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Ele amputou perna após acidente para cuidar da esposa que ficou paraplégica

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-03-10T04:00:00

10/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Quirino e Joana Aburad sofreram um grave acidente em uma viagem de moto
  • Joana ficou paraplégica e Quirino decidiu amputar a perna para não perder mobilidade e conseguir cuidar da esposa
  • Casados há 22 anos, os dois enfrentaram as dificuldades juntos e revelam que o acidente não interferiu em nada na felicidade deles

Em abril de 2016, Quirino Aburad, 43, e Joana Darc Aburad, 41, saíram de moto de Cuiabá com destino a Buenos Aires --ele pilotando, e ela na garupa. Quando estavam em uma estrada em Santa Catarina, Quirino perdeu o controle da motocicleta em uma curva, bateu no guardrail e o casal sofreu um grave acidente.

"Ficamos conscientes o tempo todo. Eu me lembro do Quirino reclamando de bastante dor, e percebi que não conseguia me movimentar e nem sentir minhas pernas. Fiquei assustada, mas não entrei em pânico porque nossos amigos [que viajavam juntos, em outra moto] nos tranquilizaram enquanto aguardávamos a ambulância chegar. Fomos socorridos e levados ao hospital", conta Joana. 

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Após os primeiros exames, foi constatado que Quirino quebrou as duas mãos e teve três fraturas na perna direita. Já Joana sofreu uma lesão na vértebra T10. Ambos precisaram ser operados: ele para colocar fixadores, e ela para tentar estabilizar a coluna. 

Quatro dias após a cirurgia, Joana recebeu a pior notícia da vida dela. Os médicos entraram no quarto onde o casal estava internado e disseram que ela tinha ficado paraplégica, que o quadro era irreversível e que ela nunca mais voltaria a andar.

"Chorei muito e me recusei a acreditar. Minha frustração não era só por não poder mais andar, mas de saber que eu ia precisar de ajuda para tudo, desde as ações mais corriqueiras, como entrar em um carro, até as mais íntimas, como trocar de roupa", relembra.

Quirino amputou perna para poder ajudar esposa

Dois dias depois, quando o casal mal tinha conseguido absorver a notícia, Quirino teve uma complicação e o médico recomendou que ele amputasse a perna direita até a altura do joelho. O especialista explicou que se ele não se submetesse à intervenção, a perna dele ficaria rígida, definharia e sua mobilidade ficaria reduzida. Ainda existia um alto risco de infecção. Mesmo assim, era uma decisão de Quirino fazer ou não a cirurgia. 

"Se eu fosse solteiro, provavelmente teria escolhido não amputar. Mas, como precisava cuidar da minha esposa na atual condição em que se encontrava, decidi amputar e colocar a prótese. Não podia ficar com a mobilidade reduzida, isso prejudicaria como eu poderia ajudar a Joana", explica o servidor. 

Joana conta que foi uma decisão difícil para todos e que ela preferia que não fosse necessário fazer isso: "Meu marido demonstrou um grau de altruísmo incrível. Em inúmeros casos, vemos as pessoas fugindo na hora que as coisas se complicam. Em vez de fugir, ele se moveu na minha direção para me apoiar. Eu sinto orgulho de tê-lo como marido por esse gesto nobre e pelas pequenas atitudes no dia a dia." 

As dificuldades de adaptação

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Com a necessidade de se adaptar diariamente, o retorno dos dois para casa foi desafiador. Eles moravam em um apartamento duplex e não puderam mais usar o andar de cima por causa da escada. Transformaram a sala no quarto e tiraram todas as portas internas para Joana poder se locomover com a cadeira de rodas. 

"Era bom estar fora do hospital, no nosso ambiente, mas, ao mesmo tempo foi um choque de realidade. Eu me questionava como ia lidar com a minha vida e meu lar naquele novo corpo", diz Joana.

Já Quirino conta que no começo sentia dor e não conseguia fazer nada sozinho. "Meu pai me dava banho, um irmão escovava meus dentes e o outro me dava comida. Graças ao apoio das nossas famílias, nos auxiliando em tudo, nos fortalecemos para enfrentar as adversidades", afirma Quirino.

Joana conta que os parentes diziam para o casal se alegrar por estar vivos e não ter perdido um ao outro.

Foquei na recuperação do meu marido e ele na minha. Nos mantivemos fortes e calmos, não foi fácil, mas conseguimos superar de uma maneira positiva

A maior dificuldade do casal é o fato de Joana não ter controle sobre as necessidades fisiológicas: ela usa fralda e uma sonda para tirar a urina da bexiga. No café da manhã, a funcionária pública faz uma alimentação para estimular o funcionamento do intestino, no entanto, ao longo do dia, ocasionalmente tem perda de cocô durante os compromissos.

"Não sinto vontade nem alívio, só identifico pelo cheiro e barulho. Assim que percebo, aviso meu marido, e ele me 'socorre'. Não posso ficar muito tempo em contato com as fezes pelo risco de infecções", explica Joana. 

Geralmente, eles procuram ir a supermercados e shoppings perto de casa, para conseguirem voltar rapidamente em situações como essa. Mas, quando estão na estrada viajando, o jeito é parar no motel mais próximo para Quirino poder higienizar e dar banho na esposa. Joana liga para o estabelecimento para se informar se há alguma suíte com acessibilidade para deficiente físico e explica o caso dela. Eles carregam uma mala de 'primeiros-socorros' com lenço umedecido, fralda, toalha, sabonete, uma muda de roupa limpa e luvas.

Realização de um sonho

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
De licença médica do trabalho desde o acidente, o casal se mudou de Cuiabá para São Paulo, em 2017, para fazer um tratamento em um centro de reabilitação. Diariamente, eles ficam quatro horas lá entre sessões de fisioterapia padrão, fisioterapia na piscina, musculação, esteira e bicicleta.

Os dois já apresentaram evolução: Joana recuperou a sensibilidade em alguns pontos abaixo da lesão na coluna e consegue fazer movimentos voluntários de flexão no quadril, enquanto Quirino aprendeu a andar corretamente com a prótese e recuperou a força e massa muscular.

Eles também realizaram um desejo antigo, saltar de paraquedas. "No momento do salto parecia que eu estava plena de novo, livre, com o corpo todo funcionando, e não presa em uma cadeira de rodas. Foi uma experiência maravilhosa", relata Joana. 

"O acidente não interferiu em nada na nossa felicidade"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Casados há 22 anos, os dois garantem que, após passar por tudo isso juntos, aprenderam e vivem na prática o que é amor, que definem como dedicação, devoção e renúncia.

"Não abandonamos um ao outro pelo amor e companheirismo que temos", diz Quirino, que afirma ser absolutamente feliz mesmo com tudo o que aconteceu. "O acidente não interferiu em nada na nossa felicidade. A limitação existe na cabeça da pessoa e não no corpo. Não vamos deixar de ser felizes ou ficar deprimidos porque eu amputei a perna e minha esposa ficou paraplégica."

Joana faz planos para o futuro e diz que, daqui a cinco anos, se imagina em um cenário mais favorável do que o atual. "Eu me vejo em uma condição física melhor, sendo capaz de fazer mais movimentos voluntários, tendo controle sobre o meu corpo, e mais independente. Imagino o meu marido com uma prótese melhor, sentindo menos dor e tendo mais conforto e mobilidade. E o principal, idealizo a gente alcançando tudo isso da maneira como foi desde o início, sempre juntos. Estar ao lado um do outro faz toda a diferença." 

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