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Movimento #HealthyFood: influencers combatem anorexia no Instagram

Reprodução Instagram/@nourishingnicola
Jovem mostra corpo de quando tinha distúrbio alimentar, em 2014, e após voltar a comer sem regras, em 2019 Imagem: Reprodução Instagram/@nourishingnicola

23/01/2019 09h28

"200 gramas de sêmola, uma cebola, um pimentão, 250 gramas de tomates sem pele, um bife de carne moída, óleo, sal, pimenta e temperos": essa é a receita da "tajine healthy" da estudante francesa Doriane Sansano, de 20 anos. A jovem, que venceu a anorexia há apenas alguns meses, é integrante de um movimento que se popularizou no Instagram e que estimula as pessoas a comerem de forma saudável. Além de incentivar a saúde e o bem-estar, a nova moda vem contribuindo no combate aos transtornos alimentares.

"200 gramas de sêmola, uma cebola, um pimentão, 250 gramas de tomates sem pele, um bife de carne moída, óleo, sal, pimenta e temperos": essa é a receita...

Os perfis se multiplicam no Instagram. Basta uma simples busca pelas hashtags #HealthyFood (comida saudável), #RealFood (comida de verdade) #EatClean (comer limpo) ou simplesmente #WhatsOnMyPlate (o que tem no meu prato) para encontrar milhares de usuários que compartilham fotos de pratos, receitas e dicas de alimentação saudável.

Majoritariamente do sexo feminino, boa parte dessas influencers não escondem ter enfrentado transtornos alimentares, tais como anorexia e bulimia, detectados principalmente em mulheres. Muitas também dão dicas de exercícios físicos e de saúde mental, detalhando através de belas imagens uma rotina nem sempre feliz no combate a esses distúrbios.

"Quando caí na anorexia, encontrei um pouco de ajuda no Instagram e comecei a seguir o perfil de algumas pessoas. Em setembro, quando me senti curada, decidi criar uma conta para retribuir a ajuda", diz Doriane. No perfil foxylucky23, a jovem publica fotos de receitas "simples, mas gostosas", do café da manhã ao jantar, abusando de cereais, frutas e legumes.

Além dos comentários motivantes de seus seguidores, a estudante também diz receber com frequência mensagens privadas de pessoas que, como ela, enfrentaram ou estão lutando contra transtornos alimentares. "Durante o tratamento, temos muitas dúvidas e nos questionamos frequentemente se estamos indo pelo caminho certo. Vejo que o temor que eu tinha sobre muitas coisas, outras garotas também têm. Digo para elas não se preocuparem, que eu também passei por isso e embora a gente pense que nunca vá acabar, tudo dá certo no final", salienta.

"Eu tenho uma história para contar"

A jornalista Luana Ferrari, 36 anos, autora do blog Luana's Food Therapy também publica as receitas que cria em sua conta no Instagram. Embora jamais tenha enfrentado qualquer distúrbio alimentar, admite: "eu tenho uma história para contar com a qual as pessoas conseguem se relacionar". 

Brasileira radicada em Paris, Luana já chegou a pesar mais de 100 quilos, mas precisou emagrecer devido a uma displasia congênita de quadril. Após um trabalho de reeducação alimentar realizado junto a uma nutricionista, eliminou 40 quilos.

"Eu sempre gostei de cozinhar e, desde que mudei minha alimentação, minha relação com a comida também mudou. Eu tinha uma alimentação paupérrima e hoje tenho uma alimentação diversificada, adoro descobrir receitas. Foi assim que nasceu o Luana's Food Therapy", relembra.

Para ela, a melhor parte do que chama de "terapia alimentar" que oferece em seu blog é entrar em contato com as pessoas e conhecê-las. "A maioria das meninas com quem converso sofre de compulsão alimentar e está buscando melhorar a vida delas. Por conta da minha história e da minha trajetória, acredito que tenho algo a agregar. O que eu mais quero é poder criar uma ponte entre as pessoas", conta.

O bem-estar alimentar

Para Pascale Ezan, vice-presidente de Ciências da Gestão da Universidade do Havre, o principal objetivo das contas de "healthy food/healthy life" no Instagram é compartilhar a ideia de "bem-estar", depois que seus autores venceram episódios difíceis em relação à alimentação. Com outras duas pesquisadoras, Lamia Sadoun e Valérie Hemar-Nicolas, a especialista estuda o movimento que ganha cada vez mais adeptos na França.

"Percebemos que os autores dos posts querem mostrar que há o prazer de comer, que a refeição é um momento de compartilhamento e, para exibir tudo isso, há o lado estético que é muito importante no Instagram. Existe todo um trabalho elaborado na forma de apresentar os pratos que caracteriza esse movimento", analisa.

Outra característica, segundo Ezan, é a apropriação das mensagens de saúde pública nesses perfis. "O que constatamos é que há um papel extremamente importante dos influencers que passam a ser redes de informação. Ou seja, as dicas veiculadas pelos instagrammers se tornam mais legítimas do que as campanhas institucionais do Estado", observa.

O nutricionista Nicolas Sahuc, da Fundação Francesa Anorexia Bulimia (FFAB), acredita que o movimento tem pontos positivos e negativos. O especialista em distúrbios alimentares teme que os influencers possam substituir o acompanhamento médico, essencial para quem sofre com esses transtornos.

"Como os distúrbios de comportamento alimentar são patologias que dizem respeito a dimensões somáticas e psiquiátricas, não é apenas modificando a alimentação com base em conselhos das redes sociais que a pessoa será curada", diz.

Por outro lado, Sahuc acredita que o movimento pode ser benéfico, por exemplo, mostrando que a saúde está se tornando mais "instagramável" do que os ideais de beleza inalcançáveis. "É ótimo que exista essa espécie de contraponto, onde pessoas estão passando a valorizar mais o valor nutritivo das refeições do que as fake diets", avalia.

Já Ezan teme que o movimento incentive um novo distúrbio alimentar que vem se tornando cada vez mais comum entre os adeptos do "healthy food", a ortorexia nervosa. "Há uma linha muito tênue entre o equilíbrio alimentar e o controle obsessivo em busca de uma vida saudável", conclui.

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