Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica

"Era a minha primeira tentativa de meditação e eu estava com medo"

Getty Images
Monges budistas andam em grupo santuário de Koyasan Imagem: Getty Images

Anna Hezel

Do The New York Times

30/10/2017 12h22

"Os olhos não devem ficar nem abertos, nem fechados, só ligeiramente entreabertos, como os do Buda", explica o monge diante da sala. Era a minha primeira tentativa de meditação e eu estava com medo de cometer algum erro grosseiro. Pisquei, aí tentei relaxar as pálpebras, mas comecei, sem querer, a prestar atenção na almofada laranja da pessoa na minha frente. Fechei os olhos com um suspiro interno de exasperação com tamanha dificuldade em seguir as instruções. O monge que liderava a sessão nos disse, bem-humorado, que ajuda repousar a visão na ponta do nariz.

Eu estava sentada no salão de meditação todo acarpetado de um templo budista de 1.100 anos em Koyasan, região montanhosa no sudeste do Japão, separado do jardim apenas por uma porta de madeira fininha, de correr. O ar ali dentro era fresco e tinha perfume de pinho, mesclado com a fumaça do incenso que queimava no altar. Cerca de outros quinze turistas sonolentos dos EUA, Europa e Austrália (a aula era para visitantes anglófonos) se encontravam à minha volta, sentados no chão, contando pausadamente a respiração.

Local sagrado

Koyasan é um dos principais destinos para peregrinos budistas no Japão, considerado um dos locais mais sagrados do país. Foi escolhido há 1.200 anos pelo monge Kobo-Daishi pela geografia "de lótus" – um vale raso aninhado entre as montanhas – para ser a sede do budismo esotérico Shingon. A religião, que data da dinastia Tang, dá ênfase ao ritual diário como meio de se alcançar a iluminação de maneira imediata e praticável, desenvolvendo o que vários monges descrevem como uma "natureza de Buda". Ao longo do último século, o berço da religião também vem atraindo um número cada vez maior de visitantes sem qualquer laço com ela – aqueles que se veem atraídos pela montanha, a paz, a história ou levemente fascinados pelo misticismo de outras épocas.

Eu estava ali por causa de tudo isso, e pela promessa de um cantinho isolado, a milhares de quilômetros de tudo, física e mentalmente, inclusive das ansiedades frenéticas de Nova York. Quis me desafiar a conhecer um lugar com lógica e ritmo diferentes, a me ver desaparecendo, ainda que brevemente, na magnitude de um rito de 1.200 anos. Também me atraía a perspectiva de um lugar verdadeiramente escuro à noite, onde as encostas íngremes e verdejantes são completamente absorvidas pela escuridão. E, como muitos outros, também queria algo um tanto ingênuo e capitalista com o aprendizado: adquirir uma experiência ascética.

A montanha é pontilhada por um total de 52 shukubos, templos que historicamente oferecem pernoite aos peregrinos. A maioria também começou a receber turistas não religiosos nas últimas décadas (ainda há aproximadamente uma dúzia de redutos). Por uma diária cujo preço varia entre US$80-US$150, é possível dormir em um tatame no chão de um quarto tradicional de um templo de mil anos de idade, comer as delícias veganas preparadas pelos monges e participar da meditação e das orações diárias.

Alguns chegam a oferecer atrativos como aulas de escrita sutra, a visão dos monges cuidando dos jardins ou banhos em fontes termais naturais – detalhes que não podem ser filtrados no Airbnb ou no Hotels.com. E no caso de muitos dos templos, não dá para ter certeza absoluta do que se está adquirindo – uma ambiguidade que me atraiu em uma época em que todo destino de viagem já foi meticulosamente registrado e fotografado.

Para todos

Embora os templos de Koyasan fossem originalmente reservados para os peregrinos mais devotos, o budismo é famoso por sua aceitação de outras religiões. Assim, ao longo do último século, com os templos do Japão e outros países passando a ter dificuldades financeiras por causa do menor número de doações, a solução natural foi abrir um pouco mais as portas e receber os mais curiosos.

Estudando as opções de shukubo antes da viagem, descobri que muitos visitantes anteriores ficaram horrorizados com a simplicidade das acomodações. Alguns, inclusive, escreveram no TripAdvisor.com que os quartos eram gelados, ou que podiam ouvir os vizinhos roncando através das paredes de papel de 200 anos do templo. Mais de um reclamou que as refeições veganas, apesar das várias opções, eram muitos simples para saciar aqueles que estavam acostumados a comer carne. "Leve guloseimas ou morra de fome", foi o alerta.

