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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Câncer de próstata: dificuldade para urinar e dor ao ejacular são sintomas

Camila Rosa/VivaBem
Dificuldade para urinar ou dor ao ir ao banheiro são sintomas de câncer de próstata Imagem: Camila Rosa/VivaBem

Tatiana Pronin

Colaboração para o UOL VivaBem

2018-09-11T04:00:00

11/09/2018 04h00

O câncer de próstata é o segundo tumor maligno que mais atinge os homens. Conheça causas, sintomas e como tratar a doença

Cerca de 68 mil brasileiros por ano recebem o diagnóstico de câncer de próstata, segundo as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Esse é o segundo tumor maligno mais frequente na nossa população masculina, ficando atrás apenas do câncer de pele não melanoma. 

"Um em cada sete homens vai ser diagnosticado com câncer de próstata no decorrer da vida", afirma o urologista Ricardo Favaretto, do A.C.Camargo Cancer Center. Para se ter uma ideia da incidência, estima-se que 80% dos homens com 80 anos que morreram por outras doenças tinham esse tipo de câncer sem saber. 

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Em relação à mortalidade, é o segundo tipo de tumor maligno mais letal para os brasileiros --são 14 mil mortes ao ano, ficando atrás apenas do câncer de pulmão. A maioria dos casos tem desenvolvimento lento, o que, em tese, facilita a detecção precoce. No entanto, muitos homens ainda resistem em realizar os exames preventivos, pois eles envolvem o toque retal. 

O tratamento do câncer de próstata também assusta, porque pode trazer efeitos colaterais que interferem na vida sexual, embora muitos avanços tenham sido conseguidos. Além disso, análises mais sofisticadas dos tumores têm permitido que muitos casos iniciais nem sejam sequer tratados. A tendência ao que os médicos chamam de 'vigilância ativa' só aumenta. "Nos EUA, por exemplo, até 2014 apenas 14% dos casos eram acompanhados. Hoje, a proporção subiu para 41%", informa Franz Campos, chefe da seção de urologia do Inca. 

Para que serve a próstata

A próstata é uma glândula pequena que só os homens têm. Situada abaixo da bexiga, e na frente do reto, é responsável pela produção do líquido seminal. Esse fluido compõe o sêmen, junto com os espermatozoides, produzidos nos testículos, e o conteúdo liberado pela vesícula seminal. A função desse líquido é proteger e nutrir as células reprodutivas masculinas. A próstata não é responsável pela ereção, nem pelo orgasmo.

O tamanho da glândula é parecido com o de uma ameixa, mas, com o envelhecimento, o volume aumenta bastante. Esse crescimento, chamado dehiperplasia prostática benigna, pode gerar sintomas, como dificuldade para urinar, e precisa ser tratado. Mas a condição não tem nada a ver com o câncer.

Tipos de câncer de próstata

Por diversas razões, as células do corpo humano podem sofrer mutação e passar a se multiplicar descontroladamente. Existem diferentes tipos de células na próstata, mas a maioria dos cânceres nascem nas células endócrinas, responsáveis pela produção do líquido seminal. Chamados de adenocarcinomas, esses tumores quase sempre se desenvolvem lentamente. Em certos casos, porém, podem ser mais agressivos e evoluir rapidamente, podendo se espalhar para outros tecidos e órgãos (metástase). Outros tipos de câncer de próstata, como sarcomas e carcinomas de pequenas células, são considerados muito raros

Sintomas mais comuns

O câncer de próstata evolui silenciosamente. Geralmente, quando os pacientes apresentam sintomas, os tumores estão em fase mais avançada. Eles são parecidos com os da hiperplasia benigna ou também de uma prostatite (inflamação causada por bactérias):

  • Dificuldade para urinar (por ex: demora para começar e terminar);
  • Necessidade de urinar mais vezes durante o dia e/ou à noite;
  • Diminuição do jato de urina;
  • Dor ou ardor ao urinar;
  • Presença de sangue na urina ou no sêmen;
  • Dor ao ejacular

Quando a doença atinge a fase avançada e espalha-se para outros órgãos, os sintomas podem incluir dor óssea ou infecção generalizada. 

iStock
A alimentação rica em gordura animal é um dos fatores de risco de câncer de próstata Imagem: iStock

Fatores de risco

- Idade: tanto a incidência quanto a mortalidade aumentam de forma significativa após os 50 anos. No Brasil, nove em cada dez pacientes diagnosticados têm mais de 55 anos

- História familiar: quando um indivíduo tem pai ou irmão que foi diagnosticado antes dos 60 anos, o risco é de três a dez vezes maior que na população geral

- Nacionalidade: a doença é mais frequente em países desenvolvidos, como os da América do Norte e Europa

- Estilo de vida: há evidências de que homens com sobrepeso ou obesidade têm risco maior. Também há alguns indícios de que o excesso de alimentos gordurosos de origem animal, como carne vermelha e laticínios, possam interferir na propensão, o que ainda tem sido estudado. "A população do mundo com menor risco desse tipo de câncer é a japonesa. Quando um indivíduo se muda de lá para um país como o Brasil e passa a ter uma alimentação rica em gordura animal, com excesso de carne vermelha e processada, o risco passa a ser igual ao do brasileiro", comenta Favaretto.

