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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Diarreia: alimento infectado é principal causa; veja como evitar e tratar

Di Vasca/ Arte UOL VivaBem
Fezes amolecidas ou líquidas, dor abdominal, suor frio e febre são sintomas de diarreia Imagem: Di Vasca/ Arte UOL VivaBem

Tatiana Pronin

Colaboração para o UOL VivaBem

2019-02-05T04:00:00

05/02/2019 04h00

Quase todo mundo já passou pela situação e sabe o quanto é desagradável: a vontade é incontrolável e não dá coragem de ficar longe de um banheiro.

Embora existam inúmeras doenças ou situações capazes de provocar diarreia, a maior parte dos quadros agudos tem origem infecciosa, ou seja, é uma reação do organismo contra bactérias, vírus, parasitas, toxinas. Os agentes podem ser transmitidos por bebida ou comida contaminada, ou ainda de pessoa para pessoa, por hábitos inadequados de higiene.

Sintomas

Para ser definido como diarreia, o quadro deve incluir:

  • Fezes amolecidas ou líquidas;
  • Necessidade de evacuar mais de três vezes ao dia.

Também podem estar presentes:

  • Dor abdominal em cólica;
  • Suor frio;
  • Febre;
  • Náuseas e vômitos;
  • Sensação de peso no abdômen;
  • Sensação de esvaziamento incompleto do intestino;
  • Presença de sangue e/ou pus nas fezes.

Tipos de diarreia

O problema pode ser:

  • Agudo: durar apenas de um a 14 dias;
  • Crônico: quando dura quatro semanas ou mais. 

Complicações

O grande temor relacionado à diarreia aguda é a desidratação (perda de água no organismo), além da perda de eletrólitos no sangue (como sódio e potássio) ou até perda de sangue. Todas essas complicações podem levar à morte se não tratadas a tempo.

Já as diarreias crônicas podem afetar a absorção de nutrientes, gerando desnutrição, emagrecimento e queda da função imunológica. 

Ocorrências

As chamadas doenças diarreicas, associadas a infecções, são a nona principal causa de morte no mundo todo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) referentes a 2016, ano em que essas enfermidades causaram 1,4 milhão de mortes. 

A maior preocupação é com as crianças --após a pneumonia, essa é a segunda principal causa de mortalidade infantil. Como o tema faz parte das chamadas Metas do Milênio, da Organização das Nações Unidas (ONU), as estatísticas mais confiáveis para diarreia são para essa população. Cerca de 1,7 bilhão de crianças têm o quadro a cada ano, e 525 mil indivíduos menores de 5 anos morrem por causa dela.

O Brasil registrou a morte de 2.738 crianças por diarreia em 2000. Em 2015, foram 1.564 e, em 2016, 1.593. O número de mortes por diarreia vinha apresentando queda ao longo da última década, mas voltou a crescer associada à pneumonia, gripe e, principalmente, à desnutrição. A água contaminada é o maior fator de risco e o problema se concentra onde não existe água encanada e saneamento básico. 

Causas

Veja as causas mais comuns de diarreia:

- Bactérias: os microrganismos podem se multiplicar nos alimentos ou na água e causar infecções quando ingeridos. Os mais frequentes são por Salmonella spp, Shiguella spp e Escherichia coli

- Toxinas: substâncias naturais produzidas por bactérias como S.aureus, Clostridium spp, B.cereus, Vibrio spp (vibrião da cólera), entre outras.

- Vírus: como o da hepatite A, rotavírus e norovírus. 

- Parasitas: como Cryptosporidium enteritis, Entamoeba histolytica (amebíase) e Giardia lamblia (giardíase). 

- Outros agentes: fungos, substâncias químicas, metais pesados e agrotóxicos também podem causar diarreia.

- Medicamentos: remédios como antibióticos, laxantes, antiácidos, drogas contra o câncer, orlistat (remédio para emagrecer) podem interferir no funcionamento do intestino.

- Síndrome do intestino irritável (SII): uma alteração exclusivamente da motilidade do trato gastrointestinal por causas que ainda não são totalmente conhecidas.

- Intolerância alimentar: a intolerância à lactose (açúcar do leite) acomete grande parte da população, chegando a 70% em algumas regiões do Brasil. Flatulência e dor abdominal costumam acompanhar o quadro. Certos tipos de açúcar, como frutose, sorbitol, manitol ou xilitol, também podem causar diarreia em algumas pessoas. 

