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Tipos de autismo: André tem a condição e fez pós; já Carol mal sai de casa

Arquivo pessoal
André criou o palhaço Xiririca para falar sobre autismo Imagem: Arquivo pessoal

Aline Tavares

Colaboração para o VivaBem

17/04/2018 04h00

Por ser um espectro de grande dimensão e complexidade, é muito comum a disseminação de estereótipos e informações incorretas sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Há quem acredite, por exemplo, que todo autista possui uma inteligência acima da média; ou que todo autista tem um quadro de agressividade e precisa de ajuda para fazer tudo. Não é nada disso. 

O comportamento e a independência da pessoa com TEA dependem de inúmeros fatores e mudam conforme o grau do transtorno, que atualmente é divido em leve, moderado e severo --até 2013 a classificação era Síndrome de Asperger, Síndrome de Rett, Autismo Típico ou Autismo Atípico. A seguir, conheça a história de pessoas com diferentes níveis de autismo, para entender um pouco melhor suas características e como vivem.

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“Eu só funciono de um modo um pouco diferente”

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Andressa descobriu que tem autismo há um mês Imagem: Arquivo pessoal
Andressa Batista tem 27 anos e mora em Luiziana (PR). Ela terminou recentemente o ensino médio no sistema de educação de jovens e adultos. A jovem é deficiente visual e foi diagnosticada com um tipo leve de autismo --a antiga Síndrome de Asperger -- há apenas um mês.

“Comecei a pesquisar sobre a condição alguns anos atrás e percebi muitas características parecidas comigo, como a dificuldade na socialização, interesses restritos, dificuldade para dormir e hipersensibilidade auditiva”, explica Andressa.

Ela conta que na infância era considerada muito “mimada” e “difícil” de lidar, pois geralmente não aceitava quando atividades diferentes eram propostas e tinha dificuldade de se relacionar. Na adolescência, também se sentia diferente das outras meninas. Costumava ser mais retraída e não se importava com “coisas de adolescente”, como sair com os amigos e ir a shows.

O diagnóstico aconteceu no último mês de março, quando fez uma avaliação em um lugar indicado por outra autista, em Curitiba. A descoberta mudou sua vida. “Agora, consigo entender e explicar quais são minhas reais necessidades, dificuldades e potencialidades. Posso mostrar para as pessoas que funciono de modo um pouco diferente, e que essa também é a minha forma de ser, que o autismo faz parte de quem eu sou”.

"Pensava que eu era mau por não conseguir me relacionar”

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André foi diagnosticado com autismo somente aos 40 anos Imagem: Arquivo pessoal
André Luiz Pinheiro é de Santo André (SP), está com 47 anos e também teve um diagnóstico tardio de autismo leve, aos 40. Ele trabalha como auxiliar administrativo de uma escola de educação de jovens e adultos. É formado em pedagogia e pós-graduado em educação infantil, gestão ambiental e educação inclusiva. André começou a pesquisar sobre o TEA quando pessoas próximas disseram que algo não estava bem com ele --foi quando se identificou com características de Asperger e buscou especialistas.

O principal sinal que o auxiliar administrativo percebeu foi a dificuldade de se relacionar com as pessoas. “Queria falar sobre algo, mas não conseguia ouvir os assuntos dos outros. O autista não tem essa característica automática de sentir o que o outro sente”, explica. Ele destaca que falta muita informação sobre o transtorno e o diagnóstico da condição não é fácil, principalmente porque os autistas não são todos iguais. “Chegaram a considerar que eu estava com depressão”, conta.

Uma vez diagnosticado, André diz que se livrou do peso de uma culpa. “Pensava que era uma pessoa muito má por não conseguir me relacionar. Depois, fui compreendendo que é uma limitação, e posso dizer que desenvolvi muitas coisas. Criei o palhaço Xiririca e fiz apresentações em diversas escolas. Assim, transmitia alegria e, ao mesmo tempo, conseguia vencer a minha limitação”.