- Genes: o urologista Franz Campos diz que vários estudos têm sido feitos para identificar alterações genéticas hereditárias envolvidas no câncer de próstata, assim como acontece com o de mama. Mas essa causa seria pouco comum --a maior parte seria deflagrada por mutações adquiridas ao longo da vida.

- Tabagismo: o hábito parece elevar o risco de morte por câncer de próstata.

- Outros: existem diversos estudos em andamento para avaliar a influência de outros fatores, como a exposição à combustão tóxica, bem como inflamações e infecções sexualmente transmissíveis (IST), como gonorreia ou clamídia.

Repor testosterona causa câncer?

Os hormônios masculinos estimulam o crescimento dos tumores, por isso existe esse temor. "Não há evidência suficiente para dizer que a reposição de testosterona aumente o risco de câncer de próstata", afirma Favaretto. O médico ainda adverte que, em indivíduos saudáveis, o uso do hormônio exógeno acaba inibindo a produção de testosterona pelo próprio testículo.

E a vasectomia?

Estudos recentes refutaram a relação entre esterilização masculina (cirurgia para bloqueio do canal deferente) e o câncer de próstata. 

Diagnóstico

O câncer da próstata só pode ser identificado com a combinação de dois exames:

- Dosagem de PSA: exame de sangue que avalia a quantidade do antígeno prostático específico (prostate-specific antigen). 

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O exame de toque retal permite ao médico palpar a próstata e perceber se há caroços ou tecidos endurecidos Imagem: iStock
- Toque retal: como a glândula fica em frente ao reto, o exame permite ao médico palpar a próstata e perceber se há nódulos (caroços) ou tecidos endurecidos (possível estágio inicial da doença). O toque é feito com o dedo protegido por luva lubrificada. É rápido e indolor, apesar de alguns homens relatarem incômodo e terem enorme resistência em realizar o exame.

Na maioria dos homens, o nível de PSA costuma permanecer abaixo de 4 ng/numberamel. Se o nível esta entre 4 e 10, há uma chance em quatro de câncer. Alguns pacientes com nível normal de PSA podem ter um tumor maligno, que pode até ser mais agressivo, por isso esse exame não pode ser a única forma de diagnóstico. "Quando só se considera os pacientes com PSA elevado, apenas 30% têm câncer; por isso o toque retal é necessário", avisa o médico do A. C. Camargo.

A dosagem também é importante durante o tratamento, para acompanhar a evolução do paciente ou retorno da doença. Ainda é importante lembrar que infecções ou mesmo a hiperplasia benigna podem levar ao aumento dos níveis de PSA

Ambos os exames não têm 100% de precisão, e a realização de outros exames pode ser necessária. A ressonância magnética, por exemplo, pode ser indicada antes da biópsia, único procedimento capaz de confirmar o câncer. A punção das amostras de tecido da glândula para análise é feita com auxílio da ultrassonografia, e dura cerca de 15 minutos. Pode haver desconforto e presença de sangue na urina ou no sêmen nos dias seguintes ao procedimento, e há risco de infecção, o que é contornado com uso de antibióticos. 

Outros exames de imagem também podem ser solicitados, como tomografia computadorizada, a cintilografia óssea (para checar se os ossos foram atingidos) e a radioimunocintilografia. 

Estadiamento do câncer de próstata

O sistema mais utilizado para classificar o câncer de próstata chama-se Score de Gleason. Quanto maior o valor, mais provável é o crescimento rápido da doença. Os resultados dos exames permitem dividir a doença em quatro estádios principais. Veja a descrição de cada um deles, segundo o A.C.Camargo Cancer Center:

Estádio I: o tumor está confinado à próstata, sem comprometimento dos nódulos linfáticos e outros órgãos. Foi encontrado durante ressecção transuretral. Baixo grau de Gleason. Menos de 5% do tecido da biópsia contém câncer

Estádio II: o tumor ainda está confinado à próstata, sem comprometimento dos nódulos linfáticos e outros órgãos. E há uma das seguintes condições:

  • Tumor encontrado durante ressecção transuretral. Tem grau de Gleason igual ou acima de 5 ou mais de 5% do tecido da biópsia contém câncer. Ou foi percebido por causa de PSA alto, não pode ser sentido por toque retal nem visto por ultrassom transretal e foi diagnosticado por biópsia por agulha;
  • Tumor pode ser sentido por toque retal ou visto por ultrassom transretal.