- Alergia alimentar: a alergia ao leite de vaca ocorre em lactentes, quando começam a ingerir fórmula, ou, mais raramente, pelo próprio leite materno, quando a mãe ingere leite de vaca. A alergia é um processo imunológico relacionado à proteína do leite e as consequências podem ser anemia, baixo ganho de peso, quadros pulmonares e de pele. A diarreia pode ser aquosa ou sanguinolenta. Soja, certos cereais, ovos ou frutos do mar também podem causar alergia e provocar diarreia em algumas pessoas.

- Doenças inflamatórias intestinais: são doenças autoimunes crônicas (como doença de Crohn e retocolite ulcerativa) que necessitam de tratamento específico e acompanhamento com especialista. Apresentam-se com quadro de diarreia crônica, sanguinolenta, dor abdominal, eventualmente febre e perda de peso.

- Doença celíaca: é uma doença geneticamente determinada e mediada por um processo imunológico, mas não é uma alergia. Pacientes com a doença têm uma lesão na mucosa do intestino delgado, desencadeada pela ingestão de glúten (proteína presente no trigo, cevada e centeio). Essa lesão leva à má absorção dos nutrientes com consequente diarreia e desnutrição. 

- Cirurgias do trato gastrointestinal: procedimentos cirúrgicos como a retirada de apêndice ou vesícula.

- Ansiedade: pessoas que sofrem desse transtorno mental ou passam por uma situação de estresse agudo podem ter uma liberação tão forte de adrenalina que afeta a motilidade do trato gastrointestinal.

- Cafeína ou álcool em excesso: quem exagera no café ou na bebida alcoólica pode ter o problema.

Quando ir ao pronto-socorro?

Os sinais de alerta que determinam avaliação médica são:

  • Febre alta, normalmente maior que 38,5 ºC;    
  • Diarreia severa que não melhora após 24h;
  • Desidratação*;
  • Presença de vômitos que impedem a hidratação;
  • Diarreia com sangue;
  • Diarreia por mais de duas semanas;
  • Diarreia em crianças menores de 1 ano, pacientes idosos e/ou imunossuprimidos;
  • Crianças que recusam hidratação ou alimentação durante o quadro de diarreia;

*Sinais de desidratação: olhos fundos, boca seca, muita sede, diminuição da diurese e em bebês afundamento da fontanela (moleira).

Atenção: crianças e idosos devem ser levados ao pronto-socorro antes (se os sintomas não melhorarem em 24 horas ou conforme orientação do profissional de saúde), pois podem se desidratar com maior facilidade. Além disso, também é importante reportar a ocorrência de mais casos na família ou conhecidos, pois pode se tratar de um surto, onde outras medidas de controle podem ser realizadas e evitar novos casos.

Quem tem diarreias brandas com frequência deve procurar o médico?

A maior parte das doenças que causam diarreia e que necessitam de atenção e cuidados com tratamentos específicos são quadros graves, acompanhados de perda de peso, anemia, comprometimento da capacidade de trabalho ou estudo e da vida pessoal do indivíduo. Alguns sinais alertam para necessidade de investigação da diarreia, nesse caso: 

  • Duração superior a 30 dias, presença de febre;
  • Perda de peso;
  • Presença de sangue nas fezes.

Porém, mesmo não sendo um quadro grave, algumas patologias quando diagnosticadas e com as orientações adequadas ao paciente possuem melhora significativa da qualidade de vida, como por exemplo, a intolerância à lactose.

Diagnóstico

Em muitos casos de diarreia aguda não é necessário nenhum exame, apenas o relato do paciente, pois a maioria dos quadros é viral e autolimitada (ou seja, passa sozinha de três a sete dias, em média). Já quando o quadro é grave ou de longa duração, o diagnóstico do agente causador da diarreia é feito por testes laboratoriais, que pode incluir exames de fezes, de sangue, cultura de bactérias ou pesquisa de vírus. Também pode ser necessária a coleta de urina ou líquor, de acordo com a suspeita, ou análises de amostras de alimentos ou água, em casos de suspeita de contaminação. Os exames são importantes no caso de surtos, para orientar medidas de controle. 

Nos casos de diarreia crônica, outros tipos de exames também podem ser solicitados, como teste de tolerância à lactose, exames para detectar alergias, anemia, presença de sangue oculto nas fezes ou anticorpos no sangue, endoscopia ou colonoscopia (em alguns casos com biópsia), tomografia computadorizada do abdômen ou ressonância magnética, entre outras. 

