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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças

Estresse pode causar sudorese, tontura e taquicardia; veja como lidar

Camila Rosa/VivaBem
Imagem: Camila Rosa/VivaBem

Tatiana Pronin

Colaboração para o VivaBem

14/08/2018 04h00

Entenda os prejuízos que o estresse traz para seu corpo e como controlar o problema

Muita gente se refere ao estresse como uma emoção ou doença dos tempos modernos, mas, na realidade, o termo se refere a um mecanismo fisiológico de adaptação, deflagrado diante de situações novas ou ameaçadoras. Na física, o termo tem a ver com o desgaste sofrido pelos materiais diante da pressão exercida sobre eles. Mas o conceito foi emprestado pela medicina para designar o conjunto de respostas físicas e mentais que temos diante de estímulos externos (estressores), que nos tiram do estado de equilíbrio (homeostase).

Desemprego, morte de um parente, pressões no trabalho, prazos apertados, gente grossa, trânsito caótico, sobrecarga de informação, falta de sono ou de comida e até novidades positivas, como o nascimento de um filho, são exemplos de situações ou eventos que são fontes de estresse. 

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Estresse não é doença?

Assim, não é possível dizer que o estresse é uma doença que deve ser combatida, já que ela é uma reação natural e necessária para a sobrevivência. Nascer, por sinal, é uma das experiências mais estressantes que uma pessoa pode enfrentar. O termo também não deve ser usado como sinônimo de ansiedade, que é um estado psíquico, uma sensação perturbadora de que algo de ruim vai acontecer e que pode, em certos casos, virar doença. Quadros depressivos e ansiosos podem ser consequências do mau gerenciamento do estresse.

Sempre que uma pessoa, ou mesmo um material qualquer, sofre pressão, ele se altera, mas, depois de algum tempo, volta para o seu estado original. O problema é que quando o estímulo é intenso ou frequente demais, ou a pessoa não tem resiliência suficiente, há risco de desgaste, como o elástico de uma calça que, depois de muito uso, fica frouxo. Aí sim podemos dizer que uma pessoa está doente.

Do bem ou do mal

O estresse positivo é denominado “eustresse”, enquanto o negativo é chamado de “distresse”. Apesar de as respostas serem parecidas, a natureza da novidade pode gerar consequências diferentes: “Claro que quando a fonte de estresse é positiva, ela estimula a pessoa a lidar com a situação; quando é negativa, gera dor e evitamento”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, de Porto Alegre, presidente da International Stress Management Associaciation (Associação Internacional de Gerenciamento do Estresse) no Brasil (Isma-BR).

O que ocorre durante a reação

Diante de alguma ameaça, nosso organismo se prepara para lutar ou fugir, liberando hormônios como a adrenalina e o cortisol. O primeiro faz o coração se acelerar, a pressão subir, a respiração ficar mais rápida e a pessoa suar. Todo o sistema vascular é acionado com um objetivo: “O sangue é direcionado para áreas cerebrais e músculos, que vão ser fundamentais para ação”, descreve o psiquiatra e psicanalista Mário Louzã, de São Paulo. Isso faz com que as extremidades, como mãos e pés, fiquem gelados. Outras funções são suprimidas, como a digestão. Já o cortisol, conhecido como “hormônio do estresse”, aumenta nosso nível de glicose, para que haja energia suficiente para agir. Em resumo, situações de estresse podem deflagrar:

- Taquicardia (coração acelerado)
- Pressão alta
- Respiração superficial ou ofegante
- Sudorese
- Mãos e pés frios
- Pupila dilatada
- Contração muscular
- Vasoconstrição (contração dos vasos sanguíneos)
- Estado de atenção
- Pensamentos acelerados
- Tonturas
- Náusea ou vômito
- Dores de estômago (tipo gastrite)
- Diarreia ou constipação
- Aumento da frequência urinária
- Dores de cabeça e no corpo
- Insônia ou sono agitado
- Bruxismo
- Eventos cardiovasculares (como infarto ou derrame)

Agudo, episódico ou crônico

A Associação Americana de Psicologia (APA) considera que existem três tipos de estresse, ou níveis de acometimento. Enfrentar uma enchente ou sofrer um acidente de carro podem ser consideradas situações de estresse agudo. Esses casos são fáceis de serem identificados e tratados, e as manifestações têm menor duração.

