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Suplementos não previnem demência, mas estes três passos reduzem o risco

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Imagem: GETTY IMAGES

Paula Span

Do New York Times

2019-03-12T11:34:16

12/03/2019 11h34

Donna Kaye Hill percebeu que sua mãe de 80 anos começou a apresentar problemas cognitivos quando seu telefone parou de funcionar. Quando Hill ligou para a companhia telefônica, "eles me disseram que fazia três meses que ela não pagava a conta". 

Ao encontrar outras evidências alarmantes de lapsos de memória, decidiu levar sua mãe, Katie, para uma clínica especializada. Lá, um geriatra diagnosticou demência e prescreveu dois medicamentos e um suplemento dietético, uma forma de vitamina E.

Katie Hill tomou as cápsulas de vitamina E corretamente, além de vários outros medicamentos, até morrer quatro anos depois. Conforme ia piorando, a filha começou a achar que a vitamina ou os dois medicamentos prescritos não estavam fazendo muita diferença.

"Mas, se não fazem mal, se há uma chance de que podem ajudar, mesmo que minúscula, por que não?", raciocinou ela. Donna Hill, de 62 anos, funcionária pública aposentada em Danville, na Virgínia, toma cápsulas de óleo de peixe diariamente na esperança de afastar a doença que acabou matando sua mãe.

A única diferença com a mãe de Hill é que o médico havia prescrito o suplemento; a maioria dos idosos americanos o toma sem orientação médica. A Administração de Alimentos e Drogas (FDA) estima que 80% dos adultos mais velhos tomam suplementos dietéticos, muitos na tentativa de prevenir ou tratar o mal de Alzheimer e outras formas de demência.

No mês passado, a FDA tomou uma atitude em relação a esse mercado crescente, enviando avisos por meio de cartas a 17 empresas que vendem cerca de 60 suplementos com nomes como Cogni-Flex e Mind Ignite.

Os avisos diziam que as empresas divulgavam esses produtos como drogas contra o Alzheimer, mas "de forma natural e sem efeitos colaterais". Ou como "ajuda clinicamente comprovada para casos de males do cérebro, como o Alzheimer". Diziam que pílulas, óleos e cápsulas também tratariam outros males, desde derrames até disfunção erétil.

Afirmar que esses produtos se destinavam a "curar, aliviar, tratar ou prevenir doenças" significa que são drogas, disse a carta da agência.

E, como eram drogas que a FDA nunca analisou ou aprovou como seguras ou eficazes, as empresas agora precisam submeter amostras para aprovação ou parar com esse tipo de afirmação. Nos últimos cinco anos, a agência tomou atitudes contra 40 outros produtos dirigidos ao mal de Alzheimer.

O apelo dos suplementos é compreensível. Uma população que envelhece com uma expectativa de vida maior significa mais pessoas com demência, embora em estudos baseados na população dos EUA e de outros países ocidentais essa prevalência tenha diminuído.

Muitos de nós já vimos de perto a devastação e faríamos qualquer coisa para evitá-la. Mas, até agora, as notícias sobre drogas e suplementos são desencorajadoras.

Ginko biloba

Os cientistas já sabem muito mais sobre a demência, mas a literatura de pesquisa e os amplos testes farmacêuticos basicamente serviram para mostrar aos americanos preocupados as inúmeras substâncias que parecem não funcionar na prevenção, tratamento ou desaceleração do quadro.

Vitaminas, vários antioxidantes, produtos derivados de animais e plantas --"vemos muitos anúncios na TV, mas não temos evidência de que algum deles seja preventivo", disse Steven DeKosky, neurologista e vice-diretor do Instituto do Cérebro McKnight, na Universidade da Flórida.

DeKosky conduziu um estudo, com apoio do governo, sobre o extrato de ginkgo biloba, por exemplo, seguindo mais de três mil pessoas por sete anos para ver se a demência seria reduzida. Não foi.

"Nenhum efeito", disse ele. "Mas vá à farmácia. Muitas empresas ainda vendem ginkgo --se é que o produto realmente contém o ingrediente, porque os suplementos nem sempre trazem o que é mencionado."

Além do mais, "alguns desses suplementos são biologicamente ativos e podem ser tóxicos em conjunto com outras drogas", disse DeKosky. E os suplementos podem ser caros.

