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Dieta paleo: por que você não deve se alimentar como um homem das cavernas?

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A principal premissa da dieta paleolítica: se os homens das cavernas não comiam, não coma também. Mas será este um conselho nutricional? Imagem: iStock

Jane E. Brody

Do New York Times

09/08/2018 10h53

Parece que hoje em dia quase todo mundo já adotou a dieta "paleolítica" ou está pensando em experimentar. Os objetivos são perder peso ou melhorar a saúde, mas certamente não é salvar o planeta.

A principal premissa da dieta paleolítica: se os homens das cavernas não comiam, não coma também. Mas será este um conselho nutricional?

Vamos começar pelos fatos básicos:

  1. Não existe "uma" dieta paleolítica. O Paleolítico durou dois milhões e meio de anos e englobou populações diferentes e em evolução constante com uma ampla gama de dietas determinada pelo clima, geografia, estação do ano e disponibilidade.
  2. Os seres humanos de hoje e a composição dos alimentos que comem não são os mesmos do Paleolítico. Mudanças genéticas e a criação de animais resultaram em organismos bem diferentes em ambos os casos.
  3. Não existem estudos de grandes grupos de pessoas que acompanharam as versões atualmente populares da dieta paleolítica por décadas para avaliar seus efeitos em longo prazo sobre a saúde.

Tenha em mente que a expectativa de vida das pessoas antes do advento da agricultura há 15 mil anos raramente alcançava ou ultrapassava os 40 anos, então seu risco de desenvolver as ditas doenças da civilização é desconhecido.

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Existe uma premissa básica da dieta paleolítica que pode beneficiar a saúde de todos: evite todos os alimentos embalados e processados. Dito isso, analisemos o cardápio diário de 2.200 calorias sugeridas em um livro popular sobre comer como um homem das cavernas.

Café da manhã: 340 gramas de salmão grelhado, 1-3/4 de xícara de melão.

Almoço: 80 gramas de carne magra de porco, 4,5 xícaras de salada temperada somente com limão.

Jantar: 230 gramas de carne magra assada, 3 xícaras de brócolis cozido no vapor, 4,5 xícaras de salada (novamente, sem azeite, embora algumas versões da dieta incluam azeite de oliva), 1 xícara de morangos.

Lanchinhos: meia laranja, 3/4 de xícara de cenoura, 1 xícara de aipo.

Com tantas verduras e frutas, a dieta contém muita fibra e as vitaminas e minerais mais essenciais. Apesar de graves deficiências nutritivas como cálcio e vitamina D, pela fala de laticínios, desdenhados pelos fãs do estilo, ela parece saudável o bastante, desde que os rins deem conta de tanta proteína.

Porém, ela é prática? Quantas pessoas tentando deixar as crianças na escola pela manhã e se aprontando para trabalhar se darão ao luxo de grelhar salmão? O que farão jantando fora, ainda mais na casa de alguém? E, o mais importante de tudo, elas podem ficar na dieta indefinidamente e viver felizes para sempre sem um pedaço de pão, bolacha ou, Deus me livre, sem sorvete?

E nem todas as dietas paleolíticas são igualmente nutritivas. Quem escolhe os ancestrais dos inuítes como guia vai comer principalmente carnes e frutos do mar e poucas (se alguma) frutas e legumes, que têm péssimo desenvolvimento no Ártico. Como Marlene Zuk, bióloga da evolução da Universidade de Minnesota e autora de "Paleofantasy", declarou à organização Nutrition Action três anos atrás, o fato de que pessoas como os inuítes podem se adaptar a uma dieta com poucos vegetais "não significa que eles deveriam viver assim se tivessem escolha".

Também me pergunto se os seguidores da dieta, diante da disponibilidade de escolhas, vão preferir carnes magras (animais alimentados com grama, frango sem pele, etc.), ou se ficariam tentadas a escolher cortes mais suculentos, gordurosos e calóricos, tais como peito bovino, hambúrguer e costeleta de porco. Para piorar, eles podem escolher carnes processadas como bacon (permitido em algumas listas de dieta paleolítica) e salsichas, vinculados a um risco crescente de câncer e doença cardíaca. Será que sucumbiriam ao uso de manteiga e sal para melhorar o sabor dos legumes cozidos no vapor?

Para mim, uma dieta ao estilo mediterrâneo, promovida pela maioria dos nutricionistas e pesquisadores que estudam os efeitos do que comemos, é muito mais fácil de ser incorporada à vida moderna com risco mínimo de perder a saúde. Ela também é equilibrada nutricionalmente e muito mais saborosa.

A dieta mediterrânea contém somente pequenas porções de alimentos de origem animal e se vale mais de proteínas de plantas, como feijões e ervilhas. Ela inclui o azeite de oliva e outras gorduras monoinsaturadas. É mais variada, menos cara, menos impactante para o ambiente e mais fácil de se encaixar nas demandas da vida diária.

Vários estudos de curta duração entre grupos pequenos de pessoas (geralmente sem grupos de controle) sugerem que a dieta paleolítica é mais eficaz que a abordagem mediterrânea ao promover o emagrecimento e reduzir fatores de risco para diabetes tipo 2 e doenças cardíacas coronárias. Mesmo assim, meu voto é pela dieta mediterrânea, mais flexível e detalhadamente pesquisada.

Posso dar um testemunho real. Há pouco tempo, dei uma palestra no cruzeiro mediterrâneo de uma semana do "New York Times" em um pequeno navio luxuoso com quatro áreas de alimentação e serviço de quarto 24 horas. Eu comi bastante – três refeições deliciosamente satisfatórias preparada sob a direção de um mestre-cuca italiano. Desfrutei um coquetel noturno, uma taça de vinho com jantar e sorvete italiano de sobremesa. (Vou contar tudo: também caminhei no convés por uma hora e nadei meia hora por dia, além de caminhar na praia e subir e descer as escadas do navio.) E voltei para casa pesando menos de 250 gramas a mais do que quando embarquei.

Uma afirmativa popular de quem segue a dieta paleolítica, entre outras, é que nós somos os únicos mamíferos que tomam leite após o desmame, o que é verdade. Muitas pessoas perdem a capacidade de digerir a lactose do leite na primeira infância. Por outro lado, como Zuk assinalou, muitos outros desenvolveram a habilidade de produzir lactase, a enzima conversora da lactose, pela vida toda, mudança que aconteceu nos últimos cinco mil a sete mil anos, sendo mais um exemplo de como os humanos podem e têm mudado, e rapidamente, desde o Paleolítico.

E ainda que seja sensato (coerente com a dieta paleolítica) comer muito menos amido, principalmente farinha de trigo e grãos refinados que nossos organismos convertem rapidamente em açúcar, Zuk observou que as pessoas continuam a desenvolver genes para amilase, enzima que decompõe o amido na saliva e no intestino delgado.

Também é verdade que nosso microbioma --os biomas de organismos que residem em nossas entranhas e outros lugares-- é tremendamente diferente da época Paleolítica e afeta como nossos corpos processam o que ingerimos.

Por fim, resta outro aspecto crítico das populações paleolíticas que é enormemente diferente de como a maioria dos norte-americanos vive hoje em dia. Os povos do paleolítico eram coletores e caçadores e passavam a maior parte das horas despertas caminhando e correndo em busca de alimento, com tempo e esforço adicionais dedicados à preparação de seu consumo.

Se estiver disposto a fazer isso, vá fundo.

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