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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Será que é realmente possível herdar traumas de nossos antepassados?

EllenaZ/Istock
Imagem: EllenaZ/Istock

Benedict Carey

New York Times

15/12/2018 09h56

Em meados de outubro, pesquisadores da Califórnia publicaram um estudo sobre prisioneiros de guerras civis que chegou a uma conclusão impressionante. Segundo a análise, filhos homens de prisioneiros de guerra teriam dez por cento mais chances de morrer do que seus pares em qualquer ano a partir do momento em que atingissem a meia-idade.

Os autores concluíram que as descobertas sustentam uma "explicação epigenética". O argumento defende que traumas podem deixar uma marca química nos genes da pessoa, que então seria passada às futuras gerações. A marca em si não danifica o gene diretamente; não há mutação. O que há é alteração no mecanismo de expressão genética, responsável pela produção de proteínas funcionais. A alteração não é genética, é epigenética.

A epigenética ganhou força há aproximadamente uma década, quando cientistas descobriram que crianças expostas, ainda no útero, ao Inverno da Fome na Holanda, período em que o país passou por uma acentuada crise de fome próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial, apresentavam uma marca química particular, ou assinatura epigenética, em um dos genes. Posteriormente, estudiosos relacionaram esse achado aos diferentes estados de saúde dessas crianças no decorrer da vida, incluindo massa corporal acima da média.

O entusiasmo desde então só cresce, gerando mais estudos – sobre descendentes de sobreviventes do Holocausto, sobre vítimas da pobreza – que sugerem a hereditariedade do trauma. Se essas pesquisas forem comprovadas, poderão sugerir que herdamos alguns traços das experiências de nossos pais e até mesmo dos avós, especialmente o sofrimento deles, que, por sua vez, alteram nossa saúde do dia a dia e, quem sabe, a de nossos filhos também.

Nos bastidores, contudo, o trabalho tem provocado uma disputa acirrada entre pesquisadores que poderia enterrar as descobertas prematuramente. Segundo críticos, o embasamento biológico que esses estudos implicam simplesmente não seria possível. Por outro lado, pesquisadores epigenéticos rebatem, dizendo que a evidência que possuem é sólida, mesmo não podendo ser corroborada pela biologia.

"De fato, são alegações extraordinárias que estão avançando com base em evidências comuns. Esta é a doença da ciência moderna: quanto mais incrível, sensacional e, aparentemente, revolucionária a hipótese, menor será o padrão de qualidade que comprove sua evidência, quando, na verdade, deveria ser o contrário", argumentou Kevin Mitchell, professor associado de genética e neurologia do Trinity College, em Dublin. 

Investigadores da área dizem que a crítica é prematura: a ciência ainda é jovem e está progredindo aos poucos. Testes feitos com ratos, especialmente, têm sido oferecidos como evidência desse tipo de transmissão de trauma e servem como modelo para estudar seus mecanismos. "Os resultados encontrados foram tímidos, porém consistentes e significativos. É assim que a ciência funciona. No começo, é imperfeita, mas se fortalece à medida que se aprofunda nas pesquisas", defendeu Moshe Szyf, professor de farmacologia da Universidade McGill.

No centro do debate estão genética e biologia. Uma coisa são os efeitos diretos: quando uma mulher grávida consome muito álcool, pode causar a síndrome do alcoolismo fetal. Isso porque qualquer estresse no corpo da mulher grávida é passado ao feto de alguma maneira; nesse caso, interferindo diretamente com o desenvolvimento uterino normal. Mas ninguém consegue explicar exatamente como, por exemplo, mudanças nas células cerebrais causadas por um abuso poderiam ser transmitidas aos espermatozoides ou óvulos já maduros antes da concepção.