Estádio III: o tumor se espalhou e pode ter atingido as vesículas seminais, mas não alcançou os gânglios linfáticos ou outros órgãos.

Estádio IV: uma ou mais das seguintes condições estão presentes:

  • O câncer se espalhou para tecidos próximos que não as vesículas seminais, como os músculos;
  • O câncer atingiu os gânglios linfáticos;
  • O câncer se espalhou para partes mais distantes do corpo.

Como é o tratamento do câncer de próstata

O melhor tratamento para cada caso depende do estadiamento da doença, da idade e do estado geral de saúde do paciente. De maneira geral, cirurgia, radioterapia e terapia hormonal costumam ser as opções mais comuns. "Quando o Gleason é de 8, 9 e 10, a doença tem que ser tratada de forma radical; já cânceres menos agressivos, dependendo da idade do paciente, você nem trata", explica o especialista Franz Campos, chefe da seção de urologia do Inca. 

Esses pacientes, em geral assintomáticos, podem ser apenas monitorados periodicamente, sem precisar de tratamento. A chamada vigilância ativa envolve a realização periódica dos exames de PSA e toque retal, além de biópsias conforme indicação médica. Já para homens mais jovens, com boa saúde e tumor que cresce rápido, isso não costuma ser recomendado.

Opção para tumores localizados

Alguns pacientes com câncer em estágio inicial podem recorrer a uma tecnologia presente em algumas instituições brasileiras chamada HIFU --um ultrassom que destrói apenas as partes da próstata atingidas por tumores. É indicada para tumores iniciais de baixa agressividade ou para pacientes que não podem ser submetidos a cirurgia ou radioterapia. A vantagem é que não há cortes, o que acelera a recuperação, e ajuda a preservar os nervos ao redor da glândula, evitando efeitos colaterais como incontinência e impotência.

Cirurgia

A cirurgia mais frequente é a prostatectomia radical, ou seja, a remoção da próstata. "Cerca de 80% dos tumores são multicêntricos, por isso é preciso retirar toda a glândula", diz o especialista do Inca. Mas Campos acredita que no futuro seja possível identificar apenas os tumores mais importantes, o que permitirá procedimentos minimamente invasivos. 

Por mais habilidoso que seja o cirurgião, alguns nervos podem sofrer danos durante a cirurgia, por isso incontinência urinária e disfunção erétil (impotência) são efeitos colaterais possíveis e temidos. A cirurgia robótica costuma ser mais precisa, com recuperação mais rápida e menor risco de efeitos colaterais, mas ainda é feita em poucas instituições, pois exige um nível alto de treinamento e experiência, o que só se consegue em centros com grande volume cirúrgico.

A ressecção transuretral da próstata (retirada apenas de uma parte da glândula) é indicada apenas em caráter paliativo para alívio de sintomas, além de ser realizada em casos de hiperplasia benigna.

Radioterapia

O tratamento com radiação ionizante mata as células cancerosas ou permitem o encolhimento do tumor. Pode ser usada uma fonte externa ou interna (braquiterapia). No primeiro caso, a radioterapia é feita várias vezes por semana e os efeitos colaterais mais comuns são diarreia, micção frequente, ardor ao urinar, sensação de bexiga cheia, sangue na urina ou nas fezes. O risco de incontinência é menor que na cirurgia, e dificuldades de ereção podem surgir depois de um ano ou mais, sendo que metade desses pacientes responde bem aos medicamentos. Já a braquiterapia envolve a aplicações de sementes radiativas na próstata, de forma temporária ou permanente. Nesse caso deve ser evitado contato do paciente com grávidas ou crianças.

Criocirurgia ou crioablação

Permite o congelamento das células cancerosas. É uma opção para casos iniciais, em que o câncer está restrito à próstata, ou para pacientes que não podem fazer cirurgia ou radioterapia. 

Hormonioterapia

Tem com objetivo inibir os hormônios masculinos (androgênicos), que estimulam o crescimento do câncer. Não cura, mas a terapia ajuda a encolher o tumor, por isso pode ser indicada em conjunto com a radioterapia. Também recomendada nos casos de metástase ou quando o câncer retorna. 

A privação dos hormônios masculinos pode ser obtida com a remoção cirúrgica dos testículos (castração cirúrgica). O procedimento causa muita resistência entre os pacientes, por isso é mais comum o uso da terapia com análogo de LHRH (receptor do hormônio liberador do hormônio luteinizante), que consiste em drogas injetáveis que promovem uma castração química. Os efeitos colaterais, em ambos os casos, são perda do desejo sexual, ondas de calor, crescimento das mamas, osteoporose, fraqueza, perda de massa muscular, depressão, aumento do peso e risco de doenças cardiovasculares. Drogas antiandrogênicas (que bloqueiam a capacidade de o corpo usar os hormônios androgênicos) também podem ser indicadas.

