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Sintomas e tratamentos da doença

Consumidores de alimentos orgânicos têm 25% menos risco de câncer

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Pessoas que comem alimentos orgânicos tendem a ser mais conscientes com sua saúde Imagem: iStock

Gabriela Ingrid

Do UOL VivaBem, em São Paulo

24/10/2018 10h38

Será que a alimentação orgânica pode ter mesmo relação com menos casos de câncer? Um novo estudo tentou responder essa questão. Publicada no periódico JAMA Internal Medicine na segunda-feira (22), a pesquisa acompanhou cerca de 70.000 adultos por cinco anos e reportou que os consumidores de produtos sem adição de químicos têm 25% menos cânceres do que as pessoas que não comem esses tipos de alimentos.

No entanto, isso não significa que o consumo de orgânicos seja o único responsável pelo benefício. Os pesquisadores perceberam que pessoas que consomem mais orgânicos são mais conscientes sobre a própria saúde, tendo outros hábitos saudáveis. Os cientistas concordam que, mesmo com esses resultados, ainda é mais importante que as pessoas simplesmente comam mais frutas e vegetais, independentemente se o produto é orgânico ou não, se quiserem prevenir o câncer.

Apesar de o estudo ter uma boa quantidade de voluntários, não existem outras pesquisas que confirmem seus resultados. "Embora intuitivamente acreditemos que o alimento orgânico possa prevenir o câncer, outros estudos realizados não mostraram essa associação", diz Andrea Pereira, nutróloga especialista em câncer da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

Os cientistas analisaram também a incidência de alguns tipos de câncer específicos e mostram que aqueles que comiam frutas, verduras, laticínios, carne e outros alimentos orgânicos tiveram uma queda acentuada na incidência de linfomas e uma redução significativa no câncer de mama na pós-menopausa --a maior parte dos participantes era mulher (78%) e, em média, tinham 44 anos. Precisamente, houve 76% menos linfomas, 86% menos linfomas não Hodgkin e 34% menos cânceres de mama que se desenvolvem após a menopausa.

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Para a pesquisa, os participantes forneceram informações detalhadas sobre a frequência com que consumiram 16 tipos diferentes de alimentos orgânicos, incluindo frutas, vegetais, laticínios e produtos de soja, carne, peixe e ovos, assim como grãos e legumes, pão e cereais, farinha, óleos e condimentos, vinho, café e chás, biscoitos e chocolate e açúcar, e até mesmo suplementos dietéticos.

Além disso, os voluntários forneceram informações sobre seu estado geral de saúde, sua ocupação, educação, renda e outros detalhes, como tabagismo. Sem muita surpresa, os pesquisadores concluíram que as pessoas que comem alimentos orgânicos tendem a ser mais conscientes de sua saúde e podem se beneficiar de outros comportamentos saudáveis.

As pessoas que se preocupam com o que colocam no prato também tendem a ter renda mais elevada e mais anos de educação do que aqueles que não comem orgânicos. "Esse resultado só comprova que talvez o 'vilão' do estudo não seja o agrotóxico e sim a obesidade", diz Felipe Ades, oncologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

"Quem come orgânico, segundo o estudo, também tem outros fatores de estilo de vida que já sabemos que tem relação com a redução do câncer: eles praticam atividade física, comem menos carnes processadas e defumadas, são pessoas ricas, estudadas e mais magras. O estudo culpou o orgânico pela redução do câncer, mas não podemos dizer que ele foi o responsável por isso."

De acordo com Ades, 20% dos casos de câncer tem relação com a obesidade. "A população mais obesa geralmente é mais pobre, que come mal. Em vez de apontarmos o dedo para o agrotóxico, temos que apontar para a obesidade, para o hábito alimentar como um todo, talvez a pessoa tenha só que comer melhor para evitar ambas as doenças. E a pessoa que tem dinheiro e conhecimento, use dessas vantagens para comer ainda melhor."

Os autores do estudo afirmam que, em conjunto com a maior preocupação com a saúde, uma razão pela qual uma dieta orgânica pode reduzir o risco de câncer de mama é porque muitos pesticidas são disruptores endócrinos que imitam a função estrogênica, e os hormônios desempenham um papel causal no câncer de mama. Quanto aos linfomas, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer --órgão da OMS (Organização Mundial da Saúde) -- classificou três pesticidas comumente usados na agricultura --glifosato, malation e diazinon -- como prováveis carcinógenos humanos, e ligaram os três ao linfoma não-Hodgkin.

De acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), os três são usados no Brasil, mas o glifosato está sendo reavaliado pelo órgão e essa análise toxocológica deve ser concluída até 2019.

Pereira ressalta, no entanto, que "sabemos que o agrotóxico em grande quantidade aumenta o risco de câncer, mas isso ocorre principalmente entre pessoas que trabalham com essas substâncias em agricultura. Entre os consumidores de produtos com agrotóxicos isso não foi comprovado cientificamente, provavelmente porque as quantidades ingeridas são baixas em relação ao risco", reflete a médica.

"Entra aí mais uma relação com o hábito alimentar saudável em si e não com os agrotóxicos. O câncer de mama, que teve a maior redução no estudo, está justamente relacionado com a obesidade", reflete Ades.

Conclusão não deve ser levada ao pé da letra

Quando pensamos no Brasil, os produtos orgânicos ainda são muito mais caros que os não-orgânicos, embora sua produção seja mais barata. Segundo Pereira, isso ocorre por ser considerado um produto das classes A e B, com um poder aquisitivo mais alto. Isso também ocorre com o peixe, apesar de sermos um país cheio de rios e uma extensa costa marítima. "O preço do peixe é alto por ser considerado um produto das classes A e B."

Sabemos que o consumo de frutas e hortaliças de forma regular previne o risco de câncer, doença que também está associada à obesidade, sedentarismo, cigarro, alto consumo de açúcar e sal, além de carne vermelha e embutidos em grande quantidade. "Todos esses fatores podem ser prevenidos com uma alimentação bem balanceada e prática de atividade física e infelizmente isso independe da classe social", reflete a nutróloga.

"Acredito que o principal é fazermos um trabalho educacional com toda a população, desde a infância, explicando que hábitos saudáveis previnem várias doenças. Uma boa higienização de frutas e hortaliças não é cara, então isso é essencial para quem não pode pagar pelos produtos orgânicos. Há ainda opções de fazermos pequenas hortas em pequenos espaços, daí teremos a nossa própria plantação orgânica."

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