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Quando um vegano descobre que tem gota: "Deixei de comer o que gostava"

Yvetta Fedorova/The New York Times
A luta de um vegano contra a gota incluiu uma mudança na dieta e muitas injeções de cortisona Imagem: Yvetta Fedorova/The New York Times

Josh Max

Do New York Times

12/07/2018 10h37

Uma dor misteriosa no tornozelo direito me acordou uma manhã de verão com a insistência do corpo de bombeiros batendo na porta de casa. Tylenol não ajudou e, ao meio-dia, o tornozelo estava do tamanho de uma berinjela, só que avermelhado. A dor lembrava a de uma queimadura de sol horrenda misturada com a explosão de agonia que se sente ao bater a canela na mesa de centro.

Eu me deitei no chão, arquejando, suando e olhando para o teto até a chegada da minha então parceira, uma cuidadora com o tipo de força física que se vê em uma pessoa que arranca a porta de um carro prestes a explodir. Ela me jogou sobre o ombro, me carregou escada abaixo, me colocou na traseira de sua picape e me levou ao consultório de um podólogo. Lá, fiz exame de sangue, tirei radiografia do tornozelo e fiz uma ressonância magnética dos ligamentos.

Eu me estiquei diagonalmente em uma poltrona reclinável enquanto a médica preparava uma injeção de cortisona para meu tornozelo. "Isso vai doer", disse ela. Eu concordei com a cabeça e afastei o olhar, enquanto ela fazia a aplicação.

"Já picou?", perguntei passado um momento.

"Sim", foi a resposta.

"Ha! A coisa não está tão ruim assim."

Ela acertou na mosca um segundo depois e eu soltei um grito como o de Robert Plant no finalzinho de "Whole Lotta Love". Porém, o inchaço no tornozelo parou e a dor desapareceu quase por completo.

"Você tem gota, meu amigo", disse ela.

"Tenho o quê?"

Parecia impossível --eu era vegano há quase cinco anos. Já tinha ouvido falar em gota, é claro, escutando o personagem de Ben Franklin cantar "um agricultor, um advogado e um sábio, um pouco de gota na perna", no disco com o elenco de "1776" da Broadway. Contudo, achava que isso fosse algo que reis do século XVIII pegavam de tanto comer carneiro.

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Porém, segundo os folhetos que ela me deu, a gota é algo que algumas pessoas de meia-idade, na maioria homens, ganham comendo grandes quantidades de carne vermelha, miúdos, frutos do mar, consumindo muita cerveja, descuidando do peso ou uma combinação de tudo isso. Nada disso se aplicava a mim, à exceção da idade. O exame de sangue confirmou a suspeita da médica; cristais de urato monossódico grudaram no tornozelo como parentes indesejados.

A cortisona me deixou caminhar normalmente até a manhã seguinte e, para mim, a médica havia resolvido o problema, mas nos três anos seguintes eu sofreria cada vez mais com ataques ferozes e inesperados nos dois tornozelos, nos dois dedões dos pés e em ambos os joelhos. Os surtos podiam durar semanas apesar de inundar meu organismo com o máximo de água que pudesse aguentar, tomar diariamente alopurinol, para destruir os cristais, e seguir a complicada dieta prescrita.

Não posso mais comer aves? Beleza, mas feijão preto, espinafre, aspargo, uvas-passas, grão-de-bico e homus, coisas adoradas que comia há anos, também tiveram de ser ignoradas. A primeira injeção que levei também foi a última, não apenas por lembrar daquela agulha, mas porque a cortisona, em longo prazo, pode causar problemas, inclusive danos à cartilagem próxima da injeção, e eu sou uma pessoa muito ativa, ou era quando tive meu primeiro ataque. Por fim, não havia nada a fazer, além de conhecer essa coisa nova, não planejada e indesejada no meu organismo, e lutar com todo o meu arsenal.

Arquivo pessoal/NYT
"Parecia impossível ter gota --eu era vegano há quase cinco anos" Imagem: Arquivo pessoal/NYT
Li tudo que pude encontrar sobre gota e gerenciamento da dor, seguindo instruções para respirar, para ficar parado, para "estar com a dor", dar um nome a ela, uma forma e cor – e para me "concentrar". Também fazia meus exercícios diários; quando meus joelhos, pés ou tornozelos estavam com o triplo do tamanho normal, eu usava halteres para fazer uma série de exercícios sentado em um banco, com a bengala ao meu lado no chão. Eu não via escolha – tinha uma vida para viver, artigos a escrever, dinheiro a ganhar, canções para cantar, parentes para ver e amigos para encontrar. Não fiz anúncios públicos em redes sociais. Eu só achava que tinha que continuar em frente, sem deixar a gota destruir tudo na minha vida.

Às vezes, a concentração funcionava, outras, não. Sou músico e, às vezes, punha um chapéu vermelho para fazer uma dancinha com chapéu e bengala nas minhas apresentações. Outras vezes, sozinho no carro, eu surtava, berrava e gritava com meu joelho, pé ou dedão. Imaginava um farol vermelho lá embaixo e um congestionamento de quilômetros, buzinas tocando, cristais descendo dos carros, brigando entre si e, frustrados, socando e chutando as paredes das minhas articulações. Eu queria cortar fora o membro inchado e jogar bem longe.

Sair em público exigia me tornar hipersensível com multidões no supermercado ou na rua. As pessoas, perdidas em seus telefones ou pensamentos, pareciam olhar diretamente para mim. Às vezes, eu tinha de elevar a voz ou esticar o braço, já que não conseguia desviar de imediato, virar, recuar ou driblar quem surgia num zás em lojas ou portas do metrô. Pessoas levando vários cachorros para passear, skatistas e ciclistas ziguezagueando em calçadas também tinham que ser evitados. Com o tempo, entretanto, passei a notá-los de longe e a tomar ações defensivas de antemão, como quando se observa um motorista sem noção na rodovia. Eu não esperava que o mundo inteiro largasse tudo só porque eu tinha gota.

A doença me ensinou algumas coisas. Andar involuntariamente a ritmo de caracol em público criou um mundo novo e diferente para mim, um mundo que incluía, pela primeira vez, o encontro com os olhos de todas as pessoas como eu, pessoas de muletas, com bengalas e se locomovendo em cadeiras de rodas, deslocando-se lentamente em meio a um maremoto humano a 150 quilômetros por hora que nem sempre nota ou se importa se os outros estão doentes ou incapacitados.

Quando minha gota, felizmente, retrocedeu há um ano, no que espero tenha sido a última vez, não acelerei de imediato. Ficava grato por acordar a cada dia, examinava meu corpo com os olhos fechados e desfrutava a consciência sutil de estar sem dor. Talvez eu não tenha aprendido por completo a "estar" com a gota nas vezes em que ela incendiou minhas articulações, mas passei a gostar da mudança de ritmo e comportamento necessários. É mais difícil tocar guitarra solo em ritmo lento do que rápido, e existe muita coisa a ser encontrada nos espaços entre as notas.

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