Outros acharam não ter recebido um direcionamento espiritual decente pelo dinheiro pago. "Esperava algo mais místico, um clima mais zen, mas devo confessar que não senti nada", choraminga o sujeito de Ohio. E teve quem reclamasse dos monges por não falarem inglês direito ou não oferecerem mais atenção individual aos visitantes. "A maior decepção foi durante o jantar. Eu esperava ter a oportunidade de socializar com os monges", escreveu alguém.

Na verdade, esses comentários me fizeram mais rir do que mudar de ideia. Eu queria ir e provar a mim mesma que não me importava muito com o friozinho do ar ou um ruído no quarto ao lado. Talvez fosse uma outra forma de crescimento espiritual, em microescala, prova da minha congruência com o universo, ainda que em condições levemente desconfortáveis.

Odisseia de viagem

Como era de se imaginar, para chegar a esse bastião de iluminação seriam necessários vários meios de transporte. Embora Koyasan fique a menos de 140 km de Kyoto, a viagem até lá não deixa de ser uma odisseia. De Kyoto, tomei três trens diferentes, passando por usinas de energia, estufas, pequenos vilarejos, pés de yuzu em muitos quintais e quadras de grama de tênis. No sopé da montanha, ao lado de vários mochileiros europeus, troquei o trem por um bondinho. Lá no topo, um ônibus nos esperava para a última fase do caminho, ao lado de ravinas cobertas de cedro desesperadamente íngremes, rumo ao centro de Koyasan.

Cheguei ao meu templo, Eko-in (parte do complexo Danjo Garan), ao mesmo tempo em que um casal norte-americano fazia o check-in com o filho adolescente. Um monge nos mostrou onde pôr os sapatos, ao lado da entrada ampla, de madeira entalhada. Usando tamancos de madeira, atravessei o labirinto de corredores de tábuas rangedoras rumo ao meu quarto – um espaço pequeno e sereno com portas de correr decoradas com uma pintura elaborada e um janelão que dava para o jardim central. Estava equipado com TV, aquecedor, telefone e Wi-Fi. À minha espera havia uns docinhos de feijão azuki e uma chaleira cheia de água quente para o chá.

Quando chegou a hora do jantar, um bando de monges chegou, trazendo um jarro de saquê aquecido e várias bandejas de laca, cada uma contendo diversas tigelinhas. A culinária tradicional do templo, chamada shojin-ryori, incorpora uma grande variedade de sabores, texturas e cores. Cuias minúsculas de caldo de legumes e sopa de missô se alternavam com travessas de tempuras delicados de flor de abóbora, raízes de lótus e folhas de shisô. Um recipiente com udon de repolho e cogumelos, substancioso, ainda que meio sem graça, estava disposto sobre um pequeno fogareiro. Mas o meu prato favorito foi aquele pelo qual Koyasan é famosa: o goma dofu, um tipo de pudim salgado feito de algo parecido com tofu, mas que na verdade é gergelim moído e araruta.

Depois que escureceu, saí do quarto rumo à entrada principal, para pegar meu sapato e fazer o passeio noturno pelo Cemitério Okunoin. Um monge que falava inglês seguia à frente do grupo de cerca de vinte visitantes de Eko-in e dos templos próximos nas trilhas iluminadas por lanternas que cruzavam o maior cemitério do Japão, mostrando os túmulos cobertos de musgos de figuras nacionais importantes, incluindo o do inventor do Kabuki e o do fundador da Panasonic. Nosso guia explicou que, uma vez que o budismo valoriza todas as formas de vida, nem todos os túmulos eram de humanos; a lápide de um deles, por exemplo, traduzia-se "A paz eterna para as formigas". Nas copas dos cedros de 600 anos de idade, dava para ouvir o chilreado e os guinchos dos esquilos voadores ecoando no ar.

Bem cedinho, antes de o café da manhã ser servido, os hóspedes são convidados a fazer as orações e a participar da cerimônia do fogo. O programa impresso deixado nos quartos pedia que se evitassem fotos com flash e alertava explicitamente: "O serviço matinal e o ritual do fogo NÃO SÃO ATRAÇÕES TURÍSTICAS; os monges devem cumpri-los diariamente em agradecimento aos santos budistas".

Apesar das recomendações, poucos resistiram à tentação de registrar pelo menos alguns momentos em vídeo pelo celular: os tambores, os cantos e as chamas se erguendo até o teto enquanto o monge que presidia a cerimônia queimava uma pilha de tábuas cobertas de orações. A maioria conseguiu filmar tudo discretamente, enquanto ajoelhada, em silêncio. A meio caminho do ritual, porém, arregalei os olhos ao reconhecer uma francesa que também estivera no cemitério, de pé, no fundo do salão, fazendo o que só poderia ser descrito como uma dancinha ao som da percussão – mas nenhum dos monges parecia visivelmente contrariado com sua manifestação espontânea.

