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Suicídio na velhice é uma escolha racional? Médicos debatem

Dean Mitchell/Istock
O tema traz à tona um forte debate médico, já que nem todos os suicidas têm depressão ou o raciocínio prejudicado Imagem: Dean Mitchell/Istock

Paula Span

Do New York Times

06/09/2018 09h03

Em uma manhã de março de 1989, Robert Shoots foi encontrado morto em sua garagem em Weir, Kansas, Estados Unidos. Ele conectara um tubo entre o cano de escapamento de seu adorado Chrysler antigo ao banco da frente, onde se sentou com uma garrafa de Wild Turkey. Ele tinha 80 anos.

A filha deseja que ele tivesse mencionado o plano quando se falaram ao telefone na noite anterior, porque ela não pôde dar um adeus satisfatório. Todavia, não teria tentado dissuadi-lo do suicídio.

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Anos antes, ele lhe revelara suas intenções.

"Não foi uma grande surpresa", ela conta acerca da morte. "Eu sabia que ele iria se matar e como o faria." Temendo ser importunada em sua cidade conservadora no norte do estado de Nova York, ela pediu para que seu sobrenome não fosse citado.

Shoots, pintor de casa aposentado, estava feliz no novo casamento e desfrutava de uma vida saudável. Ele ainda ia pescar e jogava golfe, não demonstrando sinais de depressão ou outra doença mental que aflige a maioria das pessoas que se matam.

Contudo, havia explicado por que pretendia dar cabo da vida um dia. "Todas as pessoas que ele conhecia estavam morrendo em hospitais, cheias de tubos, ficando deitadas por semanas, e ele ficava horrorizado com aquilo", conta a filha. Estava determinado a evitar aquele tipo de morte.

Será que o suicídio entre idosos é uma escolha racional? É um assunto que muitos deles discutem entre si – e um cada vez mais encarado pelos médicos. Entretanto, a maioria tem pouco treinamento ou experiência em como reagir, diz a Dra. Meera Balasubramaniam, psiquiatra geriátrica da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York.

"Eu me vi encontrando indivíduos que eram muito velhos, passando bem e que contavam que queriam acabar com a vida em algum instante. Muitos de nossos pacientes estão pensando nisso", diz Balasubramaniam.

Ela não tem posição sobre se o suicídio pode ser racional – a psiquiatra afirma que sua perspectiva está "evoluindo". Contudo, esperando gerar mais discussão médica, ela e um coeditor exploraram o assunto em uma antologia de 2017, "Rational Suicide in the Elderly" (suicídio racional na terceira idade, em tradução livre), e retomou o tema em artigo recente para a publicação "Journal of the American Geriatrics Society".

O Hastings Center, instituto de ética de Garrison, Nova York, dedicou boa parte de seu último relatório a debater a "morte voluntária" para evitar a demência.

Cada parte dessa ideia, incluindo a própria frase "suicídio racional", continua sendo intensamente polêmica. (Vamos deixar de lado a questão relacionada, mas separada da ajuda médica para morrer, atualmente legal em sete estados e no Distrito de Colúmbia, que se aplica somente a pessoas com boas faculdades mentais com probabilidade de morrer de doença terminal em até seis meses.)

O suicídio já se tornou uma preocupação premente de saúde pública para idosos, sendo que mais de 8.200 deles tiraram as vidas em 2016, segundo o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA.

"Idosos em geral e homens idosos, especificamente, têm os índices mais elevados", afirma o Dr. Yeates Conwell, psiquiatra geriátrico da Faculdade de Medicina da Universidade de Rochester e antigo pesquisador de suicídio.

Isso é verdade ainda que pesquisas mostrem os idosos se sentindo mais felizes do que os jovens, com saúde mental melhorada.

Uma complexa teia de problemas contribui para o suicídio na terceira idade, incluindo doença física e declínio funcional, traços de personalidade, estilos de lidar com as coisas e desconexão social.

Porém, a grande maioria dos idosos que se mata também tem uma doença mental diagnosticável, depressão principalmente, destaca Conwell.

