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Longevidade

Práticas e atitudes para uma vida longa e saudável

O que é necessário para envelhecer bem em sua própria casa?

Chiara Zarmati/The New York Times
Filhos podem ajudar a manter a casa segura para seus pais idosos Imagem: Chiara Zarmati/The New York Times

Jane E. Brody

Do New York Times

25/05/2018 14h09

Barbara Ehrenreich, autora popular que se autodescreve como caçadora de mitos, escreveu sobre como, depois de chegar aos 70 e poucos anos, viveu o suficiente para agora deixar de lado os exames regulares. Já o doutor Ezekiel Emanuel, oncologista de 60 anos, afirma que todos estaríamos bem, inclusive ele, se morrêssemos aos 75 anos. Mas várias pessoas que chegaram a essa idade --entre elas eu-- preferem pensar que vivemos apenas três quartos de nossas vidas.

Temos esperanças de ver nossos netos terminarem a faculdade e depois talvez se casarem e formarem sua própria família. Possuímos projetos para terminar e uma lista de lugares para visitar. E gostaríamos de continuar a viver de maneira independente --talvez contratando alguém para dar uma ajuda em tarefas excessivamente desafiadoras-- o maior tempo possível.

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O que levanta uma questão inevitável: o que é necessário para envelhecer bem em sua própria casa, no ambiente que amamos há tempo e que nos traz conforto físico, social e emocional? Quais são as adaptações necessárias para garantirmos nossa segurança e conforto e aliviarmos as preocupações legítimas de nossos filhos quanto ao nosso bem-estar?

Claro, envelhecer em casa não é para todo mundo. Alguns idosos preferem deixar a residência compartilhada por muito tempo com o parceiro que agora se foi. Alguns podem querer a segurança de saber que as assistências física e médica estarão disponíveis ao toque de um sino. Outros talvez estejam simplesmente cansados de ter que cuidar de uma casa.

Porém, para aqueles que apreciam a familiaridade do lugar conhecido e que talvez não possam pagar por uma casa de repouso, nossa própria moradia pode exigir alguns ajustes capazes de adiar --e possivelmente evitar-- a necessidade de se mudar para uma residência mais segura, se não mais agradável.

Organizações como a AARP já escreveram longamente sobre o assunto, e existem hoje vários voluntários e serviços sem fins lucrativos para ajudar as pessoas como eu a envelhecer em sua própria casa. Muito frequentemente, porém, a necessidade de adaptações não aparece até que aconteça um acidente que pode abreviar, ou até mesmo terminar, com a vida em questão. Enquanto isso, amigos e parentes se preocupam, adulam e tentam convencer --em geral sem sucesso-- seus entes queridos idosos a adotar modificações de segurança importantes.

Lembro-me de como fiquei chateada com uma amiga querida --então com 80 e poucos anos e 14 anos mais velha que eu-- que se recusava a substituir, deixar mais seguros ou remover os tapetinhos da cozinha e da entrada que constituíam um risco sério, inclusive para mim.

Então, para aqueles com preocupações parecidas com membros da família e amigos que estão ficando idosos, recomendo um livro muito útil e abrangente, sem ser pesado, "Age in Place: A Guide to Modifying, Organizing, and Decluttering Mom and Dad’s Home", de Lynda G. Shrager, terapeuta ocupacional há 37 anos, que trabalhou com idosos em suas casas por mais de 13. Shrager tem boas razões para acreditar que enfrentar os desafios da vida independente pode ajudar a manter os idosos seguros e seus filhos tranquilos.

"É mais barato ficar em sua própria casa, mesmo que seja preciso fazer algumas reformas e conseguir um ajudante alguns dias por semana", disse Shrager em uma entrevista. "É um dinheiro bem gasto e muito mais barato do que casas de repouso. Mas é importante não esperar até que uma crise aconteça – que o parente caia e quebre o quadril."

