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Saúde

Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Um vírus mais perigoso que o zika para mulheres grávidas

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Vírus transmitido por mosquito que causa a febre do Vale do Rift pode prejudicar severamente o feto Imagem: iStock

Emily Baumgaertner

Do New York Times

09/01/2019 10h45

O vírus transmitido por mosquito que causa a febre do Vale do Rift pode prejudicar severamente o feto humano se contraído pela mãe durante a gravidez, de acordo com uma nova pesquisa.

Em um estudo publicado no mês passado no periódico Science Advances, os pesquisadores usaram ratos infectados e tecido fetal humano para descobrir como o vírus atinge a placenta. Os resultados mostraram que ele pode ser ainda mais prejudicial para os fetos que o zika, que causou uma crise global em 2015 e deixou milhares de bebês na América Central e do Sul com graves defeitos congênitos.

"O zika pegou todo mundo de surpresa", disse Amy Hartman, especialista em doenças infecciosas na Universidade de Pittsburgh, que liderou a pesquisa. "Se os médicos soubessem dos efeitos do zika, poderiam ter feito muito mais para proteger as mulheres grávidas e os bebês. Com a febre do Vale do Rift, estamos tentando nos adiantar."

Essa febre ocorre principalmente em animais de criação na África Subsaariana, onde surtos causaram abortos e bezerros natimortos entre 90 e 100 por cento das vacas grávidas em um rebanho, muitas vezes uma perda econômica significativa.

Mas centenas de casos também ocorrem em humanos anualmente, com sintomas parecidos com os da gripe, além de problemas hepáticos graves. O vírus já se espalhou para além da África: no final de 2000, um surto na Arábia Saudita infectou mais de 100 mil pessoas e causou pelo menos 700 mortes, de acordo com Hartman. O mosquito que transmite a doença também é encontrado na Europa e nas Américas.

"As mudanças climáticas podem alterar a forma como as novas doenças infecciosas vão se espalhar. À medida que as populações de mosquitos se movem e mudam, temos um potencial para que elas se alastrem muito além de seus limites normais", disse Hartman.

Não há vacinas ou tratamentos para a febre do Vale do Rift. A Organização Mundial de Saúde considera a doença uma potencial emergência de saúde pública.

Dois casos de fetos infectados foram documentados. Um bebê nasceu com fígado e baço aumentados, entre outros sintomas; outro morreu após uma semana. A doença pode ser assintomática nas mulheres grávidas, por isso muitos outros casos de anomalias e de natimortos podem ter sido identificados incorretamente.

Entre os ratos utilizados no estudo, 65 por cento dos filhotes nascidos de mães infectadas morreram, em comparação com 25 por cento dos filhotes nascidos dos animais não infectados que serviram de controle. Cada uma das mães infectadas perdeu ao menos um filhote, e toda a cria de mães infectadas contraiu o vírus.

As ratas grávidas também tinham maior probabilidade de morte pela febre do Vale do Rift do que as não grávidas.

E o que mais surpreendeu os pesquisadores foi que a placenta das mães infectadas abrigava mais vírus do que qualquer outro tecido no corpo - mais até do que o fígado, onde os danos são tipicamente observados.

"Ninguém percebeu isso antes", disse Cynthia McMillen, pesquisadora de pós-doutorado no laboratório de Hartman, e uma das principais autoras do estudo.

O teste do tecido da placenta humana revelou que, ao contrário do vírus zika, o da febre do Vale do Rift tem a habilidade única de infectar uma camada especializada de células que suportam a região da placenta para onde vêm os nutrientes.

O zika precisa tomar "atalhos" na placenta para infectar um feto, enquanto o da febre do Vale do Rift pode pegar a "via expressa", disse Hartman.

"O feto está protegido de centenas de milhares de perigos que poderiam afetá-lo. Apenas alguns micróbios podem passar, e esse é um deles", acrescentou ela.

Na semana passada, a Coalizão para Inovações no Preparo contra Epidemias solicitou propostas para desenvolver vacinas humanas contra a febre do Vale do Rift. Cerca de US$ 48 milhões vão financiar até oito projetos sobre o vírus dessa febre e o chikungunya, de acordo com um anúncio.

"Precisamos de mais pesquisas em epidemiologia - como o vírus causa a doença e como preveni-la. O problema pode se espalhar para além de onde é encontrado no Oriente Médio, por isso é extremamente necessário estarmos preparados", disse McMillen.