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Americana tem coluna incrivelmente torta e não quer operar. Há perigo?

Reprodução/ Instagram
Mesmo com médicos apontando riscos para seu coração e pulmão, blogueira fitness com escoliose decidiu não operar a coluna Imagem: Reprodução/ Instagram

Maria Júlia Marques

Do UOL VivaBem, em São Paulo

12/11/2018 20h23

Uma blogueira fitness americana causou alvoroço nas redes sociais ao contar que não tem vontade de operar a coluna, mesmo com recomendação médica e sabendo que seu problema pode prejudicar o funcionamento de alguns órgãos. Hayley Wakefield tem 25 anos, 85 mil seguidores no Instragram e uma curva de cerca de 78 graus na espinha, o que configura um alto grau de escoliose. 

"Fui diagnosticada aos nove anos com a condição. Não sentia dor, mas meus pais notaram que estava minhas costas estavam um pouco desiguais. Na época eles ficaram preocupados, e por isso visitamos muitos médicos para saber opiniões diferentes, dos tradicionais a quiropratas e holísticos", contou em seu canal no Youtube.

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Wakefield explicou que fazer a cirurgia era a indicação mais comum. Porém, a família decidiu apostar em outros tratamentos. ?É um assunto delicado, as pessoas sempre têm opiniões muito fortes sobre isso. Quero dizer que entendo quem opera e apoio, espero que seja bom. Minha decisão foi não fazer?, comentou.

Ela disse ainda que por hora não pensa em cirurgia, mas que não exclui a possibilidade dependendo do avanço da escoliose. "Não quero ter metais nas minhas costas, ficar dura ou com pouco alongamento por causa da cirurgia. Trabalho levantando peso, não quero correr riscos de não treinar mais. Não tenho dor, mesmo com as minhas costas não sendo tão bonitas, estou bem assim".

Uma das falas mais comuns para justificar sua escolha é a que ela nunca viu casos de pessoas que morreram de escoliose. "Ninguém nunca morreu, se você se cuida, toma cuidado, faz exercícios, não está se colocando em risco", pontuou.

Como tratamento, a blogueira vai ao quiroprata desde a infância, além de investir em treinos e alongamentos específicos. ?Tentei usar coletes para aliviar a curvatura, mas não me adaptei. Hoje fortaleço o core para sustentar a espinha e as costas, coisa que até quem não tem escoliose deve fazer para não ter dor na região dorsal."

Mas calma, o que é a escoliose?

A definição de escoliose é uma curvatura anormal da coluna vertebral no plano coronal, ou seja, quando você vê a pessoa de frente. Para ser fácil de compreender, é quando a espinha fica na forma parecida com a letra ?S?. O paciente pode ter uma curva ou múltiplas, e as vertebras podem rotacionar.

A escoliose pode acontecer como respostas a outras doenças, como um tumor, mas o mais comum é ser um fenômeno individual. Neste caso, ainda não se sabe exatamente por que a coluna se entorta, mas acredita-se que há grande fator genético.

"A prevalência na população geral é de 3%, mas entre pessoas que têm parentes de primeiro grau com escoliose esse número salta para 20%", explica Márcio Schiefer, ortopedista e professor adjunto da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). 

Os pacientes costumam chegar ao consultório médico por causa da aparência, poucas vezes a dor é registrada. Porém, como o corpo altera o posicionamento para compensar a postura, é possível ter dor nas costas ou nos músculos sobrecarregados.

A escoliose costuma ser diagnosticada na infância e na adolescência, dos três aos 18 anos, período em que o paciente está crescendo e completando a formação óssea. Se ela aparecer em adultos ou idosos, há causas adjacentes.

O grau da doença e o tratamento são diagnosticados de acordo com o ângulo da coluna.

- Até 20 graus: caso leve Nada precisa ser feito, basta observar se há desenvolvimento

- De 20 a 40 graus: alerta A curva se torna preocupante e, se o paciente ainda for crescer, é recomendado o uso de colete para impedir o aumento da deformidade, não para correção da postura. Já são aconselhados exercícios para fortalecer os músculos das costas que dão suporte à coluna, alongamentos e fisioterapia.

- Acima de 40 graus: grave Cada caso é um caso, mas o diagnóstico é grave e há indicação de cirurgia. ?A deformação na espinha é preocupante, não pela curva em si, e sim porque causa alterações mais sérias no corpo, podendo comprimir o pulmão e o coração, por exemplo?, afirma Luiz Cláudio Lacerda, ortopedista especialista em coluna e professor da Faculdade de Medicina do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo.

E tudo bem não operar?

A recomendação em casos graves é passar por cirurgia por dois motivos: acima de 40 graus é alto o nível de progressão constante da curva --independentemente do paciente estar em fase de crescimento ou não --, além do fato de que tamanha ondulação pode comprimir o coração e o pulmão, dificultando a respiração e aumentando o risco de problemas cardíacos.

"A blogueira diz que ninguém morre de escoliose. De fato, não, mas pode morrer das complicações cardiopulmonares. A qualidade e expectativa de vida são diminuídas, ela poderia viver mais e melhor após a operação", acredita Schiefer.

Assim, os médicos recomendam a cirurgia mesmo que o paciente continue fazendo outras terapias. "Não é possível prever exatamente como sua coluna se comportará, mas o quanto antes você opera, melhor. Se estiver com o pulmão e coração já afetados, seu organismo estará mais sensível e o risco de complicações aumenta", diz Lacerda.

A operação é longa, pode demorar cerca de 12 horas, e consiste em alinhar o que for possível da coluna, respeitando os nervos e ligamentos. Após diminuir a curva, o cirurgião coloca hastes de metais na espinha, parafusos e consolida uma fusão entre as vértebras para evitar que a espinha dorsal volte a se curvar.

"Alguma mobilidade pode ser perdida, mas seu coração vai funcionar bem e seu pulmão também", completa Schiefer. Quiropraxia, fisioterapia, exercícios e alongamentos continuam sendo indicados para os pacientes perderem o medo de se movimentar, melhorarem a capacidade respiratória e fortalecerem os músculos.

Se o paciente opta por não passar por cirurgia, as recomendações são exames frequentes para acompanhar o funcionamento do coração e pulmão.

Por fim, Wakefield contou em suas publicações que teve uma diminuição no grau da sua escoliose, passando de 90 para 78 graus só com exercícios. "Não é comum que isso ocorra. Porém, ainda não existem estudos científicos completos e de alto nível que provem que sem cirurgia a doença pode ser revertida", comentou Schiefer.

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