Ela sabe que a resposta mais comum dos pais que estão ficando velhos para as preocupações de seus filhos é "Eu estou bem", quando "as crianças" insistem que não é bem assim. Ela descobriu que as coisas normalmente funcionam quando as duas partes estão dispostas a ceder um pouco.

"Passe alguns dias na casa de seus pais, veja como eles se movimentam e identifique as mudanças que podem tornar as coisas mais estáveis e mais fáceis", sugere Shrager. "Tornar a casa mais segura para que os pais possam permanecer nela, é uma situação em que todos ganham. E aí a família inteira fica feliz."

Seu livro descreve a casa de uma pessoa idosa cômodo a cômodo, começando com a entrada e terminando no porão, e, para cada lugar, oferece várias dicas de coisas que, em geral, colocam os idosos em risco e como fazer os ajustes necessários.

Adaptações simples podem salvar uma vida

Shrager, que mora em Slingerlands, em Nova York, nos arredores de Albany, está bem ciente dos riscos relacionados ao clima, como neve e gelo, que podem dificultar a coleta da correspondência ou uma saída para caminhar na rua. A entrada da casa, por exemplo, talvez tenha que ser recapeada, para diminuir os riscos de tropeços ou escorregões, pode precisar de uma luz melhor, corrimões nas escadas ou uma rampa e uma porta mais larga para uma cadeira de rodas.

Dentro da casa, é necessário checar se os móveis são projetados e foram colocados nos melhores locais para acomodar uma pessoa com problemas de mobilidade. Identifique os perigos como fios no chão ou pernas de móveis que se projetam, e até mesmo animais de estimação com o hábito de se deitar nas escadas ou no meio do caminho. Livre-se de coisas que não são usadas há muito tempo, como pilhas de revistas e outros entulhos, um problema que eu mesma preciso desesperadamente enfrentar. Coisas desnecessárias juntam pó, criam estresse e ocupam espaços que podem ser mais bem utilizado para, digamos, colocar um telefone ou uma panela elétrica.

Estou planejando usar o método de Shrager: "Categorize os itens em cinco grupos: (1) manter; (2) dar; (3) vender; (4) doar para caridade; e, claro, (5) a importantíssima pilha das coisas para jogar fora". Não há uma pilha de "talvez", não se deve adiar a decisão para nenhum item. Para evitar se sentir sobrecarregada por essa tarefa, a pessoa deve resolvê-la aos poucos, uma sala, um armário, uma prateleira ou uma gaveta por vez.

As cozinhas são um desafio especial para idosos com problemas físicos. Quando a minha foi construída, 50 anos atrás, eu era quase oito centímetros mais alta e meu marido (já falecido) era 30 centímetros maior do que eu. Fomos espertos em fazer armários e gavetas com puxadores. Eu guardo os itens que uso mais nas prateleiras de baixo, mas agora até mesmo alcançar o que fica mais embaixo e alguns dos armários é um desafio para mim. Em geral, uso um pegador, mas algumas vezes preciso de um banquinho. Shrager sugere um com degraus largos e talvez até um corrimão de segurança. "Evite os banquinhos dobráveis que podem se fechar e cair", adverte ela.

Ela também sugere que, para muitos idosos, cozinhar em um forno elétrico ou no micro-ondas pode ser muito mais seguro do que no fogão.

O banheiro, no entanto, é provavelmente o cômodo mais perigoso da casa. Aqui, as mudanças de segurança como instalar barras e garantir um acesso fácil ao chuveiro ou à banheira são fundamentais. As barras de segurança não precisam deixar a casa parecendo uma instituição; várias lojas físicas e on-line vendem barras mais bonitas.

Você entendeu a ideia. "Não evite a conversa. Diga para a mamãe: 'Estamos muito preocupados. Por favor, vamos conversar sobre o assunto. Queremos que tudo dê certo para que você possa viver sua vida e ficar segura e para que a gente possa parar de se preocupar'", diz Shrager.

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