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'Inteligentes dormem tarde e falam palavrão': esses estudos são confiáveis?

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Falar palavrões nem sempre é um indicativo de inteligência Imagem: iStock

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-03-14T04:00:00

14/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Muitos estudos relacionam inteligência a características como falar mais palavrões ou ser bagunceiro
  • No entanto, eles mostram que pessoas inteligentes têm esses traços, mas nem todos que os possuem terão uma vantagem intelectual
  • Até mesmo o conceito de inteligência que esses estudos usam pode ser questionado

Você fala palavrão, dorme tarde ou é bagunceiro? De acordo com alguns estudos amplamente divulgados na internet, isso significa que você é mais inteligente do que a média. Mas a questão que fica é: essas pesquisas são, realmente, confiáveis?

Os estudos podem até pode ser confiáveis --e isso vai depender da metodologia usada e varia de pesquisa para pesquisa. No entanto, eles normalmente não querem dizer que todas as pessoas que têm um determinado comportamento são mais inteligentes.

Existem, claro, relações entre índices de inteligência e alguns comportamentos. No entanto, normalmente esses estudos são feitos traçando hábitos comuns entre pessoas que têm um nível de inteligência elevado. Mas isso não significa que o hábito tenha uma relação direta com a inteligência ou que todos que o praticam são mais inteligentes.

Ou seja: se você fala palavrão, pode ser que isso signifique que você tenha uma inteligência acima da média. Mas também pode ser que não

Uma questão de interpretação

"Pessoas que vão dormir mais tarde podem fazer isso por terem prazer ao adquirir conhecimento e usam o período da noite para ler, estudar ou ver filmes, por exemplo", explica Cristina Borsari, psicóloga da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

O que esses estudos fazem, portanto, é buscar padrões comportamentais, por menores que eles sejam. Por exemplo: pessoas com maior facilidade de concentração dificilmente têm a atenção desviada das atividades principais que desempenham. Considerando isso, é possível que algumas delas não se incomodem em trabalhar em ambientes bagunçados ou barulhentos --o que pode levar à conclusão de que pessoas com facilidade de concentração podem ser mais bagunceiras.

Portanto, eles não podem ser levados ao pé da letra, como a maioria das pessoas faz. "É o tipo de conclusão que funciona mais como um estudo de caso. Essa associação de comportamentos não é uma generalização que possa nos levar a entender que isso se aplica a todos os casos", salienta Hélio Deliberador, professor de psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

O que é "inteligência"?

Quando relacionamos comportamentos a diferentes graus de inteligência, é importante esclarecer o que a medicina moderna considera como "inteligência". O teste mais conhecido é o de QI, sigla que significa quociente de inteligência e que por muito tempo abordou muito mais questões de lógica e vocabulário --e é o conceito que muitas pessoas têm de inteligência.

Mas com o passar do tempo, passou a se falar em múltiplas inteligências, e não apenas analisar o pensamento lógico. "Hoje, também abordamos outros elementos, como questões emocionais, na hora de falarmos sobre inteligência", diz Borsari.

No passado, pessoas com comportamento fora do padrão eram tidas como problemáticas --Albert Einstein, por exemplo, teve problemas em seus primeiros anos de estudo não pelas suas notas, em si, mas por não se adequar a ambientes autoritários, como eram as escolas na virada do século 19 para o século 20. Hoje, quem pensa diferente, "fora da caixa", acaba sendo valorizado por ter um viés disruptivo.

Os aspectos avaliados pelo teste de QI tradicional, portanto, acabaram ficando obsoletos para serem considerados como ferramenta única de psicometria --campo da psicologia voltado à criação de métodos de análise e mensuração de conceitos e variáveis de ordem psicológica.

Esse teste, no entanto, acabou passando por atualizações ao longo do tempo. "Esse tipo de teste está mais amplo, levando em conta variáveis cognitivas e afetivas também. Esses instrumentos de avaliação, tanto de inteligência quanto de outros aspectos da personalidade, passam por testes científicos e seguem uma legislação específica", explica Deliberador.

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