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Chico Lang diz que morte do filho dói demais; como um pai supera o luto?

UOL
Filho de Chico Lang morreu no último domingo (9) em São Paulo Imagem: UOL

Maria Júlia Marques

Do UOL VivaBem, em São Paulo

11/12/2018 20h28

Nesta segunda-feira (10), o jornalista Chico Lang publicou em sua rede social um emocionado comunicado informando a morte de seu filho. Paulo Lang era publicitário, tinha 23 anos e faleceu após cair de um apartamento no Bairro Vila Pompeia, em São Paulo.

"Meus amigos. Paulinho morreu. A ordem natural das coisas se inverteu. Um pai enterrar um filho é antinatural e dói demais no corpo e na alma. Gostaria sinceramente que fosse ao contrário. Deu um fim à própria vida com 23 anos. Dia 16 próximo faria 24. O dia mais feliz da minha existência foi quando ele nasceu, 16 de dezembro de 1994. O mais triste, quando faleceu, 9 de dezembro de 2018", escreveu Chico Lang.

O UOL Esporte teve acesso à parte do Boletim de Ocorrência, no qual confirma "suicídio consumado" após a queda do sexto andar, mas não entra em detalhes sobre o que levou Paulo a óbito.

Como lidar com a dor da morte de um filho?

Nós ouvimos muito que perder um filho é uma das maiores dores do mundo, por não ser natural, como Lang citou. Como lidar com algo tão difícil? A resposta, infelizmente, não é simples. 

"Perdas são muito complexas, não conseguimos medir qual é a pior, mas com certeza a morte de um filho é um sofrimento desafiador. O filho é uma continuidade da gente, parte de quem somos, nosso futuro. Entender que ele se foi antes coloca em cheque diversos planos e gera muita frustração", diz Gabriela Casellato, psicóloga especialista em perdas e luto do 4 Estaçöes Instituto de Psicologia. 

Para conseguir enfrentar o luto não existe fórmula ou fases preestabelecidas. Tudo depende de como a morte se deu, da relação e história entre as pessoas envolvidas, da estabilidade emocional, de como o indivíduo encara a vida, quais são suas crenças. 

Só quem está de luto sabe dizer o que a perda representa para si e é preciso respeitar esse sentimento, entender seu ritmo e limites para enfrentar a adaptação a essa morte. Lentamente, a pessoa se organiza diante tal sofrimento.

"Aconselho a busca de um psicólogo. O luto desperta uma mistura enorme de sentimentos, muita culpa, inconformidade, questionamentos... Sem o apoio certo pode potencializar a dor e até desencadear depressão. Com um profissional acompanhando, ajudando a ressignificar eventos, compreender o que houve, criando um suporte, fica mais fácil de passar pelo acontecimento traumático", explica Yuri Busin, psicólogo e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental e Equilíbrio. 

O importante é não entrar em negação e viver o luto: a pessoa pode chorar, sentir, procurar ajuda e se respeitar, de preferência cercado de pessoas importantes afetivamente. "No primeiro momento é difícil viver, você fica preso no sofrimento. Mas o tempo passa, a pessoa se sente mais encorajada a seguir e cria melhores condições para suportar a dor", afirma Casellato. 

Existem pessoas que gostam de falar sobre a morte, reviver, ver fotos do ente querido para se sentir melhor, enquanto também há quem se sinta violado com esses atos. O segredo é analisar o que ajuda e o que atrapalha para compreender qual seu melhor artifício nessa batalha. 

Com o passar do tempo, a ideia é que o enlutado deixe de "ser" a dor e consiga apenas "ter" a dor. "O luto é algo complexo, os sintomas podem ser intensos e durar por tempo indeterminado. Porém, se em um ano a pessoa segue isolada e não fica ativa, apesar das readequações, é um alerta para certificar se não há depressão", comenta Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar. 

E tudo bem se a melhora não for gradual. Especialistas afirmam que os sentimentos no luto oscilam sem aviso entre perda, saudade, tristeza, motivação, resiliência, eles só não podem durar longos períodos e limitar a rotina, impedindo trabalho, dificultando relações com outras pessoas, causando isolamento.

Casos de suicídio são ainda mais difíceis?

Não existem dúvidas de que o suicídio agrava o luto. "Esse fato desperta perguntas cruéis como: por que, onde foi que eu errei, o que eu não vi, o que ele estava sentindo, o que podia ter feito? São questionamentos difíceis de lidar", diz Vasconcellos.

"Quem está de luto após um suicídio precisa ter espaço para fazer perguntas, mesmo que elas não tenham respostas, ajuda a organizar a bagunça emocional. É preciso dar tempo ao processo e encontrar a sua própria narrativa, uma história para acreditar, dar sentido, acalmar", sugere Casellato.

O suicídio é um fio sem ponta, não há compreensão, não há explicação, fica uma angústia da ausência de respostas. É o maior teste de resiliência, passar por tamanho desafio e conseguir sair mais maduro do que antes, conseguir crescer e tirar aprendizados de um evento tão dolorido. 

Além disso, o suicídio gera um sentimento de impotência e culpa. A recuperação de uma perda assim exige um olhar cauteloso para conseguir achar um sentido e absorver a tragédia. Nestes casos, é altamente recomendado um acompanhamento médico para ajudar a lidar com a perda.

"E acho imprescindível que os pais enlutados entendam que o vínculo com o filho não se desfaz. Não existe ex-pai! A relação com o filho se encerra com o fim da vida, mas se transforma em um vínculo internalizado. Ninguém tem que esquecer o filho, isso é impossível e muito violento, é preciso aprender a enxergar e administrar o novo vínculo, um processo individual, cognitivo, físico e psicológico", conclui Casellato.

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