Veasey Conway/The New York Times
Donna Kaye Hill passeia com seu cachorro em Danville. Ela toma suplemento de óleo de peixe diariamente para se prevenir da demência, mas pesquisas sugerem que o exercício pode ser mais eficaz na redução do risco Imagem: Veasey Conway/The New York Times

Como reduzir risco de demência

Mas há outras maneiras de reduzir o risco de demência. Dois painéis de prestígio, que revisaram muitos estudos de prevenção, divulgaram recentemente várias recomendações.

O relatório mais conservador, da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina, de 2017, baseou-se em amplos testes clínicos randomizados.

Não há muitos desse tipo, por isso o painel endossou apenas três intervenções "apoiadas por evidências encorajadoras, mas inconclusivas" para prevenir, adiar ou desacelerar o declínio cognitivo.

São elas:

  • Aumento da atividade física;
  • Controle da pressão sanguínea em hipertensos, em especial na meia-idade;
  • Treino cognitivo.

A última recomendação não necessariamente se refere aos jogos cerebrais comercializados on-line, disse Kristine Yaffe, neuropsiquiatra e epidemiologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que participou do painel.

"É simplesmente o conceito de estar mentalmente ativo. Encontre algo de que goste, em que aprenda algo novo, desafiando e estimulando seu cérebro", disse ela. 

Mesmo que as evidências até agora não estabeleçam quais exercícios mentais surtem os melhores efeitos ou com que frequência devem ser feitos, "eles não são caros e não causam efeitos colaterais", afirmou Yaffe.

A pressão arterial chamou a atenção em janeiro com os últimos achados do teste Sprint, um estudo interrompido no início de 2015, quando o tratamento intensivo da hipertensão (com a pressão sistólica ideal de menos de 12, comparada com o padrão 14) provou ser capaz de reduzir problemas cardiovasculares e mortes.

Mesmo assim, os pesquisadores continuaram com os testes em 9.361 participantes com hipertensão (idade média: 68 anos) e completaram as avaliações cognitivas subsequentes.

Os resultados, publicados no periódico Jama, mostraram que o grupo com tratamento intensivo tinha uma probabilidade menor de desenvolver a demência em comparação com aqueles em um tratamento convencional, mas não com uma ampla margem estatística. No entanto, o tratamento intensivo reduziu significativamente o risco de deficiências cognitivas dos participantes, um precursor frequente da demência.

"Para mim, essa foi uma das descobertas mais animadoras dos últimos anos", disse Yaffe, mencionando no editorial que esse foi o primeiro grande teste que demonstrou uma estratégia eficiente para prevenir deficiências cognitivas advindas com a idade.

"O mesmo que recomendamos para a saúde cardíaca é bom também para a cognição", disse-me ela. "É um campo que está crescendo."

A Comissão Lancet de Prevenção, Intervenção e Cuidados da Demência também recomendou o tratamento de hipertensão para a meia-idade, além de exercícios, vida social ativa e eliminação do tabagismo, além de gerenciamento do peso, diabetes, deficiência auditiva e depressão. Esses passos podem prevenir ou retardar um terço dos casos de demência, estima a comissão.

Quando Yaffe dá palestras sobre prevenção da demência, também menciona bons hábitos de sono, além de incentivar a plateia a se precaver contra traumas cerebrais.

São conselhos importantes, mas desapontadoramente simples. Onde está a poção mágica? Por acaso nós todos não sabemos que é preciso nos manter física e mentalmente ativos, manter um peso normal, cuidar da pressão alta, etc?

Além do mais, isso não é infalível, reconheceu Yaffe. Na loteria da demência, "há o aspecto da genética. Há o aspecto da falta de sorte".

Mesmo assim, acrescentou: "O conceito é importante. O que pode ser feito nesses casos é diminuir seus riscos."

É por isso que a abordagem mais eficaz adotada por Donna Kaye Hill para se proteger da demência provavelmente não seja a ingestão de óleo de peixe.

Ela também toma remédios para controlar sua pressão sanguínea. Lê biografias e romances policiais e participa de um clube do livro com amigos. E anda cerca de oito quilômetros por dia, cinco dias por semana, com seu labrador fêmea chamado Annie.

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