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Longevidade

Práticas e atitudes para uma vida longa e saudável

Nos EUA, estudantes de medicina têm aulas de convivência com idosos

Bess Adler/The New York Times
Em mais de 20 escolas de medicina nos Estados Unidos, os alunos estão tendo aulas sobre a vida e a perspectiva de idosos saudáveis Imagem: Bess Adler/The New York Times

Paula Span

Do New York Times

18/10/2018 09h35

O que quer que o grupo de alunos do segundo ano de Medicina da Weill Cornell, em Nova York, esperava ouvir de uma mulher de 82 anos, provavelmente não foi o que escutaram.

Elizabeth Shepherd, uma das várias pessoas idosas convidadas a se encontrar com futuros médicos em um programa que quer acabar com o preconceito etário, chamado "Introdução ao Paciente Geriátrico", a princípio, basicamente seguiu o roteiro.

Enquanto o aluno Zachary Myslinski, 24 anos, lia as perguntas de uma avaliação padrão, ela respondia de maneira direta.

Estado de saúde? "Degeneração macular, mas estou recebendo tratamento", respondeu a atriz que também ensina Shakespeare no estúdio de atuação Stella Adler.

Quedas recentes? Apenas uma, quando não percebeu o último degrau de uma escada. "No metrô! Em público! Não foi nada divertido."

Perda de peso? "Infelizmente, não."

Shepherd, elegantemente vestida, pôs os braços atrás da cabeça com facilidade, exibindo uma boa amplitude de movimento. Ela se lembrou de três palavras – "abacaxi, azul, honestidade" – quando lhe pediram para mencioná-las alguns minutos mais tarde em um teste cognitivo.

Mas, depois de dizer à plateia extasiada que havia criado um filho nascido "fora do casamento", em 1964, e se divorciado duas vezes, ela acrescentou: "Emigrei para a Lesbialândia por um tempo, quando tinha 50 e poucos anos".

Mas acabou voltando às relações heterossexuais, conheceu um homem de 90 anos de idade on-line e passou "o verão mais maravilhoso com ele". E acrescentou que agora está envolvida com um de 65 anos, mas "ele está no Afeganistão no momento, então a minha vida sexual não é tão ativa quanto eu gostaria".

Ronnie LoFaso, geriatra da faculdade que orienta a sessão, disse: "Isso está tomando um rumo interessante".

E, de fato, a ideia era essa mesmo.

"É importante que não pensem que a vida para quando envelhecemos. Por isso, decidi ser franca com eles", disse Shepherd mais tarde.

Ronald Adelman, chefe da geriatria na Weill Cornell, desenvolveu esse programa anual, que inclui uma peça de teatro e é obrigatório para todos os alunos do segundo ano, depois que percebeu que os estudantes de Medicina tinham uma visão distorcida dos idosos.

"Infelizmente, a maior parte do aprendizado ocorre dentro do hospital. Se você só tem contato com idosos hospitalizados, verá apenas os debilitados, os fisicamente prejudicados, os dementes. É mais fácil se ater aos estereótipos", disse ele.

Esses equívocos podem influenciar no trabalho. Em outra sala de aula, no fim do corredor, Marcia Levine, de 88 anos, terapeuta familiar aposentada, estava contando aos alunos sobre um gastroenterologista que uma vez fez pouco de suas queixas de fadiga, dizendo: "Na sua idade, você não pode esperar ter muita energia".

Então, aos 70 anos, ela trocou de médico e ficou sabendo que tinha uma infecção crônica.

"Pelo menos 20 faculdades de Medicina nos Estados Unidos estão fazendo trabalhos semelhantes, introduzindo os alunos a idosos saudáveis e ativos", disse Amit Shah, geriatra que ajuda a dirigir o Senior Sages, da Escola de Medicina da Clínica Mayo.

Os programas têm muitas formas, como o da Weill Cornell, com duas horas de introdução, até o de um semestre na Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte.

Algumas faculdades, como a Universidade Médica da Carolina do Sul e a Escola de Medicina Icahn no Mont Sinai, associam alunos a pacientes idosos, que serão seguidos ao longo dos quatro anos de formação, com visitas domiciliares, acompanhamento de "mentores", até consultas médicas e visitas, caso estejam hospitalizados.

