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Como minimizar o risco de câncer no pâncreas

Chiara Zarmati/The New York Times
Obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, que aumentaram para níveis epidêmicos nos últimos anos, estão relacionados ao câncer de pâncreas Imagem: Chiara Zarmati/The New York Times

Jane E. Brody

Do New York Times

2018-07-25T09:56:19

25/07/2018 09h56

Como uma leitora ávida de obituários, estou impressionada com a quantidade de vítimas de câncer no pâncreas, há muito tempo considerado um tipo raro.

Em relação ao número geral, ainda é um tipo raro, representando apenas 3% de todos os cânceres. No entanto, é um dos mais mortais porque os sintomas quase nunca se desenvolvem até que a doença esteja avançada e seja incurável.

No Brasil, o câncer de pâncreas representa 2% dos casos de câncer --e 4% das mortes causadas pela doença, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). É mais comum em pessoas acima de 60 anos e tem maior incidência entre homens.

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Ao mesmo tempo, os casos de câncer pancreático vêm aumentando apesar de o mais conhecido fator de risco --o tabagismo-- estar em declínio há décadas. Só esse fato já levou os pesquisadores a procurar explicações em outras causas e, espera-se, a descobrir maneiras, além de parar de fumar, de prevenir e detectar a doença enquanto ainda é possível curá-la.

Na maioria dos aproximadamente 6% dos que sobrevivem por cinco anos, o câncer de pâncreas foi descoberto bem cedo, por acaso, em geral durante um exame ou uma cirurgia por alguma outra razão. Em 2009, por exemplo, a juíza da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg teve uma parte de seu pâncreas removida depois de uma tomografia computadorizada de rotina revelar uma lesão de um centímetro. Apesar de a lesão ser benigna, um tumor ainda menor que o cirurgião descobriu era maligno e ainda não havia se espalhado além do pâncreas.

O pâncreas é um pequeno órgão glandular de duas partes --com aproximadamente 18 centímetros de comprimento e quatro centímetros de largura-- que fica na parte superior do abdômen, atrás do estômago. Ele executa duas funções vitais. Uma parte da glândula é uma fonte de enzimas digestivas, e a outra produz os hormônios insulina e glucagon, que controlam os níveis de glicose e ácidos graxos no sangue.

Alguns fatores de risco conhecidos para o câncer de pâncreas estão além do controle de um indivíduo: idade avançada, ser afro-americano ou judeu asquenazi e ter dois ou mais parentes de primeiro grau (pais ou irmãos) que tiveram a doença.

Os fatores de risco modificáveis, porém, são os que causam maior preocupação. Além do tabagismo, considerado responsável por 20 a 25% dos cânceres de pâncreas mesmo com os números em queda, os outros são a obesidade, o diabetes tipo 2 e a síndrome metabólica, todos fatores que atingiram níveis epidêmicos nos últimos anos.

Dados reunidos em vários estudos "mostram claramente uma relação com a obesidade", afirma Donghui Li, epidemiologista molecular do Centro de Câncer M.D. Anderson, de Houston. "Quanto maior o IMC, maior o risco de câncer de pâncreas", diz ela, referindo-se ao índice de massa corporal. "A obesidade contribui para o início e para a progressão desse tipo de câncer."

"A distribuição de gordura também influi --quanto maior a relação cintura-quadril, maior o risco", afirma. Ela descobriu ainda que o risco de câncer é maior quanto mais cedo na vida a pessoa se torna obesa, e o tempo de sobrevivência foi menor entre aqueles que ainda estavam obesos quando o câncer foi diagnosticado.

A obesidade também é o principal fator de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2, em que o corpo resiste à ação da insulina, levando o pâncreas a produzir mais e mais desse hormônio. A insulina promove o crescimento celular, fornecendo uma ligação entre o diabetes e o desenvolvimento da doença.

O relacionamento, no entanto, é complicado. Em um relatório de 2011 publicado no periódico Molecular Carcinogenesis, Li observou que "o diabetes, ou a tolerância prejudicada à glicose, está presente em 50 a 80% dos pacientes com câncer de pâncreas". Segundo ela, "O diabetes é tanto uma causa quanto uma consequência do câncer", embora seja difícil dizer o que vem primeiro --diabetes ou câncer no órgão que controla a glicose no sangue.

Um estudo europeu com mais de 800 mil pessoas com diabetes tipo 2 descobriu que, às vezes, a doença é um sinal precoce de um câncer pancreático.

Em estudos na Clínica Mayo, níveis elevados de glicose, uma condição chamada pré-diabetes, foram detectados em alguns pacientes dois anos antes de o câncer de pâncreas ser diagnosticado. Neles, segundo Li, o diabetes foi na verdade um sintoma do câncer que estava oculto. Esse é um tipo de diabetes chamado 3C, causado por um pâncreas doente ou danificado. Agora, pesquisadores médicos estão buscando maneiras de ajudar os médicos a distinguir de maneira mais rápida entre diabetes tipo 3C e diabetes tipo 2.

O intervalo de tempo entre o desenvolvimento do diabetes e o diagnóstico de câncer é uma potencial janela de oportunidade que pode permitir a detecção da doença em um estágio precoce e curável, de acordo com Li.

Se um biomarcador para o câncer for identificado, talvez seja possível encontrar a doença no paciente mesmo se o tumor ainda for pequeno demais para ser visto em um exame e antes do desenvolvimento dos sintomas. Um anticorpo, por exemplo, pode ser usado para atingir uma molécula em pequenos tumores.

Li pede aos médicos que fiquem alertas à possibilidade de câncer oculto em pacientes que acabaram de ser diagnosticados com diabetes e têm 50 anos ou mais, não possuem histórico familiar da doença, estejam perdendo peso e não conseguem controlar o diabetes por medicação oral.

Em geral, quando o diabetes ou o pré-diabetes estão presentes por muitos anos antes que o câncer pancreático seja encontrado, a quantidade anormal de açúcar no sangue pode ter influído no início ou na promoção do crescimento do câncer. Quanto mais tempo os pacientes passam com diabetes, porém, menor o risco de câncer, embora mesmo após 15 anos com a doença, o risco de câncer de pâncreas ainda seja maior do que em pessoas sem diabetes.

Em menos de 10% das pessoas que têm histórico familiar de câncer de pâncreas --muitos deles fazem parte do registro nacional de tumores do Centro Médico John Hopkins--, testes genéticos identificaram vários genes associados ao câncer que seriam capazes de prever seu risco de ter a doença. Quando maior o risco, maior a frequência com que a pessoa precisa se submeter a tomografias computadorizadas para descobrir um tumor precoce.

O diagnóstico precoce é vital, segundo Li, porque o câncer de pâncreas é altamente resistente à maioria das terapias e em geral volta após a cirurgia. Hoje, apenas 20% dos cânceres podem ser operados. O pâncreas fica ao lado de vasos sanguíneos muito grandes e, quando o tumor os envolve, não pode ser removido com segurança.

Um ponto positivo para as pessoas com diabetes: em alguns estudos, a droga metformina, frequentemente usada por pacientes para ajudar a controlar o açúcar no sangue, tem sido associada a um risco reduzido de câncer de pâncreas e a um aumento nas chances de sobrevivência daqueles que desenvolvem essa doença. Também associado à longevidade e ao envelhecimento saudável, o medicamento é um genérico barato com um excelente histórico de segurança.

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