Também existe o estresse agudo episódico, quando os momentos de forte tensão emocional são vivenciados com regularidade. Alguns aspectos da personalidade, como ser explosivo demais ou ansioso, aumentam a propensão ao quadro, que, em geral, requer ajuda médica ou psicológica. Alguns estudos indicam que certas características da personalidade têm origem nos genes, mas isso não quer dizer que não seja possível mudar.

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Por fim, situações menos graves, porém constantes, estão por trás do estresse crônico, mais difícil de ser diagnosticado, e capaz de minar o bem-estar de uma pessoa. “Essas ‘rusgas’ do dia a dia, pequenas frustrações e demandas, têm mais poder que as grandes tragédias”, garante Ana Maria. Embora a morte de um parente ou um terremoto sejam eventos altamente estressantes, as pessoas recebem suporte da sociedade após eventos como esses, o que quase nunca acontece quando a fonte de tensão é um ambiente de trabalho tóxico.

Mas vale lembrar que situações de estresse extremo, como sequestros, guerras ou ataques terroristas podem gerar traumas com sintomas de longo prazo, o chamado estresse pós-traumático.

Consequências à saúde mental

- Irritabilidade, agressividade ou mau humor constante
- Fadiga, que não melhora com descanso
- Problemas de concentração e memória
- Baixa produtividade
- Baixa autoestima
- Dificuldade para tomar decisões
- Sensação de desesperança
- Preocupação excessiva
- Abuso de cafeína, álcool e drogas

Consequências à saúde física

Quando liberados em excesso e por longos períodos, os hormônios associados ao estresse podem aumentar o risco de diversas doenças, ou agravar condições já existentes, como como lúpus, psoríase, diabetes ou asma, entre outras. Também há evidências de que o estresse tem um papel na progressão do câncer, embora essa relação ainda não seja bem compreendida. Veja algumas consequências possíveis:

- Imunidade baixa, infecções
- Queda de cabelo
- Obesidade abdominal
- Hiperglicemia, diabetes
- Hipertensão
- Dispepsia (má digestão)
- Problemas gastrointestinais (diarreias ou constipação)

Prevalência

De acordo com um levantamento realizado pela Isma-BR, cerca de 72% dos brasileiros enfrenta alguma sequela do estresse.

Estresse ocupacional e “burnout”

Segundo a Isma-BR, o trabalho é a principal fonte de estresse crônico para a maioria das pessoas. Pelo receio de perder emprego, muita gente se submete a jornadas excessivas, sem receber uma recompensa à altura. Com o tempo, sintomas depressivos aparecem, como fadiga, pessimismo e falta de produtividade, até alcançar um quadro de esgotamento conhecido como “burnout”. De acordo com a entidade, 32% dos brasileiros economicamente ativos sofrem dessa condição. Essas pessoas até tentam trabalhar mais, porém cometem erros, não conseguem terminar as tarefas, e isso gera ainda mais tensão. Ana Maria explica que o cenário é frequente e costuma gerar conflitos para a equipe como um todo: “Num primeiro momento os colegas querem ajudar, mas, como o tempo, aquilo começa a pesar, e eles ficam contra”, comenta.

Dá para medir o estresse?

Em geral, médicos e psicólogos podem concluir que uma pessoa está gerenciando mal o estresse a partir de uma conversa e pela observação de sinais comuns, como dificuldade para pegar no sono, dores de cabeça e estômago sem causa aparente, ou tensão nos ombros.

Existem alguns questionários utilizados por especialistas com o objetivo de determinar o nível de estresse com maior precisão. Mas é importante considerar que nem sempre as pessoas são 100% sinceras ou têm uma percepção tão clara de si mesmas na hora de responder às perguntas.

Em estudos científicos, é comum a avaliação de sinais corporais, como frequência cardíaca, variabilidade da frequência cardíaca (tempo entre uma batida e outra, detectado por um aparelho de biofeedback), eletricidade do músculo (medido com ajuda de um eletromiógrafo), umidade nas palmas das mãos (resposta galvânica da pele), temperatura das extremidades, pressão arterial e respiração. Alguns exames laboratoriais também permitem a identificação dos níveis de catecolaminas (como a noradrenalina) e o cortisol, mas esses testes exigem alguns cuidados, como horário de coleta.

Tratamento e prevenção

O ideal é que, ao perceber que algo está errado, as pessoas já tomassem providências para evitar as situações que provocam mal-estar. Infelizmente, nem sempre é possível controlar a origem do sofrimento. Quase sempre as pessoas procuram um especialista quando a bola-de-neve já virou doença e, mesmo assim, muitas preferem se medicar e continuar no mesmo ritmo, em vez de eliminar a fonte do problema, algo que dá mais trabalho.