E esse é apenas o primeiro desafio. Após a concepção, quando esperma e óvulo se encontram, começa um processo natural de limpeza, como se reiniciasse o sistema eliminando a maioria das marcas químicas presentes nos genes. Por fim, quando os óvulos crescem e se desenvolvem, tem início uma reestruturação genética à medida que as células vão encontrando suas especialidades: do cérebro, da pele, e assim por diante. Como uma assinatura epigenética de trauma pode sobreviver a isso?

Uma das teorias em voga está baseada em pesquisas com animais. Em uma série de estudos recentes, cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Maryland, liderados por Tracy Bale, criaram ratos em ambientes problemáticos. Com frequência, inclinavam as gaiolas ou deixavam as luzes acesas à noite. Esse tipo de criação, que se assemelharia a uma infância traumática, muda o comportamento subsequente dos genes desses ratos, alterando a forma como eles lidam com a descarga de hormônios do estresse.

Essa alteração também está fortemente associada a uma variação de como as crias dos animais lidam com o estresse: mais especificamente, os jovens ratos são apáticos, ou têm menos capacidade de reação aos hormônios quando comparados ao grupo de controle dos animais, de acordo com Bale, diretora do Centro de Pesquisa Epigenética em Saúde Infantil e Desenvolvimento Cerebral da universidade. "As descobertas são claras e consistentes. Essa área de estudo avançou drasticamente nos últimos cinco anos."

Talvez a melhor explicação de como essas marcas de traumas poderiam se fixar nos espermatozoides do pai tenha sido dada por Oliver Rando, da Universidade de Massachusetts. Os estudos que realiza, também em ratos, se concentram no epidídimo, tubo localizado próximo aos testículos, onde os espermatozoides se acumulam antes da ejaculação. Ali, ficam alguns dias aprendendo a nadar e é quando os genes podem ser marcados. As moléculas que afetam as mudanças se parecem com "pequenos ARNs", fragmentos de material genético sobre os quais os cientistas ainda estão aprendendo, afirmou Rando.

"Esse tubo produz pequenos ARNs e os envia ao espermatozoide durante o desenvolvimento, insinuando a existência de um lugar que percebe as condições ambientais do pai e pode alterar o pacote de ARN que passa do espermatozoide ao bebê", detalhou Rando, mas sem oferecer mais explicações além dessa.

Outros pesquisadores tentaram completar o quebra-cabeça. Uma hipótese sugere que, após a chegada do pacote de RNA ao epidídimo, ele produziria uma sucessão de mudanças na concepção que escaparia do processo de limpeza, ou de “reiniciar o sistema”, e da subsequente reestruturação durante o desenvolvimento inicial.

Os críticos ainda não foram persuadidos. "Está sendo feito um ótimo trabalho, e sim, acontecem alterações nas células dos testículos, mas, como sempre, a história que normalmente se conta é exagerada quando se consideram os resultados, além de muitas afirmações puramente causais", ponderou John M. Greally, professor de genética, medicina e pediatria da Faculdade de Medicina Albert Einstein.

E essa é apenas a discussão acerca da pesquisa com animais. A grande maioria dos especialistas concorda que os estudos em humanos são muito menos convincentes, além de não ter identificado nenhum mecanismo plausível que confirme a transmissão epigenética. Alguns estudos, em vez de se debruçarem sobre os pequenos ARNs, estão focando em uma assinatura química totalmente diferente, a chamada citosina metilada, que poderia muito bem ser introduzida após a concepção, nunca antes, comentou Rando.

A ideia de que carregamos algum resquício biológico da dor de nossos ancestrais tem um apelo muito forte e nos afeta emocionalmente, como quando vemos imagens de pessoas passando fome, em situação de guerra ou escravidão. Além de sustentar narrativas psicodinâmicas sobre o trauma e como seu legado pode reverberar através de gerações. Contudo, por ora, e de acordo com diversos cientistas, a pesquisa em epigenética não consegue comprovar, de nenhuma maneira previsível ou consistente, que as crueldades humanas do passado possam afetar a condição fisiológica do presente.

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