Longevidade

Práticas e atitudes para uma vida longa e saudável

Com cara de casa: clínica de repouso nos EUA pode revolucionar velhice

Bryan Anselm/The New York Times
Nas Green Houses, os residentes têm mais independência e as instalações são menos institucionais --uma grande melhoria em relação à maioria dos lares de idosos Imagem: Bryan Anselm/The New York Times

Paula Span

Do New York Times

28/12/2017 14h20

Muitas coisas parecem diferentes quando se entra em uma pequena clínica de repouso da Green House.

O claro refeitório e a área de convivência, cheios de enfeites natalinos nesta época do ano. A cozinha aberta adjacente, onde a equipe prepara o almoço. Os quartos e banheiros privativos. A ausência de longos corredores desolados, carrinhos de medicação e outros lembretes de alas hospitalares.

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Eu estava visitando a Green House Homes em Green Hill, centro de assistência médica contínua em West Orange, Nova Jersey, Estados Unidos. Dorothy Bagli, 91 anos, me mostrou seu quarto, com vista para o jardim e cheio de obras de arte de casa e fotos dos netos; seu filho é repórter do New York Times.

"Pude conhecer a maioria das pessoas que moram aqui", diz ela --tarefa mais fácil quando existem apenas dez residentes.

"É bem íntimo. Lembra muito uma casa", concorda Eleanor Leonardis, que não quis revelar a idade e está se recuperando de um tombo feio.

Contudo, o que mais me chamou a atenção foi um homem sentado sozinho à mesa comunitária, tomando o mingau de aveia matinal --ao meio-dia. A equipe sabe que ele não gosta de comer logo pela manhã.

Em casas de repouso tradicionais, os funcionários têm de correr para tirar os moradores da cama, ajudar a se vestir, acompanhá-los à sala de jantar quando o café for servido e, talvez, conduzi-los à fisioterapia. Lugares assim sofrem para garantir um mínimo de autonomia pessoal.

Aqui, fisioterapeutas vêm às casas da Green House. Caso um morador ainda esteja dormindo, voltam mais tarde.

Bryan Anselm/The New York Times
Profissionais, amigos e familiares cantam canções de Natal para moradores em uma Green House Imagem: Bryan Anselm/The New York Times

Apesar de alguns problemas, a clínica tem um formato melhor para idosos

O Green House Project, que, em 2003, abriu sua primeira pequena clínica geriátrica em Tupelo, Mississippi, conta com apenas 242 casas licenciadas em 32 estados até agora, com mais 150 em diversos estágios de planejamento ou construção; a seguir: Bartlett, Tennessee, Lima, Ohio, e Little Rock, Arkansas. Isso é uma gota de água entre as mais de 15 mil clínicas de repouso dos EUA. Porém, poucos aspectos do envelhecimento geram tanto horror antecipado quanto os asilos e, assim, as Green Houses atraíram atenção desproporcional, incluindo cobertura da imprensa.

Elas pareciam personificar a mudança. "Os números ainda são modestos, mas é verdadeiramente um modelo diferente de assistência", afirma Sheryl Zimmerman, gerontologista e pesquisadora de serviços de saúde da Universidade da Carolina do Norte, campus de Chapel Hill.

Isso ainda não estava claro, até que Zimmerman e uma equipe de pesquisadores realizaram o levantamento mais abrangente até agora sobre o formato e sobre como os novatos estavam se saindo. "O modelo funciona?", ela questiona. "É sustentável e pode ser reproduzido?"

O estudo de quase cem Green Houses comparadas com casas de repouso comuns, financiado com US$ 2 milhões da Fundação Robert Wood Johnson e publicado em "Health Services Research", mostrou que os recém-chegados não cumprem todas as suas metas e promessas.

Embora o "controle dos ritmos do dia" represente um pilar da vida na Green House, como afirma um de seus folhetos, os pesquisadores descobriram que quase um terço das casas não permitia que os moradores decidissem a hora de acordar e a maioria restringia a hora em que poderiam tomar banho. Na comparação com clínicas de repouso tradicionais, a Green House apresenta uma probabilidade muito menor de oferecer atividades normais.