Hoje, André recebe acompanhamento de um psicoterapeuta toda semana. A descoberta do transtorno o incentivou a criar um canal no Youtube e a webrádio Xiririca, nos quais fala sobre as diversas temáticas que englobam o autismo.

“Precisamos nos unir para obter grandes conquistas”

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Lucelmo desconfiou que Benício tinha autismo porque o filho demorou para falar Imagem: Arquivo pessoal
Lucelmo Lacerda mora em São Sebastião (SP) e é pai de Benício, menino de 10 anos que foi diagnosticado com autismo moderado aos 4. O primeiro sinal de que o garoto tinha a condição foi o atraso na comunicação. "Ele estava com quase quatro anos e não falava nada. Procuramos vários médicos e todos disseram que era normal, que era só esperar. Depois, consultamos um neurologista especializado em autismo que fechou o laudo.”

Após o diagnóstico, Benício fez um tratamento multidisciplinar, com fonoaudiologia e terapia ocupacional, mas, no caso dele, não houve resultado. Há um ano, o menino recebe outra intervenção, a técnica ABA (Análise de Comportamento Aplicada). A nova terapia tem proporcionado resultados positivos --o garoto tem conseguido manter contato visual, o que antes não ocorria, e fala algumas palavras. Foi necessária a administração de medicamento para tratar agressividade e irritabilidade, mas hoje ele toma apenas um remédio para auxiliar no sono.

Benício frequenta uma escola regular da rede pública e possui uma acompanhante, professora especializada em educação especial --direito do autista concedido por lei. 
Lucelmo é doutor em educação e criou o Núcleo de Atenção ao Transtorno do Espectro do Autismo (NATEA), onde oferece cursos gratuitos relacionados ao autismo para informar pais e familiares. Ele acredita que é muito importante que os responsáveis de uma pessoa com autismo também recebam cuidados especializados. “Os pais precisam se cuidar e ter um acompanhamento psicológico, porque não é nada fácil. Além disso, temos de nos organizar para exigir do poder público que cumpra sua parte. Buscar ligação com outras famílias para obter grandes conquistas”, conclui.


“Não é uma sentença de luto, é uma sentença de luta”

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Carol precisa de ajuda para fazer atividades básicas do dia a dia Imagem: Arquivo pessoal
Graça Maduro vive em Petrópolis (RJ) e é mãe adotiva de Caroline, 28 anos, diagnosticada com autismo severo. “Quando adotei a Carol, com 1 ano e 4 meses, ela ainda não engatinhava. Achei que fosse um problema de subnutrição. O primeiro diagnóstico foi de atraso psicomotor --o autismo só foi confirmado aos 3 anos”, diz Graça.

No período que antecedeu o diagnóstico, Caroline começou a fazer fisioterapia e desenvolveu bem a habilidade de andar, porém ainda apresentava outros sinais. “Ela era uma criança irritadíssima. Ficava muito aborrecida, gritava muito, se mordia, batia a cabeça.

Caroline chegou a frequentar uma escola especial, onde havia crianças com outras deficiências. “Ela começou a imitar os comportamentos dos outros --por exemplo, andava arrastando a perna. Isso foi piorando sua situação”, revela a mãe.

Com um grau mais severo de autismo, Caroline precisa da ajuda de uma acompanhante para realizar atividades do dia a dia, como ir ao banheiro, tomar banho e trocar de roupa. A garota tem comorbidades como epilepsia, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), e necessita da administração de medicamentos. Também recebe acompanhamento psicológico e psiquiátrico. “A gente procura estimular dentro de casa. Às vezes, até o médico vem aqui, porque é muito complicado andar com ela na rua”, conta a mãe.

Graça administra uma página no Facebook, “O autismo em minha vida”, na qual compartilha suas experiências, para ajudar outras famílias de pessoas com TEA. “Digo para nunca desistir. Existe uma frase que fala que o autismo não é uma sentença de luto, é uma sentença de luta. Você luta dia a dia, minuto a minuto, para conseguir manter seu filho inserido na sociedade, equilibrado e feliz.

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