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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Equilíbrio

Quando iremos resolver as doenças mentais?

Carlo107/Istock
Imagem: Carlo107/Istock

Benedict Carey

Do New York Times

2018-11-22T15:04:54

22/11/2018 15h04

Nada humilha grandes pensadores da história mais rapidamente do que a leitura de suas declarações sobre as causas da loucura. Ao longo dos séculos, a doença mental foi atribuída a tudo, desde uma "maldade de espírito" (Aristóteles) e um "desequilíbrio humoral" (Galeno), até a fixação autoerótica (Freud) e a fraqueza do estado hierárquico do ego (Jung).

Nas últimas décadas, esperava-se que a chegada da psiquiatria biológica iria esclarecer a questão, com o detalhamento de como as anomalias do cérebro davam origem a várias aflições mentais. Mas esse objetivo não foi alcançado – e provavelmente não o será tão cedo.

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Mesmo assim, os esforços prometem inspirar uma mudança na cultura da ciência comportamental nas próximas décadas. O processo exigirá uma colaboração mais estreita entre os cientistas e os indivíduos que eles estão tentando entender, um trabalho mútuo baseado em uma análise comum da posição atual da ciência, e por que esta não progrediu mais.

"Tem de haver muito mais troca entre os pesquisadores e as pessoas que sofrem com essas desordens", disse o dr. Steven Hyman, diretor do Centro Stanley de Pesquisa Psiquiátrica no Instituto Broad do MIT e de Harvard. "A pesquisa não pode ser realizada sem elas, e elas precisam se convencer de que é algo promissor."

O curso da Science Times coincide quase exatamente com o detalhamento e a reconstrução da psiquiatria. Ao longo dos últimos 40 anos, o campo se refez de dentro para fora, alterando radicalmente o modo como os pesquisadores e o público falavam sobre as causas do sofrimento mental persistente.

O projeto foi a revisão de 1980 do guia de campo da psiquiatria, o "Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais", que efetivamente excluiu explicações psicológicas.

Já não há mais a rica linguagem freudiana sobre conflitos ocultos, juntamente com as teorias vazias sobre "maternagem" incorreta ou insuficiente. A depressão se tornou um conjunto de sintomas e comportamentos, o mesmo ocorrendo com o transtorno obsessivo-compulsivo, o transtorno bipolar, a esquizofrenia, o autismo e o resto.

Para muitos terapeutas, esse edifício modernizado pareceu uma mansão feia, crua e grandiosa. Mas não havia como negar que o encanamento funcionava, a iluminação era melhor, e os ocupantes tinham uma linguagem clara e uníssona.

Os pesquisadores agora tinham rótulos mais organizados com os quais trabalhar; ferramentas mais sofisticadas, incluindo a ressonância magnética, modelos animais e análise genética para orientar suas investigações do cérebro; e uma compreensão melhor de por que as drogas e as diferentes psicoterapias disponíveis aliviavam os sintomas de muitos pacientes.

Jornalistas científicos – e seus leitores – também tiveram facilidade para compreender o novo vocabulário. Com o tempo, os problemas mentais se tornaram transtornos mentais, depois distúrbios cerebrais, talvez causados por algum defeito interno, por um "desequilíbrio químico" ou pelos genes.

Mas a ciência real não apoiou essas interpretações. Apesar de bilhões de dólares em financiamento de pesquisa e milhares de artigos de revistas, a psiquiatria biológica oferece pouco valor prático a médicos e pacientes, quanto mais uma causa ou uma cura.

No entanto, essa falha fornece duas valiosas orientações para os próximos 40 anos de pesquisa.

Uma delas é que o sistema de diagnóstico padrão da psiquiatria atual – a clara estrutura com todas as suas etiquetas – não mapeia bem a biologia compartilhada. A depressão não é uma doença, mas muitas, mostrando rostos diferentes em pessoas diferentes. O mesmo ocorre com a ansiedade persistente, o estresse pós-traumático e os distúrbios de personalidade.

Como resultado, o melhor lugar para que os cientistas biológicos encontrem suporte é com os indivíduos que têm problemas hereditários e estreitamente definidos. Essa área de pesquisa chegou a muitos becos sem saída, mas há pistas promissoras.

Em 2016, pesquisadores do Instituto Broad encontraram fortes evidências de que o desenvolvimento da esquizofrenia estava vinculado a genes que regulam a poda sináptica, um processo natural de reorganização cerebral que aumenta durante a adolescência e o início da idade adulta.

"Estamos agora acompanhando de perto essa descoberta. Devemos isso àqueles que sofrem com esse diagnóstico", disse Hyman.

Os cientistas também preveem um avanço na compreensão da genética do autismo. O dr. Matthew State, chefe de Psiquiatria da Universidade da Califórnia, San Francisco, disse que, em um subconjunto de pessoas no espectro do autismo, "os 10 genes associados têm efeitos enormes, portanto um ensaio clínico usando terapias genéticas é plausível".

A segunda orientação diz respeito ao impacto da biologia.

Embora existam várias exceções importantes, diferenças mensuráveis na biologia cerebral parecem contribuir com apenas uma fração do risco para o desenvolvimento de problemas mentais persistentes. A herança genética certamente tem sua importância, mas não chega a ser uma "causa" por si só na maioria das pessoas que recebem um diagnóstico.

O restante do risco vem com as experiências: a combinação confusa de trauma, uso de substâncias, perdas e crises de identidade que compõem a história íntima e pessoal de um indivíduo. A biologia não tem nada a dizer sobre esses fatores, mas as pessoas têm. Milhões de indivíduos que desenvolvem uma doença mental incapacitante se recuperam por completo ou aprendem a gerenciar sua angústia de forma que possam ter uma vida plena. Juntos, eles constituem um reservatório profundo de dados científicos que até recentemente não era aproveitado.

Gail Hornstein, professora de Psicologia no Mount Holyoke College, conduz agora um estudo de pessoas que participam de reuniões da Hearing Voices Network, um grupo no estilo dos alcoólicos anônimos onde as pessoas podem falar sobre seus problemas de saúde mental.

Muitos participantes são veteranos do sistema psiquiátrico, pessoas que receberam múltiplos diagnósticos e decidiram deixar de lado os cuidados médicos. O estudo vai analisar suas experiências, suas técnicas pessoais para administrar o sofrimento e as características distintas dos grupos do Hearing Voices que garantem sua efetividade.

"Quando as pessoas têm a oportunidade de se engajar em conversas contínuas e profundas com outras que têm experiências semelhantes, suas vidas se transformam", disse Hornstein, que segue o grupo e seu crescimento nos Estados Unidos. "Começamos com a própria estrutura de compreensão da pessoa e continuamos a partir daí."

E acrescentou: "Subestimamos o poder das interações sociais. Vemos pessoas que estão no sistema há anos, que tomam todo tipo de medicamento. Como é possível que elas tenham se recuperado mediante o processo de conversas com outros? Como isso aconteceu? Essa é a pergunta a que precisamos responder."

Para ir além da ineficácia dos últimos 40 anos, os cientistas precisarão trabalhar não só de baixo para cima, com a genética, mas também de cima para baixo, guiados por indivíduos que lutam contra a doença mental e que conseguem escapar dela.

Seu conhecimento está repleto da dor de terem sido mal compreendidos e, muitas vezes, maltratados. Mas é também o tipo de experiência de que os pesquisadores precisarão, se quiserem construir uma ciência que descreva, mesmo que remotamente, a plenitude do sofrimento mental humano.

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