Aprender a gerenciar o estresse exige, em primeiro lugar, uma avaliação da vida. Muitas vezes, as fontes de perturbação podem ser gerenciadas – sair mais cedo para evitar o trânsito e o medo de chegar atrasado; conversar com o colega que não responde quando você o cumprimenta e assim por diante. A razão e o autoconhecimento podem mostrar que é preciso dizer mais “não” ou buscar um trabalho que traga mais gratificação, por exemplo. Mas há problemas que não dependem apenas da pessoa. 

Quando buscar ajuda?

Muitas vezes é preciso contar com o auxílio para aprender a gerenciar o estresse. Quando a situação já envolve sintomas de ansiedade ou depressão, ou quando o problema parece estar arraigado na personalidade, um psicólogo ou psiquiatra podem ser úteis. Modificar o estilo de vida também é fundamental para se evitar as consequências negativas do distresse. Veja algumas recomendações dos especialistas:

- Durma bem: a privação crônica de sono comprovadamente aumenta os níveis de cortisol. Não é à toa que, sem dormir direito, as pessoas ficam mais reativas, irritadas e comem mais. Ter uma rotina bem determinada, relaxar à noite com banhos e automassagem, além de desligar os eletrônicos ao menos uma hora antes de dormir são dicas para evitar a insônia

- Pratique atividade física regular: o exercício físico estimula a produção de endorfinas que promovem bem-estar, ajudam no sono e no relaxamento, por isso funciona como escudo contra os efeitos do estresse. Além disso, o movimento ajuda a canalizar a raiva e a frustração, o que é terapêutico. Uma simples caminhada pode trazer alívio em momentos de tensão. Por fim, praticar uma atividade ou esporte melhora a autoestima e a sensação de autocuidado, que também fazem a diferença na hora de enfrentar as adversidades

- Alimente-se de forma equilibrada: muita gente come com pressa e passa muitas horas em jejum, e os sintomas de hipoglicemia podem ser confundidos com os da ansiedade. Estimulantes como a cafeína e o excesso de açúcar também podem interferir no bem-estar

- Observe seus vícios: é comum recorrer ao álcool ou a drogas como uma forma de automedicação em períodos de sobrecarga, o que só irá gerar novos problemas. Se você perceber que está exagerando, procure ajuda

- Tenha um “par de ouvidos”: ter alguém em quem confiar, seja um amigo, parente, consultor espiritual ou terapeuta é importante. Segundo estudos, só saber que se pode desabafar com alguém já ajuda, ainda que você não peça ajuda dessa pessoa

- Respire com o abdômen: a respiração diafragmática é natural nos bebês, mas, com o passar dos anos, as pessoas passam a respirar apenas com o tórax, o que nem sempre é suficiente para oxigenar o cérebro. Essa atitude básica é o ponto de partida de quase todas as técnicas de relaxamento porque realmente traz resultados

- Inclua prazer na sua rotina: almoçar com os amigos, assistir a bons filmes, passear no parque, fazer sexo, acariciar um animal de estimação, praticar um hobby...cada um tem a sua forma de cultivar o bem-estar. Essas atividades devem estar presentes nas fases difíceis. Se você perdeu a capacidade de sentir prazer, procure ajuda de um psicólogo ou psiquiatra

- Medite: diversos estudos comprovam os efeitos de diferentes técnicas de meditação no gerenciamento do estresse. Uma das vantagens dessas práticas é aprender a encarar os próprios pensamentos e sensações com distanciamento, o que aumenta o autocontrole

- Procure ajuda: buscar técnicas de relaxamento, biofeedback, neurobiofeedback, acupuntura, dança, grupos de autoajuda, bem como cultivar uma religião ou filosofia de vida são algumas medidas que podem melhorar sua relação com os estímulos estressores.

Fontes: Ana Maria Rossi (psicóloga e presidente da Isma-BR); Fernanda Sassi (médica coordenadora de ensino e assistência do ambulatório de transtornos de personalidade e impulso do Ipa-HC-FMUSP); Mário Louzã (psiquiatra e psicanalista, membro associado da Associação Brasileira de Psiquiatria); American Psychological Association (APA); National Institute of Mental Health/National Institutes of Health (NIMH/NIH)

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