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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica

Precisamos falar de saúde mental: "Não sabia que minha mãe era psicótica"

Giselle Potter/The New York Times
Uma filha faz uma retrospectiva dos traumas de sua infância causados pela mãe, que cuidadosamente escondeu seus problemas de saúde mental Imagem: Giselle Potter/The New York Times

Laura Zera

Do New York Times

10/07/2018 09h44

Quando eu tinha 12 anos, minha mãe me encurralou no banheiro da nossa casa no subúrbio de Vancouver. "Seus dentes estão muito amarelos", disse ela, me entregando um produto para clareá-los.

Embora decepcionada por nunca ser capaz de satisfazê-la, aprendi com as experiências passadas como enfrentar a situação atual: pus o produto na minha escova de dente e me esforcei para não engolir nem uma gota durante a escovação.

Entre as coisas que não fiz: denunciá-la às autoridades; conversar com um adulto confiável; contar aos meus amigos da escola; chorar. Talvez minha mãe estivesse certa e os meus dentes fossem feios de fato. Ou talvez a vergonha que senti tenha ofuscado a natureza grave de sua exigência.

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Como minha única guardiã, minha mãe era a pessoa mais importante da minha vida. E em sua casa, eu vivia segundo suas regras, por mais bizarras que fossem, porque perdê-la era impensável. Não sabia que ela sofria de psicose. Só sabia que, quando olhava para mim com seus olhos castanhos escuros, que brilhavam com uma intensidade implacável, o que ela via não correspondia a seus padrões.

Além dos meus dentes imperfeitos, ela vivia obcecada com os pelos nos meus braços, a curva do meu nariz, e o arco das minhas pernas. Odiava minhas sobrancelhas escuras; deixei que as pintasse. Elas acabaram ficando cor de laranja, e eu ria, ignorando-as. Mas enquanto as sobrancelhas cresciam, uma apreensão tomou conta do meu sistema nervoso: bastava o som de seus saltos no linóleo da cozinha para que meu coração disparasse.

No sétimo ano, por debaixo dos panos, eu lera a biografia de Linda Lovelace e construí uma paisagem clara da indústria pornô na minha cabeça, mas material sobre a paranoia e os delírios de minha mãe não eram tão amplamente disponíveis, nem presentes em minhas aulas de saúde nos anos 70 e 80.

Além disso, no meio do turbilhão, cheguei a uma conclusão inconsciente, mesmo que intransigente: o comportamento dela era um problema que eu precisava enfrentar, e não deveria esperar nada diferente.

Feridas invisíveis se abriam sob uma superfície educada e asseada; eu me destacava em todas as matérias na escola, e ganhava roupas novas e cuidadosamente coordenadas em setembro. O estetoscópio do meu médico não detectava os sintomas da minha realidade, incluindo ansiedade persistente e uma solidão cavernosa que encobria meus órgãos.

Minha mãe era mestra no disfarce, e sua doença também passava despercebida. Usava uma energia imensa para parecer normal. Mantinha seu emprego, preparava refeições saudáveis, me levava às aulas de patinação artística e se voluntariou na minha escola. Sua raiva se revelava às vezes na frente dos pais de meus amigos, de meus professores e treinadores, especialmente quando vinha me assistir e gritava comigo, criticando meus braços e pernas mal posicionados, mas se sua atitude chamava alguma atenção, ninguém disse nada.

O que poderiam ter dito? As probabilidades de iniciar uma conversa construtiva com uma adolescente atordoada ou sua mãe defensiva eram minúsculas, mas a criança em mim ainda desmorona com a tristeza gerada por anos de isolamento. Sinto uma dor imensa por saber que as pessoas achavam que estávamos bem, e não estávamos. Ou, que achavam que não estávamos e preferiram não falar nada. De que servem as boas maneiras quando alguém está sofrendo?

E mesmo assim, não sei o que as pessoas poderiam ter feito, exceto, talvez, prestar atenção e oferecer um ombro amigo. Minha respiração acelera quando imagino um adulto encarando minha criança interna, sua compaixão envolvendo meu desespero. Quero me perder dentro dela, mesmo que por um momento. Mas também me preocupava que qualquer intervenção pudesse causar mais caos. Quando criança, temia qualquer coisa que pudesse perturbar minha pequena família.