Embora esse trabalho possa ser voluntário ou obrigatório, enfatizar habilidades clínicas ou incentivar novas perspectivas, ele reflete os problemas causados pelo preconceito em relação aos idosos.

"Na área de saúde, você ouve um monte de expressões infantis: 'querido', 'lindinho', e também que não vale a pena tratar algumas pessoas por causa da idade ", disse Tracey Gendron, gerontologista que iniciou o programa de mentores na Escola de Medicina da Universidade Virginia Commonwealth.

"As interrupções são generalizadas nas consultas médicas", disse Adelman, mas isso tende a acontecer mais com os pacientes idosos.

Adelman gravou e analisou visitas médicas em que um cônjuge ou filho adulto acompanha um paciente, e começa a perguntar e a responder as perguntas. "O idoso, que está cognitivamente bem, é excluído, e é mencionado como 'ele' ou 'ela'. Isso pode minar o relacionamento entre o paciente e o médico", disse Adelman.

De forma mais ampla, a pesquisa muitas vezes continua excluindo as pessoas idosas, forçando seus médicos a fazer suposições sobre remédios e procedimentos, e quanto vão ajudar ou prejudicar.

No entanto, a maioria, excetuando-se os pediatras, passará grande parte da carreira trabalhando com idosos, tornando-se geriatras de fato --para citar uma frase de Donovan Maust, psiquiatra geriátrico na Universidade de Michigan.

Se um estudante de Medicina se especializa em pneumologia, vai descobrir que aproximadamente 35 por cento de seus pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica têm mais de 65 anos, como já relatou o Centro para Controle e Prevenção de Doenças.

Os endocrinologistas que tratam de diabéticos vão perceber que quase 40 por cento deles já chegaram à terceira idade. Na oncologia, mais da metade dos sobreviventes de todos os tipos de câncer tem mais de 65 anos.

Nunca teremos geriatras suficientes para cuidar dessa população idosa crescente, em parte porque é difícil para o médico pagar o empréstimo estudantil e ganhar a vida quando praticamente todos seus pacientes são do Medicare.

No ano passado, havia 7.279 geriatras registrados nos Estados Unidos, com apenas metade deles clinicando em tempo integral. Este número está aumentando modestamente, enquanto a demanda deve aumentar 45 por cento até 2025, de acordo com a Sociedade Americana de Geriatria.

Assim, muitos programas para acabar com o preconceito etário exigem a participação de todos os estudantes de Medicina. "Eles vão ter que cuidar dos idosos", disse Adelman.

Esse trabalho parece estar funcionando. Os administradores mostram que, nos programas mais longos, entre alunos e idosos costumam nascer uma amizade, compartilhando pizzas ou filmes fora do horário das entrevistas exigidas.

Uma avaliação que revê dez programas de mentores, publicada no Journal of the American Geriatrics Society, relatou que "o objetivo de influenciar positivamente as atitudes dos alunos em relação aos idosos foi alcançado com um sucesso retumbante".

Os estudantes que se encontraram com Shepherd reagiram positivamente à sessão de uma hora. "Útil e reveladora", disse Sarita Ballakur, 23 anos, de Andover, Massachusetts.

"Sua franqueza e abertura foram incríveis", disse Jason Harris, 25.

"Fiquei mais interessado em trabalhar com a população mais velha", disse Myslinski.

Por que, então, não há mais dessas iniciativas nas escolas médicas do país? Elas não são particularmente caras, mostrou a avaliação, e os idosos querem participar.

Na verdade, envolvem uma quantidade razoável de tempo administrativo, e exigem a conscientização sobre os desafios específicos dessa fase da vida.

Shepherd também foi franca em relação a isso.

Quando completou 80 anos, disse aos alunos: "Comecei a perceber que as coisas estavam diferentes, soube que havia poucos anos pela frente. Passei a pensar em como queria viver o resto dos meus dias. Surgiu uma nova vulnerabilidade".

Ela gostou do fato de que todos prestaram atenção, como disse depois. "A sessão foi um presente para nós, e para eles também. É um reconhecimento do fato de que somos importantes e interessantes".