Quimioterapia

Até pouco tempo não havia drogas eficazes para os casos de câncer de próstata avançado, mas isso mudou. Hoje temos novas substâncias que funcionam quando a hormonioterapia sozinha não é capaz de conter a doença. Os efeitos colaterais mais comuns são náusea, vômitos, queda de cabelo, anemia e lesões na boca, além de risco maior de infecções

Avanço da doença

Analgésicos, corticosteroides e bisfosfonatos podem aliviar as dores nos ossos, quando o câncer atingiu esse tecido. A radioterapia e drogas com elementos radiativos também podem ser indicados. 

Tem cura? 

O índice de cura, no caso de tumores localizados, pode chegar a 90%.

iStock
De três meses a um ano após a retirada da próstata, é provável que o paciente não consiga ter ereção sem ajuda de medicamentos ou outras terapias Imagem: iStock

Como administrar os efeitos colaterais

Esterilidade: a prostatectomia radical exige o corte do canal que liga os testículos à uretra, impedindo a passagem dos espermatozoides. Por isso, homens jovens que ainda pensem em ter filhos devem considerar o congelamento das células reprodutivas antes da cirurgia. 

Incontinência urinária: o controle sobre o ato de urinar retorna para muitos homens após algumas semanas ou meses depois. Exercícios para reforço da musculatura do assoalho pélvico e medicamentos podem ser úteis, mas se a condição persistir, o procedimento cirúrgico pode ser considerado.

Impotência: num período de três meses a um ano após a retirada da próstata é provável que o paciente não consiga ter ereção sem ajuda de medicamentos ou outras terapias. Mas isso depende da idade e do tipo de tratamento. Se depois de dois anos o indivíduo não voltar a ter uma vida sexual normal, pode-se cogitar o uso de implantes ou outros equipamentos. Quanto mais jovem o paciente, maiores as chances de recuperação.

Como fica a ejaculação?

Após a cirurgia, o paciente não produzirá mais sêmen, e por isso terá o que se chama de "ejaculação seca". O prazer do orgasmo, porém, continua o mesmo.

Como se ajudar

O diagnóstico de câncer de próstata causa um enorme impacto na vida do homem, por isso o suporte psicológico é parte fundamental do tratamento. Solicitar o apoio e a ajuda prática da família é muito importante, e trocar ideias com outros pacientes com o tumor também ajuda. Buscar centros de referência pode interferir bastante nas taxas de sucesso, bem como o trabalho integrado de médicos e outros profissionais de saúde, como nutricionistas e fisioterapeutas. Por último, mudanças no estilo de vida, como a prática de atividade física e o controle do peso, melhoram o prognóstico.

Como ajudar quem tem a doença

O apoio da família é muito importante para o bem-estar dos pacientes, em especial de suas companheiras, que devem estar cientes do impacto que o câncer de próstata pode ter na vida sexual do casal e até mesmo da autoestima do homem. "Temos diagnosticado cada vez mais cedo, não raro aos 55 anos, quando o homem está no auge da vida sexual ou profissional", observa o médico do A.C. Camargo.

Como prevenir o câncer de próstata

Uma dieta saudável, pobre em gorduras de origem animal e rica em frutas, verduras, grãos e cereais integrais pode diminuir o risco de câncer, bem como o de outras doenças crônicas. Diversos estudos já apontaram os benefícios do licopeno, presente, por exemplo, no molho de tomate, na prevenção desse e outros tipos de câncer. Fazer atividade física regular, manter o peso ideal, diminuir ou evitar o álcool e não fumar são outras recomendações importantes para minimizar o risco da doença. 

Detecção precoce

Ir ao urologista regularmente é uma forma de se evitar que um câncer na próstata seja detectado tardiamente. A recomendação é que se façam exames de PSA e toque retal a partir dos 50 anos. Nos indivíduos com parentes próximos que tiveram a doença mais jovens, os exames podem começar um pouco antes. 

"Não se justifica rastrear câncer de próstata, por causa da probabilidade alta de descobrir tumores que não precisariam ser descobertos", diz o médico do Inca. Isso significa que a solicitação dos exames deve partir do urologista em acordo com o paciente, e nunca de forma compulsória. Depois de uma primeira avaliação define-se quando é recomendado repetir os testes. 

Fontes: Franz Campos (urologista/Instituto Nacional de Câncer); Ricardo Favaretto (urologista/A.C.Camargo Center); Oncoguia; American Cancer Society; Iarc

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