O suicídio costuma envolver impulsividade, em vez de consideração cuidadosa. O que não bate com nenhuma definição de ato racional.

"O estado suicida não é fixo. É uma gangorra. Existe o desejo de viver e o desejo de morrer, que vai e vem", afirma Conwell.

Quando os serviços de saúde tratam agressivamente a depressão dos idosos e trabalham para melhorar sua saúde, função e relacionamentos, "a equação pode mudar", ele diz.

Não conseguir agir para impedir o suicídio, afirmam estudiosos da ética e médicos, reflete um pressuposto discriminatório por questões de idade – idosos em si não são imunes a isso – segundo o qual as vidas de pessoas idosas ou deficientes perdem valor.

Uma abordagem tolerante também ignora o fato de que as pessoas muitas vezes mudam de ideia, declarando determinados problemas como insuportáveis no abstrato, mas preferindo viver quando o pior acontece.

Argumentos perigosos também contam no debate. "Nós tememos a possibilidade de mudar de direito de morrer a dever de morrer se tornarmos o suicídio desejável ou justificável", explica Balasubramaniam.

Porém, o tamanho do grupo de pessoas da geração "baby boomer", com o impulso por autonomia que caracterizou seus membros, significa que os médicos esperam que mais pacientes idosos contemplem o controle do tempo e a maneira de suas mortes.

Nem todos têm depressão ou o raciocínio prejudicado.

"Talvez você sinta que sua vida esteja indo ladeira abaixo", diz Dena Davis, bioeticista da Universidade Lehigh que tem escrito sobre o que chama de "suicídio preventivo".

"Você completou as coisas que queria fazer. Vê as satisfações da vida ficarem menores e os fardos, maiores – isso é verdade para muitos à medida que nossos organismos começam a parar de funcionar."

Nesse instante, "talvez seja racional dar um fim à vida", acrescenta Davis. "Infelizmente, no mundo em que vivemos, não temos o controle de como ela deve acabar, é provável que continue de uma forma que seja contrária aos seus desejos."

Davis cuidou da mãe enquanto ela sucumbia lentamente ao mal de Alzheimer. Ela pretende evitar morte semelhante, decisão que discutiu com o filho, amigos e médico.

"Devemos começar a ter conversas que desafiem o tabu" do suicídio, ela afirma.

Contudo, à medida que os argumentos esquentam, enquanto grupos religiosos, defensores de deficientes e do direito de morrer dão suas opiniões, existe concordância pelo menos nesse ponto: reações negativas instintivas quando um idoso menciona o suicídio – "Não diga isso!" – encerram o diálogo.

"Discutir o suicídio não significa defendê-lo", declara Balasubramaniam.

Seus estudos lhe ensinaram que o suicídio é evitável e ela procura intervenções. Todavia, também vê seu papel – que famílias e amigos também podem desempenhar – de ouvir sem julgar, ajudar pacientes a considerar o suicídio para dissecar sua ambivalência enquanto antecipam doenças tratáveis que podem afetar seu raciocínio.

"Falar com alguém que compreende, que se expressa com carinho, que escuta, é em si uma razão para viver", assegura Conwell.

Só que não para todos.

A filha de Shoots também viu a mãe morrer de Alzheimer e compartilha a convicção do pai de que alguns destinos são piores do que a morte.

Ela disse aos quatro filhos que pretende morrer antes de a vida deteriorar a níveis que considera intoleráveis; segundo ela, eles aceitam a decisão.

Por conseguinte, ela evita exames como mamografias e colonoscopia porque não vai tratar as doenças que revelarem. Para comemorar o aniversário de 70 anos, tatuou as iniciais DNR (não ressuscitar, em inglês) no peito, dentro de um círculo decorado.

Por enquanto, ela desfruta a vida quase rural, mas vive se monitorando em busca de sinais de declínio cognitivo ou funcional. "Quando eu começar a cometer deslizes demais, será a hora", argumenta.

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