Contudo, no geral, o estudo, que engloba nove anos de dados, termina com uma nota positiva. "Comparadas às clínicas tradicionais, sem dúvida, é um modelo preferível de atendimento", afirma Zimmerman.

Entre os motivos:

– A Green House designa os mesmos funcionários para os mesmos residentes. "As pessoas conhecem você. Sabem do que gosta ou não. Existe maior confiança e familiaridade. As relações se formam", diz Zimmerman.

Um funcionário (no jargão da empresa um "shahbaz") que conhece bem os moradores também tem maior capacidade de detectar problemas de saúde iniciais. "Como os empregados estão em contato mais próximo e contínuo, estão mais cientes de mudanças nas condições dos residentes", conta Zimmerman.

Um shahbaz da Green House passa muito mais tempo cuidando dos pacientes: em média 4,2 horas por residente por dia, contra 2,2 horas em casas de repouso tradicionais. Na Green House, isso inclui tarefas como preparar as refeições e lavar roupa.

– Na comparação com casas de repouso tradicionais, os moradores da Green House se saíram melhor em três de oito critérios de inspeção federal, com notas boas nos outros. Os pesquisadores concluíram que os residentes da Green House apresentam probabilidade 16 por cento menor de estar acamados, 38 por cento menor de ter escarras (úlceras de pressão) e 45 por cento menor de usar cateter. Hospitalizações evitáveis e reinternações também eram menores, tranquilizando observadores preocupados com a probabilidade de que a ênfase da empresa em qualidade de vida pudesse sacrificar a qualidade de atendimento.

– Embora uma Green House seja mais cara de construir (incluindo um pagamento de US$ 200 mil ao Green House Project, entidade sem fins lucrativos, por treinamento, projeto e suporte), com custos operacionais oito por cento mais altos do que o das casas de repouso tradicionais, eles economizam 30% em Medicare (seguro-saúde para idosos) por residente por ano. Entretanto, cobram um pouco mais dos residentes ou de suas seguradoras do que as clínicas comuns.

As construtoras também parecem capazes de adaptá-las a grupos particulares. Foram construídas unidades para vida assistida, veteranos de guerra, uma agência de conjuntos habitacionais, para pessoas com demência e esclerose múltipla.

A empresa também incorpora o tratamento a pacientes terminais. "Nós nos esforçamos ao máximo para dizer: 'Este é um lar para a vida'", diz Susan Ryan, diretora do Green House Project.

Ela está incomodada com a lentidão com que o modelo se espalha, em parte por causa das complexas regras estaduais e dos obstáculos financeiros.

Bryan Anselm/The New York Times
A sala comunitária de uma das Green Houses Imagem: Bryan Anselm/The New York Times

Casas de repouso devem se assemelhar mais ao modo como a sociedade vive

Críticos que lamentam o estado das clínicas de repouso nos Estados Unidos têm pedido uma "mudança cultural" há pelo menos 20 anos. Isso significa "desinstitucionalizar as casas de repouso, deixá-las mais parecidas com o modo como vivemos, com nossas próprias rotinas e objetos familiares", afirma Robyn Grant, diretora de política pública da National Consumer Voice for Quality Long-Term Care.

Até agora só houve progressos modestos neste sentido, diz Grant. Então, talvez uma função do modelo Green House seja apontar o caminho.

Para Grant, "existem muitos elementos que poderiam ser adotados por outras clínicas geriátricas. Existem maneiras de reduzir o tamanho e torná-las menores", com funcionários sempre designados a um grupo de residentes. As instalações poderiam ser reformadas para oferecer quartos particulares e dar mais voz aos residentes sobre suas rotinas.

Em Green Hill (uma revelação: meu falecido pai morou ali durante um ano e meio, mas não em uma Green House), a família de Dorothy Bagli discutiu se deveriam transferi-la para a uma clínica de repouso tradicional, com custos um pouco menores. Todavia, Jeanne Jenusaitis, uma de seus 12 filhos, pensa que a escala menor da Green House se adapta melhor à mãe.

Será que a mãe, que tem demência, não iria se perder tentando achar o caminho pelos longos corredores de uma clínica? Será que um funcionário estaria sempre de prontidão para aplacar seus medos?

Para Jenusaitis, sua Green House "parece muito pouco com uma casa de repouso. Ela gosta da sensação de estar em casa".

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