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A ciência por trás do lubrificante de maconha: ele funciona mesmo?

Arte/UOL
Nem todo mundo sente algo a mais com o produto à base de THC Imagem: Arte/UOL

Gabriela Ingrid

Do UOL VivaBem, em São Paulo

2019-03-19T04:00:00

19/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Não há estudos que comprovem uma relação entre o consumo de produtos derivados da maconha e a melhora do ato sexual
  • O lubrificante de maconha até pode deixar a área mais sensível ao toque, mas não dará nenhum "barato"
  • Devido à ilegalidade no Brasil, a procedência da maconha é duvidosa, fazendo do produto algo arriscado para a saúde da vagina

A relação entre sexo e maconha não é exatamente uma novidade. Há quem diga que, quando ingerida oralmente ou fumada, a Cannabis aumenta a intensidade sexual em homens e mulheres. Agora que ela se tornou legal em alguns países para uso médico, um mercado crescente de produtos feitos à base da planta promete orgasmos mais intensos, como é o caso do lubrificante de maconha.

O sucesso dessa mistura --geralmente feita com óleo de coco e concentrados de princípios ativos da maconha -- é tanto que chegou ao Brasil. Mesmo com a criminalização da planta por aqui, ele é vendido com frequência em grupos de mulheres nas redes sociais. Mas entre muitos comentários positivos sobre o efeito do produto, dezenas relatam não terem sentido nada além de maior lubrificação. Com avaliações tão conflitantes, surge a dúvida se o lubrificante funciona mesmo.

De modo geral, a maconha pode ser absorvida pela vagina, o que pode causar alguma sensibilidade, no entanto, esse efeito depende das condições em que ela foi plantada e também da expectativa da pessoa e de como ela está no momento em que o está usando.

Outro fator é não haver uma fiscalização sobre os produtos vendidos por aqui. Por esse motivo, não temos como saber de que forma eles foram feitos, quanto de maconha possuem e que outras substâncias têm. Entenda melhor a seguir:

Maconha ajuda ou atrapalha o sexo?

São poucos os estudos que investigaram o impacto das substâncias presentes na maconha no sexo. Uma pesquisa de 2012, por exemplo, demonstrou que em períodos de excitação caiam os níveis de substâncias endocanabinoides (ou seja, que são produzidas pelo corpo, mas ativam os mesmos receptores que a maconha).

"O artigo aponta que, ao contrário do que o senso comum acredita, parece que os canabinoides da planta apresentariam efeitos opostos aos afrodisíacos", diz o biomédico Renato Filev, pesquisador do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), do Departamento de Psicobiologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

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O óleo de coco é usado na mistura do lubrificante Imagem: iStock

Em um documento, o Cebrid afirma que a maconha não afeta diretamente o desempenho sexual, mas a percepção do tempo e do espaço fica prejudicada com seu uso, o que pode tirar a concentração necessária durante o ato sexual. Além disso, tanto para o homem quanto para a mulher, alterações hormonais provocadas pelo canabinoides podem resultar em problemas de saúde.

No homem, por exemplo, o uso prolongado de maconha pode provocar uma diminuição da testosterona (hormônio responsável pela fabricação do espermatozoides). Na mulher pode trazer alterações hormonais chegando até a inibição da ovulação.

E o lubrificante de maconha?

De acordo com uma revisão de estimulantes sexuais publicada no periódico Sexual Medicine Reviews em 2015, o Foria, por exemplo, lubrificante de óleo de coco com THC comercializado desde 2014 nos EUA, é concebido como um potenciador sexual feminino. "No entanto, não existem estudos publicados para apoiar alegações da Cannabis como um estimulante sexual, e, portanto, esses produtos não podem ser recomendados", escrevem os autores.

Quando pensamos na ação dessas substâncias aplicadas na vagina, mais estudos se fazem necessários também. No entanto, Filey acredita que como a vagina é uma região com muitos vasos sanguíneos e terminações nervosas, o lubrificante feito com maconha deve sim causar uma sensibilização na região, ainda que não "dê barato" como algumas pessoas esperam.

Ele reforça que especialistas em saúde da mulher acreditam não haver uma possível interação dos canabinoides nesta região. "Eles alegam que mulheres que sentem desconforto ou dor na hora da relação sexual podem se beneficiar dos lubrificantes em geral e que aqueles que contêm canabinoides aparentemente não levam vantagem em detrimento aos outros", diz.

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Os preços dos lubrificantes variam de R$ 30 a R$ 70 sem o frete Imagem: iStock

Além disso, o THC (tetra hidro canabinol), um dos canabinoides usados nos lubrificantes, não impacta o sistema nervoso central sempre da mesma forma: depende de diversos fatores, como a dose consumida (a concentração da substância na maconha varia de acordo com o solo, o clima, a estação do ano, época de colheita e tempo decorrido entre a colheita e o uso), a experiência, a expectativa e o ambiente.

Produção ilegal e problemas para a saúde

A eficácia ou não do produto ainda é de menor importância considerando os possíveis riscos à saúde. Como a maconha e os canabinoides ainda estão proibidos no Brasil, muitos destes produtos não têm garantia de produção. "Muitas vezes são contrabandeados de outros países ou produzidos em laboratórios clandestinos nacionais e comercializados sem a mínima preocupação com a segurança e bem-estar do usuário", alerta Filev.

A utilização de produtos sujeitos à vigilância sanitária sem a devida comprovação de sua eficácia e segurança pode causar sérios riscos à saúde, como intoxicações, alergias e irritações na área em que o produto é aplicado. "Há ainda o risco do produto estar contaminado, uma vez que a estabilidade físico-química e microbiológica de sua formulação não foi avaliada", ressalta Marcos Machado, presidente do CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo).

Segundo Machado, sem a efetiva avaliação da qualidade do produto, não há garantias sobre a procedência das matérias-primas utilizadas, bem como se os efeitos alegados são verdadeiros. "A orientação é que o consumidor adquira os produtos sujeitos à avaliação sanitária de estabelecimentos regulares e licenciados para sua comercialização", recomenda.

De acordo com Lucia Lara, ginecologista e obstetra, presidente da Comissão Nacional Especializada de Sexologia da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetricia), o pH dos lubrificantes precisam ser compatíveis com o pH da vagina (menor ou igual a 4,5) para não alterar a microbiota vaginal. Daí a importância do controle de qualidade e do certificado de liberação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Segundo o biomédico Renato Filev, a mucosa da vagina é bastante sensível a alterações de pH e agentes externos, que podem alterar a flora local. "Caso este lubrificante não tenha garantia de procedência ou seja produzido com produtos contraindicados ao consumo humano, ele pode gerar desconforto, coceira e irritação", diz. Estes efeitos não são decorrentes dos canabinoides, mas possivelmente pelas outras substâncias utilizadas para a produção do lubrificante, por contaminantes ou resíduos de solventes que podem ter sido deixados no produto.

De acordo com Lara, existem estudos evidenciando que os lubrificantes à base de óleo estão associados a maior incidência de candidíase e vaginose bacteriana. "Entretanto, na literatura médica não existe estudo avaliando a eficácia de lubrificantes feitos à base de canabidiol e nem a sua relação com candidíase", diz a ginecologista.

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