Koyasan foi promovida pela Unesco a Patrimônio da Humanidade em 2004, como parte dos locais sagrados da cordilheira Kii; desde então, o número de visitantes estrangeiros que passam por ali todo ano quadruplicou, enquanto que o de japoneses caiu.

Mais turistas em busca de solidão e simplicidade certamente podem tornar um lugar bem menos plácido e, como visitante, é difícil ignorar o fato de que você está contribuindo com o barulho e o lixo gerado por esse fluxo de estrangeiros. No entanto, é incrivelmente emocionante ter a possibilidade de vagar pelo silêncio e a escuridão de um cemitério à noite, acrescentando seus passos aos de milhares de pessoas que trilharam os caminhos de pedra ao longo dos séculos. De repente, percebe que pode ocupar um espacinho de nada e fazer o mínimo de barulho quando quer.

Mordomias para turistas

Jynne Martin, a amiga que me recomendou Koyasan e esteve lá pela primeira vez há dez anos, voltou no ano passado, hospedando-se em Shojoshin-in das duas vezes. Na primeira viagem, só viu outros bdois turistas no templo; o resto eram todos peregrinos. Em 2016, só viu turistas.

Para sua ligeira decepção, Shojoshin-in incluíra mordomias como TV e internet em todos os quartos. Algumas lojas de conveniência e uma máquina de vender cerveja também surgiram em uma das ruas principais da aldeia. Apesar disso, para Jynne Koyasan não perdeu o ar mágico. "Tenho a impressão de que há um eco, uma ressonância na floresta, no cemitério e nos templos; é uma vibração baixa que sempre esteve ali. É uma energia maravilhosa que existe lá em cima da montanha, mesmo com a TV e a internet", diz ela.

Depois do check-out em Eko-in, converso alguns minutinhos com Yuta Kobayashi, um dos monges que cuida do templo. Ele me diz que, embora Koyasan continue dependendo das doações dos devotos budistas, é cada vez maior a fatia da renda fornecida pelos turistas. "O governo e o povo japonês não são responsáveis pela manutenção dos prédios antigos e de uma cultura tradicional", afirma.

Pergunto se chega a ler as resenhas on-line de seu templo; ele confessa que sim. "Opiniões boas e ruins, aceito todas. E se tiver a chance de mudar ou melhorar algo, com certeza me empenharei ao máximo." E admite que o único tipo de crítica que o incomoda é a que acusa os rituais de 1.100 anos de serem exibicionistas ou turísticos. "São cumpridos todas as manhãs, mesmo quando não há ninguém de fora aqui", explica, rindo.

Interessado?

No Eko-in (497 Koyasan; 0736-56-2514; ekoin.jp), por 15 mil ienes por pessoa (cerca de US$130), é possível reservar um quarto nos moldes tradicionais, com direito à vista para o jardim, banheiro compartilhado e duas refeições. Por 20 mil, garante um quarto com banheiro privativo. Os preços variam um pouco de acordo com a temporada.

O Shojoshin-in (556 Koyasan; japaneseguesthouses.com) cobra entre 10.800 e 12.960 ienes/pessoa por um quarto com banheiro compartilhado. Por 16.200, ganha o direito a um banheiro privativo. A diária inclui duas refeições, mas sem bebidas alcoólicas.

O quarto com banheiro compartilhado no Fukuchi-in (657 Koyasan; 0736-56-2021, fukuchiin.com) sai entre 14 mil e 16.500 ienes/pessoa, dependendo da vista para o jardim. O quarto com banheiro privativo sai por 18.500 ienes/pessoa. O ofurô externo pode ser usado por todos os hóspedes.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Blog do Guilherme Giorelli
Blog do Prem Baba
do UOL
Blog da Lúcia Helena
Blog do Dan Josua
do UOL
Blog da Lúcia Helena
Mindfulness para o dia dia
Blog da Georgia Castro
Estilo
Blog do Guilherme Giorelli
Blog do Prem Baba
Blog da Lúcia Helena
Blog do Dan Josua
do UOL
Mindfulness para o dia dia
Blog da Lúcia Helena
do UOL
Blog da Georgia Castro
do UOL
Blog do Guilherme Giorelli
Blog do Prem Baba
Blog da Lúcia Helena
do UOL
Blog do Dan Josua
Estilo
do UOL
Mindfulness para o dia dia
Blog do Prem Baba
BBC
do UOL
Mindfulness para o dia dia
Blog do Prem Baba
do UOL
do UOL
Mindfulness para o dia dia
Blog do Prem Baba
Mindfulness para o dia dia
Blog do Prem Baba
do UOL
Mindfulness para o dia dia
Blog do Prem Baba
do UOL
do UOL
do UOL
Blog do Prem Baba
do UOL
Blog do Prem Baba
Redação
Blog do Prem Baba
Topo