Tratamento 

A maioria dos quadros de diarreia aguda infecciosa não requer tratamento medicamentoso específico, por se tratar quase sempre de vírus, apenas cuidados com hidratação --ingestão de muito líquido, como água potável e sucos naturais.

Para evitar a desidratação, o profissional de saúde deve receitar o uso de Soluções de Reidratação Oral ou soro caseiro* após as evacuações. Eles estão disponíveis em qualquer farmácia ou posto de saúde. Para os casos mais graves, o paciente deve ficar no hospital ou até ser internado para receber soro por via endovenosa (pela veia), além de outros cuidados. Nos casos de suspeita de bactérias ou parasitas (que, em geral, envolvem febre e sangue nas fezes), são indicadas drogas específicas (antibióticos ou antiparasitários). Analgésicos também podem ser prescritos em casos de dor e febre, bem como probióticos que ajudam a recompor a flora intestinal

Já para as doenças não infecciosas, o tratamento depende do diagnóstico e costuma ser de longo prazo. Doenças inflamatórias intestinais envolvem terapias individualizadas, com medicamentos que atuam no sistema imunológico. Nos casos de intolerância à lactose recomenda-se a exclusão desse tipo de açúcar da dieta ou o uso de enzimas por via oral ao ingerir o alimento. Nas alergias alimentares é preciso eliminar o causador da reação, bem como nos casos de doença celíaca, a intolerância grave e permanente ao glúten (presente no trigo e na cevada). Também podem ser indicados suplementos alimentares para corrigir eventuais deficiências nutricionais decorrentes do quadro.

*Como preparar o soro caseiro 

Em um litro de água mineral, filtrada ou bem fervida (mas já fria), misture uma colher pequena (tipo cafezinho) de sal e uma colher grande (tipo sopa) de açúcar. Mexa bem e ofereça o dia inteiro em pequenas colheradas. 

Como ajudar quem está com diarreia?

É importante ficar atento aos sinais de alerta para levar a pessoa com diarreia ao pronto-socorro, se necessário, e oferecer água, sucos e, eventualmente, soro ou soluções de reidratação. Apesar de alguns profissionais sugerirem que se evite refeições gordurosas ou condimentadas durante a diarreia, a recomendação oficial é que a dieta habitual seja mantida (bem como a amamentação, no caso dos lactentes). Não ofereça antidiarreicos ou remédios para enjoo sem orientação médica. 

Prevenção

Infelizmente não há vacinas para a maioria dos agentes causadores de doença diarreica, exceto para determinados tipos de rotavírus e contra a hepatite A --ambas fazem parte do calendário oficial do Ministério da Saúde. Portanto, a principal forma de se evitar uma infecção intestinal é adotar todos os cuidados possíveis no preparo dos alimentos e beber apenas água potável, tratada ou fervida. Confira algumas dicas:

- Verduras cruas e frutas devem sempre ser higienizadas e desinfetadas antes do consumo;

- Lave bem as mãos com água e sabão após usar o banheiro, antes das refeições, ao trocar fraldas, cuidar do animal de estimação e antes de preparar a comida. Quem trabalha em refeitórios ou restaurantes deve utilizar luvas ao manipular os alimentos; 

- Lave bem as superfícies da pia e os utensílios;

- Não deixe os alimentos preparados muito tempo fora da geladeira, em temperatura ambiente --duas horas depois já é possível que bactérias e toxinas se multipliquem;

- Evite consumir produtos de origem animal (como carnes bovina e suína, aves, ovos, peixes e frutos do mar) crus ou mal cozidos se não tiver certeza de como foram conservados; também evite leite e derivados que não sejam pasteurizados;

- A implantação de sistemas públicos de água tratada e de esgoto reduziu drasticamente os casos de diarreia, mas águas de bica, fontes e mesmo algumas águas engarrafadas produzidas sem os devidos cuidados ou clandestinas são responsáveis por grande parte dos surtos veiculados por água.

Fontes: Alexandre Naime Barbosa, infectologista, professor da Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia); Márcia Wehba, assessora médica em gastroenterologia do Fleury Medicina e Saúde; Regiane de Paula, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo; OMS (Organização Mundial da Saúde); National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney  Diseases (Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos).

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