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Síndrome causada por maconha pode ser aliviada por banhos quentes

Joshua Lott/The New York Times
Thomas Hodorowski, que deixou de fumar maconha depois de entender que seus episódios de náusea e vômito durante anos foram causados por seu hábito. Imagem: Joshua Lott/The New York Times

Roni Caryn Rabin

The New York Times

16/04/2018 15h34

Quando Thomas Hodorowski fez a conexão entre seu hábito de consumir maconha e os quadros de dor e vômito que algumas vezes chegavam a deixá-lo incapacitado, já tinha ido ao pronto-socorro inúmeras vezes, tentado medicamentos antináusea, ansiolíticos e antidepressivos. Passou por endoscopia e duas colonoscopias, foi a um psiquiatra e removeu o apêndice e a vesícula biliar.

A única maneira em que conseguia alívio da náusea e da dor era durante uma ducha de água quente. Muitas vezes, ficava horas no chuveiro. Quando a água quente parava, "a dor era insuportável, como se alguém estivesse torcendo meu estômago como se fosse um pano", disse Hodorowski, de 28 anos, assistente de produção e transporte, que vive perto de Chicago.

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Levou quase 10 anos até que um médico finalmente o convencesse de que o diagnóstico era síndrome de hiperemese por canabinoides (SHC), uma condição que provoca vômitos cíclicos em usuários frequentes de maconha e pode ser curada quando seu uso é interrompido.

Até recentemente, a síndrome era considerada incomum ou mesmo rara. Mas como o uso de maconha aumentou, os médicos de prontos-socorros dizem que têm visto um fluxo constante de pacientes com os tais sintomas, especialmente nos estados onde a erva foi descriminalizada e há maior probabilidade de os pacientes declararem seu uso aos médicos.

"Depois que a maconha foi legalizada no Colorado, o número de casos dessa síndrome de vômito cíclico dobrou", muitos provavelmente relacionados ao uso de maconha, disse a Dra. Cecilia J. Sorensen, médica de emergência do Hospital da Universidade do Colorado que estuda a síndrome.

"A SHC deixou de ser algo que não conhecíamos e sobre o qual nunca conversávamos e se tornou um problema muito comum nos últimos cinco anos", disse o Dr. Eric Lavonas, diretor de medicina emergencial no Denver Health e porta-voz do American College of Emergency Physicians.

Um novo estudo, baseado em entrevistas com 2.127 adultos menores de 50 anos no pronto socorro de Bellevue, um grande hospital público na cidade de Nova York, descobriu que, dos 155 pacientes que disseram fumar maconha pelo menos 20 dias por mês, 51 deles declararam ter passado por algum quadro de náusea e vômito que era aliviado por banhos quentes nos últimos seis meses.

Extrapolando esses achados, os autores estimam que mais de 2,7 milhões dos 8,3 milhões de americanos que sabidamente fumam maconha quase diariamente ou diariamente podem sofrer de algum episódio eventual de SHC.

"A grande novidade é que não são duas mil pessoas afetadas – mas dois milhões de pessoas", disse o Dr. Joseph Habboushe, professor assistente de medicina emergencial em NYU Langone/Bellevue Medical Center e autor do novo artigo publicado na Basic & Clinical Pharmacology & Toxicology.

No entanto, outros questionaram o resultado dessa média que diz que uma a cada três pessoas tem a síndrome. Paul Armentano, diretor adjunto da Organização Nacional das Reformas de Leis sobre Maconha (NORML), disse que mesmo com o uso mais difundido da erva, "esse fenômeno é relativamente raro e pouco relatado" e ataca apenas "uma pequena porcentagem das pessoas".

E vários médicos que prescrevem rotineiramente maconha medicinal para condições que variam de dor crônica a epilepsia disseram que não têm visto a síndrome de vômito cíclico em seus pacientes, mas observaram que geralmente prescrevem compostos que não são projetados para produzir um barato e contêm quantidades muito baixas do ingrediente psicoativo, o THC.

Habboushe disse que médicos em outras partes do país podem não estar familiarizados com a SHC ou pensam queela seja ou uma síndrome psiquiátrica ou relacionada à ansiedade. E, mesmo que tenham ciência disso, muitos consideram a como um "tipo raro de doença, meio engraçada", repleta de casos de pacientes que passam horas debaixo do chuveiro.

Surtos de 12 horas

Mas a síndrome pode ser bastante séria. Um veterano de guerra de 33 anos, que pediu para não ser identificado, descreveu surtos de até 12 horas em que se sentia como se "um baiacu com pontas afiadas estivesse inflando e enfiando seus espinhos nos dois lados da minha coluna. Eu já quebrei ossos antes, mas isso foi muito pior do que qualquer coisa".

Habboushe acrescentou: "Sei de pacientes que perderam o emprego e até faliram buscando cuidados médicos, e mesmo assim levou anos até conseguirem um diagnóstico apropriado".

"A maconha é provavelmente mais segura do que um monte de outras substâncias, mas a discussão sobre isso tem sido tão politizada e com o foco recaindo sobre os potenciais benefícios, nunca olhando com rigor para as possíveis desvantagens. Nenhum medicamento está livre de efeitos colaterais", completou.

Os pacientes muitas vezes chegam ao hospital com desidratação severa por conta da combinação de chuveiradas quentes e a incapacidade de manter alimentos ou líquidos no estômago e isso pode levar a insuficiência renal aguda, disse Habboushe.

Mas, como muitas pessoas desenvolvem a síndrome somente depois de anos do uso de maconha, elas não a relacionam ao hábito de fumar e têm dificuldade em aceitar o diagnóstico.

A confusão é compreensível, disse Sorensen. "A maconha é vista como medicinal e é dada para pessoas com câncer e Aids. As pessoas sabem que é usada para ajudar com a náusea e estimular o apetite, então é difícil fazer com que os pacientes aceitem que ela pode ser a responsável por náuseas e vômitos."

Não está claro por que a maconha pode produzir efeitos tão díspares nos usuários. Sorensen muitas vezes diz aos pacientes que é como desenvolver alergia ao seu alimento preferido.

Ter o diagnóstico preciso muitas vezes leva tempo. O paciente médio faz sete viagens ao pronto socorro, vê cinco médicos e é hospitalizado quatro vezes antes que um definitivo seja feito, fazendo o custo subir para mais de US $100 mil em contas médicas, apontou o estudo de Sorensen.

"Eles têm que passar por um check-up muito caro para obter diagnósticos, tomografias computadorizadas e às vezes até cirurgia exploratória", para descartar condições perigosas como apendicite ou obstrução intestinal, disse Sorensen. "No final dessa bateria toda, os médicos falam para o paciente 'você está fumando maconha demais'".

Os sintomas da SHC muitas vezes não respondem ao tratamento, embora alguns médicos tenham obtido sucesso com o haloperidol antipsicótico (vendido sob a marca Haldol) e com creme de capsaicina.

A boa notícia é que a SHC tem uma cura bem simples: abstinência. A dor e os episódios de vômito cessam quando o paciente para de fumar, dizem os especialistas. Se voltarem a fumar, é provável que haja recorrência dos sintomas.

Hodorowski contou que parou de fumar quando finalmente aceitou que a maconha era a causa de seus problemas, acrescentando que permaneceu em estado de negação por bastante tempo. Ele está contando sua história para que os outros possam aprender com sua experiência. "Espero que as pessoas sejam honestas com elas mesmas, para não terem que passar pelo que eu passei. Tenho muita sorte de ter sobrevivido a isso."

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