranças irem embora Imagem: Daniel Zender/The New York Times

Benedict Carey

Do New York Times

2019-03-31T09:32:15

31/03/2019 09h32

Independentemente de suas outras propriedades, a memória é uma encrenqueira, em especial quando faz uma revisão de seu estoque de vergonhas e tropeções morais. Dez minutos em uma entrevista de emprego importante e lá vêm imagens de um desastre passado: o café derramado, a tentativa dolorosa de fazer uma piada. Após dois encontros em um relacionamento que se inicia, eis que surgem flashbacks de um ex-companheiro abusivo.

O momento errado é um aspecto. Mas por que esses eventos não podem ser enterrados em meio a muitas outras memórias ruins que vão se apagando no cérebro?

A memória é protetora, enviando avisos para guiar seu comportamento futuro. Mas esquecer também é uma proteção. A maioria das pessoas encontra uma maneira de enterrar, ou pelo menos de remodelar, a grande maioria de seus piores momentos. Será que esse processo poderia ser controlado ou de alguma forma otimizado?

Talvez. Na última década ou mais, cientistas do cérebro começaram a juntar indícios de como a memória se degrada e se esquece de acontecimentos. Um novo estudo, publicado este mês no periódico Journal of Neuroscience, sugere que algumas coisas podem ser intencionalmente relegadas ao esquecimento, embora o método para fazê-lo seja ligeiramente contraintuitivo.

Por muito tempo, o esquecimento foi visto como um processo passivo de decadência e inimigo da aprendizagem. Mas esquecer é uma habilidade dinâmica, crucial para a recuperação da memória, para a estabilidade mental e para a manutenção do senso de identidade. Isso porque a lembrança é um processo dinâmico. Em um nível bioquímico, as memórias não são puxadas da prateleira como vídeos armazenados, mas unidas --reconstruídas -- pelo cérebro.

"Quando nos lembramos de algo, o ato de recordar ativa um processo bioquímico que pode solidificar e reorganizar a memória armazenada", disse Andre Fenton, neurocientista da Universidade de Nova York.

Esse processo pode melhorar a precisão da memória em longo prazo. Mas ativar uma memória também a torna temporariamente frágil e vulnerável a mudanças. É aqui que entra o esquecimento intencional. A ideia é mais editar que apagar: revisar, refocar e até diminuir gradualmente um grande incidente da memória.

Esquecer-se intencionalmente é recordar de modo diferente, de propósito. Para cientistas e terapeutas, é possível que o esquecimento intencional seja uma habilidade que pode ser praticada e deliberadamente reforçada.

No novo estudo, uma equipe liderada por Tracy Wang, pós-doutoranda de psicologia na Universidade do Texas, em Austin, fez 24 participantes se sentarem em uma máquina de imagem cerebral enquanto realizavam um teste de memória. Os coautores foram Jarrod Lewis-Peacock, da Universidade do Texas, e Katerina Placek, da Universidade da Pensilvânia.

No experimento, cada sujeito estudou uma série de cerca de 200 imagens, uma mistura de rostos e cenas, e identificou as faces como masculinas ou femininas e as cenas como internas ou externas. Cada imagem aparecia por alguns segundos e então desaparecia, e nesse momento o participante precisava se lembrar ou se esquecer; após alguns segundos, a imagem seguinte aparecia. O escâner do cérebro estava focado na atividade do córtex temporal ventral e do córtex sensorial, regiões especialmente ativas quando uma pessoa dedica atenção mental a imagens simples como essas.

Quando os participantes terminavam, descansavam um pouco e então faziam um teste. Eles viam uma série de imagens --aquelas que tinham visto anteriormente e outras que não --e diziam quanto estavam confiantes de ter visto cada uma delas. Eles se saíram bem: lembraram-se de 50 a 60 por cento das imagens que tinham sido instruídos a decorar e tinham se esquecido, com sucesso, de cerca de 40 por cento das imagens que tentaram apagar da memória.

O momento decisivo veio com os resultados dos exames. Quando a atividade cerebral de um indivíduo --uma medida de atenção mental interna -- estava especialmente alta ou especialmente baixa, ela normalmente correspondia a uma tentativa fracassada de esquecer uma imagem.

O esforço para se esquecer de uma memória indesejada não ajuda a apagá-la, nem mesmo o ato de tentar desviar a atenção. De fato, parecia haver um ponto exato --nem pouca atenção mental, nem muita -- que permitia que uma memória viesse à mente e depois desaparecesse, pelo menos em parte, por sua própria vontade. Você tem de se lembrar apenas um pouco para esquecer.

"Isso sugere uma nova rota para o esquecimento bem-sucedido. Para esquecer uma memória, sua representação mental deve ser reforçada para desencadear o enfraquecimento da memória", concluíram os autores.

Lewis-Peacock disse: "Quando as pessoas tiveram sucesso ao fazer isso, houve uma queda significativa em sua confiança no reconhecimento de imagens. Se a intenção de uma pessoa é enfraquecer memórias como parte da terapia, ou mudá-las ou vinculá-las a outras coisas como parte do dia a dia, ela lida exatamente com isso."

Lili Sahakyan, professora-associada de psicologia da Universidade de Illinois, que não estava envolvida na pesquisa, disse: "Essa ideia de que as memórias têm de ser fortalecidas antes que possam ser enfraquecidas é surpreendente, pois não é como presumimos que a memória funcione. Porém esse é um achado muito sólido e vamos acompanhar."

A descoberta se une a um acúmulo de evidências que põem em dúvida um modelo puramente linear de esquecimento, que sustenta que menos atenção mental significa menos recordação. Esse modelo parece se manter para alguns tipos de memórias; ignorar deliberadamente é crucial para a estratégia de esquecimento conhecida como supressão.

Outras estratégias não são estritamente lineares, pois exigem algum engajamento com a memória. Uma é a substituição: ligar deliberadamente uma memória indesejada a outros pensamentos, que ajudam a alterar o conteúdo quando este é recuperado posteriormente. Por exemplo, uma memória humilhante poderia ser diminuída ao se concentrar menos no sentimento de vergonha e mais nos amigos que deram apoio subsequentemente.

Os cientistas ainda não descobriram quais estratégias são mais adequadas para tipos particulares de memórias indesejadas. Mas qualquer compreensão mais clara seria um presente para os terapeutas que trabalham com pessoas com memórias prejudicadas por trauma, vergonha ou negligência. Tais memórias não se desvanecem; elas permanecem, seja como lembranças vivas ou como fontes subconsciente ou parcialmente conscientes de pavor e desespero. A tarefa de um terapeuta é guiar o paciente através dessas memórias de modo que elas se tornem inócuas, em vez de reforçá-las --um processo muitas vezes arriscado e dolorido.

Lewis-Peacock disse que seu laboratório estava tentando usar uma resposta neurológica em tempo real para encorajar as pessoas que estão tentando se livrar de uma memória a entrar no estado mental sugerido pelo novo estudo: acesso moderado à memória, não muito, nem muito pouco.

"Esperamos que possam usar isso para dizer 'Pense mais', ou 'Pense menos', para que cheguem ao ponto mental exato", disse ele.

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