Eu não era filha única; tenho uma irmã. Antes que a agressividade de nossa mãe a fizesse fugir quando eu estava no sétimo ano, trocávamos observações em sussurros abafados e forjamos uma forte aliança. Embora eu fosse cinco anos mais jovem, ela me levava em seus encontros para me tirar de casa. Nunca aventamos a hipótese de uma possível base médica para o comportamento de nossa mãe, nem dizíamos "há algo realmente errado com ela, e não tem nada a ver com a gente". Esse conhecimento estava fora de nosso alcance. Quando minha irmã se foi, eu mal a vi por três anos, e mamãe nunca falou uma palavra sobre sua partida.

Em vez disso, eu me escondia atrás dos livros, ou procurava aprovação tentando vencer em tudo. Minhas realizações acadêmicas e atléticas foram largamente ignoradas, enquanto meus fracassos atraíam violência.

Quando cheguei à adolescência e tentei conquistar mais independência, suas respostas se tornaram mais brutais, até que fugi de casa uma noite, aos 15 anos. Fiquei com uma amiga da escola durante um mês, e me mudei para o apartamento de um quarto da minha irmã recém-casada depois disso.

Durante a faculdade, desenvolvi agorafobia, intimamente relacionada a um distúrbio de humor geral. De acordo com uma grande pesquisa da Kaiser Permanente e do Centro de Controle de Doenças na década de 1990, chamado Estudo de Experiências Adversas na Infância (ACES), isso não era de surpreender.

No ACES, pesquisadores descobriram que os adultos que sofreram trauma quando crianças tinham uma incidência significativamente maior de desenvolver doenças. Eles acompanharam 17 mil participantes em 10 diferentes áreas de trauma. O fato de ter quatro experiências adversas na infância estava associado ao aumento do alcoolismo, e uma pontuação acima de seis aumentava em 30 vezes a probabilidade de tentativas de suicídio.

Minha pontuação era cinco. Como a criança certinha e estudiosa que era, tornei-me uma adulta organizada e altamente funcional. Tenho que me esforçar para transitar pelo mundo sem cair e, para isso, uso medicamentos, três tipos da terapia, exercício, uma dieta cuidadosa, suplementos, luzes azuis, acupuntura e meditação. Eu me esforço, como minha mãe se esforçou.

Foi apenas através de anos de tratamento para minha ansiedade e depressão que finalmente acabei entendendo sua doença. Eu gostaria de saber quantos outros são como eu. Mães e filhas, filhos e pais, lutando com males que surgem e recuam em ondas e ciclos, na maré dos neurotransmissores. Será que minha experiência --lidar com o fardo da minha mãe e desenvolver o meu próprio-- é uma anomalia, ou algo inevitável?

Às vezes, vou a salas de aula do ensino médio e falo sobre minha experiência com a doença mental. É o tipo de conversa que eu gostaria que alguém tivesse oferecido na minha escola nos anos 80. Olho em volta para o público de 16 e 17 anos de idade e tento imaginar quem na sala está vivendo o que vivi. Digo a eles para me perguntarem qualquer coisa, sou um livro aberto. E planto sementes, encorajando-os a falar com alguém. Não estão sozinhos. Pode já ser tarde demais para alguns, aqueles que eu vejo lutando para segurar as lágrimas. Rezo para que não seja.

Em 2009, a paranoia de minha mãe se tornou tão predominante que ela quase morreu de fome, preferindo não ir às compras para não ter que voltar para um apartamento assaltado, algo que via como inevitável. Em sua condição física deteriorada, ela finalmente se rendeu a uma avaliação psiquiátrica, e começou a tomar medicamentos antipsicóticos. Aos 73 anos, foi pela primeira vez tratada como uma paciente de saúde mental. Ficou no hospital por três meses, mas quando sua psicose diminuiu, tornou-se evidente que sofria de demência.

Eu a visitei uma vez, quando foi transferida para um asilo, e continuo a visitá-la até hoje. Nossa visita inicial encerrou um afastamento de 17 anos, mas era tarde demais para começar de novo. Ela não se lembrava de mim.

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